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Para que serve o papa?

A opinião do líder da Igreja pode até entrar por um ouvido de seus fiéis e sair pelo outro. Mas ela também tem o poder de mudar o mundo. E o papa Francisco tem tudo para isso

Alexandre Versignassi e Eduardo Szklarz

Ele não ganhava salário, mas tinha quatro empregadas, um mordomo e um secretário. “São a minha família”, dizia. Acordava às 6h, tomava banho, fazia a barba e se vestia de branco. Depois tomava café com a “família”, discutia a agenda do dia com seus assessores e, se não tivesse nenhuma audiência marcada, estudava um pouco de teologia até a hora do almoço, às 13h15. Fazia a siesta e voltava a estudar às 16h. O jantar era cedinho, às 19h30. Aí era ver o noticiário da noite na TV e cama. Às 21h, já tinha dado boa noite para os funcionários e vestido o pijama. Essa era a rotina de Bento 16. E no que depender de Francisco 1º, ela vai ficar ainda mais simples.

O então cardeal Jorge Bergoglio fez questão de pagar a conta do hotel onde se hospedou durante o conclave e, uma vez eleito papa, não quis usar a cruz de ouro nem o papa-móvel. Algo natural para um senhor que andava de metrô quando era arcebispo de Buenos Aires. Amante do tango e torcedor fanático do San Lorenzo, Francisco trouxe uma feição mais humana e bem-humorada ao papado que a do autor de livros de teologia Joseph Ratzinger.

Mas de resto não muda muita coisa: o novo papa já deixou claro que não conversa sobre aborto, camisinha, sexo antes do casamento…

Mas parece que falta combinar com os fiéis. O país com mais católicos no mundo é um vizinho da terra natal do papa chamado Brasil. Nesse país existe um instituto de pesquisa chamado Ibope. Em 2007, ele auferiu que 96% dos jovens que se dizem católicos são a favor do uso da camisinha. Entre toda a população de 18 a 29 anos, esse índice de aprovação é de 95%. Ou seja: ainda que dentro da margem de erro, os católicos tendem a ser mais a favor da camisinha. Quem puxa a média para baixo são os evangélicos, com “só” 92% de aprovação ao contraceptivo. A mesma pesquisa mostra que os católicos mais jovens também têm opiniões divergentes da Igreja em relação a outros temas espinhosos, como o aborto.

Então caramba. Se a opinião que o papa representa entra por um ouvido de seus fiéis e sai pelo outro, para que ele serve? Para ser um popstar ligeiramente mais velho que o Mick Jagger? Uma pessoa cujo principal trabalho é acenar para multidões?

Bom, parte do trabalho de ser papa consiste disso mesmo. Mas não fica nisso, claro. Por mais que certas posições da Igreja não façam mais sentido no tempo e no espaço em que seus seguidores vivem, o papel do homem que senta na Santa cadeira continua relevante. Papel não. Papéis, já que o Sumo Pontífice encarna vários personagens sob a mesma batina. E saber qual é cada um deles ajuda a entender melhor a dimensão real de um papa.

Primeiro, o mais banal desses papéis: o papa também é bispo. Ele é o responsável pela diocese de Roma de forma tão direta quanto dom Odilo Scherer pela de São Paulo. João Paulo 2º, por exemplo, passava as manhãs resolvendo as demandas da diocese local, que hoje conta com 5.994 padres e 2,6 milhões de fiéis.

Na sua função mais conhecida, a de líder supremo da Igreja Católica, o papa pode banir teólogos, canonizar beatos e nomear cardeais. De quebra, também tem o emprego de chefe de Estado do Vaticano – um enclave do tamanho de 52 campos de futebol no coração de Roma. Ali , o papa atua como o último monarca absoluto da Europa. Ele delega a administração a cardeais, mas pode mandar como bem entende nos 800 e poucos habitantes. Também dá as cartas em temas espirituais: ninguém pode julgá-lo nem recorrer de suas decisões. Mas ampla mesmo é a sua quarta missão: manter a paz entre a Igreja Católica, com seu 1,2 bilhão de fiéis, e as outras religiões – incluindo aí as outras vertentes do cristianismo, que somam elas próprias outro bilhão de seguidores.

João Paulo 2º levou isso a ferro e fogo: avançou no intercâmbio com os ortodoxos e tentou construir laços com os evangélicos. Foi também o primeiro papa a visitar uma sinagoga em Roma, em 1986, e o primeiro a entrar numa mesquita, na Síria, em 2001. Tanto fez que terminou o reinado como um superstar. Seu funeral, em 2005, reuniu pelo menos 4 milhões de pessoas e contou com mais chefes de Estado que qualquer outro evento fora da ONU.

Agora o papa Francisco nem bem assumiu e já é pop. Tanta expectativa ao redor de uma pessoa faz dela uma espécie de porta-voz da humanidade. As pessoas esperam que ele opine sobre tudo, como um Caetano Veloso de batina, com a diferença de que sua opinião se torna um fato global instantâneo. Em 1962, no auge da crise dos mísseis em Cuba, João 23 colocou panos frios na disputa entre EUA e URSS com um discurso pela paz emitido pela Rádio Vaticano. Em 1978, Chile e Argentina desistiram de guerrear por uma disputa no Canal de Beagle graças à mediação de João Paulo 2º. O mesmo papa ajudou a derrubar o comunismo na Polônia, seu país, dando apoio à oposição e bloqueando o monopólio da informação do regime. As paróquias polonesas distribuíam jornais clandestinos com informação sobre o que se passava no mundo do outro lado da cortina de ferro. E o fim do regime fechado na Polônia, em 1990, foi um dos marcos do fim da Guerra Fria.

Em suma: o papa pode até não ser ouvido pelos próprios fiéis quando o assunto é a vida particular deles. Mas às vezes influencia mais no destino do mundo do que qualquer chefe de Estado. Se o chefe da Igreja for um líder dinâmico e negociador, como foi João Paulo 2º, certamente vai deixar um legado relevante. E o simpático e firme papa Francisco tem tudo para isso. Buena suerte, Jorge.