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O rei da Grana

Jogador inveterado, mulherengo e assassino. Esse era John Law, um dos criadores do sistema bancário moderno.

Pense num banqueiro. Pense na figura sóbria de Amador Aguiar, fundador do Bradesco, ou de Olavo Setúbal, do Itaú. Pois bem, o sujeito que ajudou a dar a feição moderna aos bancos, no século 18, em nada lembrava esses senhores. O escocês John Law era extravagante a ponto de ser considerado vigarista pelo rei Luís 14 da França.

Órfão de pai, de família abonada, John se mudou para Londres na juventude. Recebia uma bolada mensal da mãe. Descontraído e de grande lábia, fazia conquistas fáceis entre as damas mal casadas.

Maior que a paixão pelas mulheres era o gosto pelo jogo, que lhe rendeu dívidas e uma temporada na cadeia. A experiência fez John prometer a si mesmo nunca mais perder: ele estudou a fundo tratados de probabilidade e de finanças.

A situação financeira da Europa de então era propícia para que um sujeito astuto e não muito ético, como John, prosperasse. Várias moedas oficiais coexistiam num mesmo país – e o povo continuava a utilizá-las mesmo depois de extintas pelo governo. Para unificar a babel financeira, John propôs a criação de um banco estatal centralizador. “Não existe país forte sem banco forte”, dizia. A um passo de se tornar o senhor das finanças inglesas, em 1694, matou um sujeito num duelo. Foi condenado à morte, mas fugiu – até hoje não se sabe como.

Na França, ficou amigo de Felipe, duque D’Orléans, sobrinho do rei Luís 14. Quando o rei – que detestava Law – morreu, em 1715, Felipe foi nomeado regente do reino (até que Luís 15, então com 5 anos, atingisse a maioridade). E deu um presentão para o amigo: o comando do Banque Générale, o grande sonho de John. Uma nova lei obrigava os coletores de impostos a depositar lá o dinheiro. Mas John Law começou a especular financeiramente e, para cobrir rombos, convencia Felipe a emitir mais papel-moeda. Financistas espertos logo farejaram perigo no Banque Générale. Houve, em 1720, uma corrida para sacar dinheiro, o que obrigou John, com ajuda da Coroa, a decretar feriado bancário. Não colou. O povo depredou o banco de Law.

A coisa ficou tão feia para o lado dele que teve de fugir da França, em direção a Veneza. Lá ele tentou se estabelecer, sem sucesso. Morreu de pneumonia em 1729, totalmente desacreditado.

Grandes momentos

• John Law disse ter aprendido a arte dos negócios na mesa de carteado. Ele sabia como ninguém calcular probabilidades durante o jogo e – principalmente – ler os pensamentos do adversário pelas suas feições.

• Condenado por matar um homem em 1694, John tentou o perdão do rei Guilherme. “Perdão a um escocês?”, riu-se o monarca inglês.

• Se John não tivesse sido tão ganancioso e perdido tudo na especulação financeira, seus herdeiros seriam bilionários apenas com os imóveis do escocês. John foi dono, por exemplo, de metade das casas da place Vendôme, ainda hoje um dos lugares mais chiques de Paris.