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O prepúcio de Jesus e ossos de dragão: as falsas relíquias da Idade Média

Bugigangas que supostamente pertenceram a pessoas santas eram comuns na Europa feudal. Vendê-los era uma prática mentirosa e rentável.

Por Fábio Marton - 19 jun 2020, 13h28

Durante a Idade Média, um negócio inusitado encheu o bolso dos viajantes, reais ou alegados, que retornavam da Terra Santa: o de traquitanas e partes humanas, que teriam supostamente um dia pertencido a mártires, santos ou – esse era o “santo graal” do negócio – do próprio Jesus. A esses objetos eram atribuídos poderes milagrosos, capazes de curar peste bubônica, dar corpo fechado na guerra, ou boa sorte nos negócios. Mesmo quando as relíquias eram falsas (ou seja, sempre), as igrejas faziam um bom negócio ao comprá-las, porque se tornavam pontos de peregrinação. Abaixo, as relíquias mais curiosas, famosas ou simplesmente bizarras.

Sagrado Prepúcio

Como Jesus ascendeu aos céus de corpo inteiro, a única parte que haveria ficado na Terra é a que foi tirada dele com oito dias de vida, conforme o ritual judaico: a pele do pênis. Até 18 candidatos a Sagrado Prepúcio circularam de mão em mão na Idade Média. Roma guarda um deles, que foi dado ao papa pelo imperador Carlos Magno, no ano 800. O monarca afirmou que foi dado por um anjo.

Santo Graal

Com tanta gente procurando, uma hora alguém diria ter achado. Mesmo na época em que as lendas foram escritas, muitas igrejas já diziam ter o Graal. No total, existem mais de 200 candidatos a Cálice Sagrado espalhados pela Europa. Os mais plausíveis são o Santo Cális na catedral de Valência e o Cálice de Doña Urraca, na Basílica de São Isidor. Ambos foram possivelmente feitos na época de Jesus.

Sudário de Turim

O tecido mais controverso do mundo chegou a Turim em 1453, após ter passado mais de um século com a família do cavaleiro Geoffroi de Charny, que o obteve numa peregrinação. Testes com carbono 14 indicam que não é mais velho que 1260, mas isso só aumenta o mistério. Como ele é anatomicamente correto, é possível que alguém tenha sido crucificado de verdade para fabricá-lo.

Pedaços da Cruz

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No século 16, o protestante João Calvino brincou que, se todos os pedaços da cruz que existiam no mundo fossem reunidos, daria para carregar um navio. Ainda hoje, centenas deles estão espalhados em igrejas pelo mundo, da Etiópia até as Filipinas. Os pregos da cruz também eram populares. A Coroa de Ferro da Lombardia, que já adornou a cabeça de reis, teria sido feita com um deles.

Sagrado Chinelo

As sandálias de Jesus foram dadas ao rei franco Pepino, o Breve, como agradecimento pela cessão de territórios para a criação dos Estados Papais, em 754, e ainda hoje estão na Abadia de Prüm, na Alemanha. O calçado em verdade foi feito um ou dois séculos antes, e usado por papas. O que teria tocado os pés de Jesus são algumas tiras de couro que foram usadas em sua fabricação.

Lança do Destino

Dizia-se que quem possuísse a lança com que Jesus foi perfurado poderia controlar o mundo. Nas coroações do Sacro Império Romano Germânico, era usada a mais famosa, mas essa não teria sido exatamente a lança de Cristo, mas uma que teria sido forjada com um prego da cruz. A “verdadeira” Lança do Destino pode ser a que está na Basílica de São Pedro, em Roma. Ou também em Echmiadzin, Armênia.

Ossos de dragão

São Jorge não foi o único a matar dragões. São Donato também teria feito isso, e a prova está na catedral que leva seu nome, em Veneza, onde grandes ossos ainda adornam o altar. A catedral de Wawel, na Polônia, também guarda o que teria restado do dragão que assombrou a colina onde foi construída. Ambos, cultuados na Idade Média, são provavelmente ossos de mamute ou baleia.

Leite da Virgem

No século 12, São Bernardo de Claraval, um dos ideólogos das Cruzadas, sofreu um milagre inusitado: ao rezar perto de uma imagem da Virgem Maria, ganhou um esguicho de leite em sua boca. Depois do evento, se tornou fácil achar o “leite da virgem” em qualquer empório, para curar todo tipo de doença, incluindo peste bubônica, ou dar poderes sobrenaturais ao usuário.

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