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John Dominic Crossan: o papa do Jesus histórico

Mais importante estudioso da vida de Jesus, John Dominic Crossan diz que o Cristo era solteiro e que acharia um absurdo proibir a ordenação de mulheres

Jesus está mesmo enterrado perto de Jerusalém? O Evangelho de Judas é autêntico? É verdade que ele se casou com Maria Madalena? Polêmicas em torno da verdadeira história de Jesus ganham a imprensa e os canais de TV a cabo desde 1985, quando começou, nos EUA, o Seminário Jesus, uma série de estudos i­dealizada por um ex-padre: o historiador John Dominic Crossan.

Professor emérito da Universidade DePaul, de Chicago (EUA), e autor de 24 livros sobre o Jesus histórico, Crossan é um dos maiores especialistas no mundo em estudar o Novo Testamento com olhar de historiador. Baseando-se em diversas ciências – história, teologia e arqueologia bíblica – ele trata os Evangelhos e documentos da época com o mesmo nível de importância: fontes históricas que precisam ser analisadas e contextualizadas pela ciência.

Em entrevista na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde participou de uma versão brasileira do seminário que criou, Crossan manteve o jeito de padre ao falar de assuntos que tanto incomodam a Igreja sem prejudicar sua fé cristã. “Nosso esforço é o de separar o que, nos textos bíblicos, é fato histórico e o que é parábola religiosa”, afirma.

O que podemos afirmar de concreto sobre a vida de Jesus?

Primeiro, que ele existiu. Sabemos disso por meio de fontes romanas, judaicas e cristãs. Em segundo lugar, que ele foi mesmo crucificado pelo governador romano, legalmente, publicamente e oficialmente. Essa certeza de que ele existiu e foi condenado nos oferece muitas informações. Se foi crucificado, é porque era publicamente subversivo às ordens romanas e fazia parte das classes mais baixas da sociedade. Não era um pregador violento, já que Pilatos não se preocupou em persegui-lo, como fez com os companheiros de Jesus, e, sim, em crucificá-lo. Em resumo, Jesus foi uma pessoa que resistiu ao imperialismo romano de forma não violenta em nome do Deus judaico.

E o que não podemos afirmar sobre ele?

Se as parábolas sobre Jesus fossem tomadas literalmente, nós teríamos sérios erros. Há vários fatos acerca da genealogia, concepção, nascimento e vida de Jesus contados de forma diferente pelos evangelhos do Novo Testamento. Um exemplo: em Mateus, um anjo aparece para José falando sobre o nascimento de Jesus. Já em Lucas, o anjo aparece para Maria. Esses dois evangelhos têm aberturas parabólicas: as histórias que contam a infância de Jesus não devem ser entendidas ao pé da letra. Dizer que Herodes matou as crianças em Belém para matar Jesus, como está em Mateus, é uma parábola. É afirmar que ele é o novo Moisés e Herodes é o novo faraó do Antigo Testamento.

No livro Jesus de Nazaré, o papa Bento 16 afirma que não há diferença entre o Jesus da fé e o da história. Já na ficção O Código Da Vinci, Jesus teria casado com Maria Madalena. Qual a relação entre o Jesus histórico e o Cristo da fé?

Para mim eles são idênticos, mas um deles é uma figura da história e está disponível para ser estudado. A distinção entre o Jesus da história e o Cristo da fé foi criada no século 19, período no qual o papa Bento 16 ainda se encontra com suas formulações [risos]. Na verdade, o Jesus histórico e o Cristo da fé são a mesma pessoa. É como a polêmica em torno do [então] presidente Bush. Há aqueles que o acham o melhor presidente da história americana; e há os que o consideram uma tragédia. São crenças diferentes sobre a mesma pessoa. Em relação ao Código Da Vinci, tenho duas observações: Maria Madalena foi de fato uma apóstola importante, mas não há evidências de que Jesus fosse casado com ela. Isso não significa necessariamente um celibato programático, tem mais cara de sinal de pobreza. Muitos camponeses jovens não conseguiam se casar por causa da falta de bens.

E o que se sabe sobre a morte de Jesus? Quem o matou foram os judeus ou os romanos?

Foi uma ação coordenada entre a nobreza sacerdotal que estava ligada ao imperialismo romano. Foram os religiosos conservadores locais que colaboraram com o poder romano. Jesus se opôs à união entre uma religião conservadora e a violência do império. Da mesma forma, alguns fariseus e seus estudantes foram martirizados por tentar, de forma não violenta, remover a águia dourada (símbolo do imperador) que estava sobre a entrada do templo. Esse ato mostra uma aproximação entre Jesus e os fariseus, que não eram a favor do domínio romano.

Como as descobertas recentes do Evangelho de Judas e do suposto túmulo de Jesus contribuem para os estudos sobre o Novo Testamento?

Em nada. Simplesmente não ajudam. O novo Evangelho não nos diz nada sobre a motivação histórica de Judas. Quanto aos túmulos, não acredito que sejam da família de Jesus. Os nomes que aparecem nas tumbas eram comuns naquela época.

Muitos religiosos afirmam que a importância de Jesus é o seu impacto cultural, e não quem ele ­realmente foi. Qual é então a necessidade de estudar o Jesus histórico?

O cristianismo sempre se considerou uma religião histórica. Trata-se de uma interação entre história e fé. Você estuda Jesus, historicamente falando, como estudaria qualquer outro objeto histórico. Se você é um religioso cristão, o que lhe interessa é o fato de ele se apresentar como Deus. No entanto, se você privilegia o elemento histórico da vida de Jesus, a sua análise não passa pelo campo da fé, mas pelo da história, o seu olhar é o de Pilatos. Neste caso, vai interessar entender o porquê de ele ter sido crucificado. A escolha é sua.

Por que há resistência, por parte dos religiosos e dos acadêmicos, de estudar o Jesus da história?

Porque eles se recusam a aceitar o diálogo necessário entre história e fé. Existem muitos clérigos querendo fazer julgamentos históricos por meio da fé. Mas julgamentos assim são impossíveis. Para a história, o importante é o significado dos fatos. Cada religião faz reivindicações históricas. Mas cada doutrina precisa admitir que fé e religião são uma coisa, história é outra.

O que o fez seguir o caminho religioso tornando-se padre? E por que desistiu do sacerdócio?

Quando eu tinha 15 anos, achava que ao me tornar um monge teria a vida mais interessante que poderia levar. Meu pai foi um gerente de banco e nunca me vi nessa profissão. Depois de 12 anos, larguei o ofício religioso por dois motivos. Primeiro, porque eu queria me casar. Segundo, porque, mesmo que a Igreja tivesse mudado as regras, teria saído. Eu estava em constante conflito ideológico com o arcebispo cardeal de Chicago. Não conseguia manter a integridade de ser professor e padre.

Como o senhor avalia os casos públicos de pedofilia envolvendo padres?

Pedofilia é um abuso sexual de poder. E a hierarquia católica romana está profundamente imersa em abuso de poder em relação às pessoas leigas em geral. Talvez essa seja a razão de tantos escândalos.

O senhor é a favor do celibato dos padres?

Sou a favor apenas para aqueles que o aceitam como vocação. O celibato não é válido como uma condição para atingir um objetivo.

E da ordenação das mulheres?

A idéia de proibir a ordenação das mulheres seria um absurdo para Jesus e um escândalo para Paulo. Como diz uma passagem dos Romanos, “saudai Andrônico e Júnia, meus parentes e companheiros de prisão, apóstolos exímios que me precederam na fé em Cristo”. Os bispos católicos romanos, que reivindicam para si uma ligação direta com os apóstolos de Jesus e se consideram seguidores das ideias cristãs, são contra tal ordenação. No entanto, se os bispos são mesmo herdeiros das ideias de Jesus e de são Paulo, devem aceitar as mulheres como sacerdotisas e bispas.

Qual o maior problema que as religiões enfrentam hoje em dia?

É o terrorismo religioso. O problema político mais sério hoje em dia é a violência baseada na fé. Isso acontece em todas as grandes religiões, incluindo o cristianismo. Para combatê-lo, o melhor caminho que temos é o convívio pacífico entre as religiões. Não significa ser relativista, acreditar que tudo é relativo e depende da cultura. Mas deixar de acreditar em um Deus selvagem.

De acordo com o Novo Testamento, Jesus vai retornar para separar o bom do mau, o justo do injusto. O senhor acredita nessa visão?

Eu acredito que o céu e o inferno não sejam lugares do futuro, mas possibilidades aqui do presente. O século 20 foi a visão mais clara do inferno. Este século parece que não será muito melhor do que o anterior. Para mim, como cristão, Jesus não vai retornar, pois ele nunca foi embora. “E eis que Eu estou convosco todos os dias”, diz Mateus no capítulo 28, versículo 20. Jesus não está aqui nos sobrevoando. Eu acredito na presença dele na atualidade, à medida que nós coloquemos em prática a realidade não violenta que ele pregou.

*Com tradução de Monica Selvatici.

John Dominic Crossan

• Em 1967, quando estourou a Guerra dos 6 Dias, Crossan estudava arqueologia em Jerusalém. Teve que sair de lá às pressas.
• Casado com Sarah, não tem filhos biológicos. Ela sim, teve 2 filhos e 5 netos.
• Nascido na Irlanda, se mudou para Chicago (EUA) em 1950, aos 16 anos. Hoje, aposentado, mora na Flórida.
• Foi membro dos servitas, ordem religiosa da Igreja Católica, entre 1950 e 1969.