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Pearl Harbor no Brasil

Entre 15 e 19 de agosto de 1942, um submarino nazista afundou 7 navios no litoral do Nordeste, causou 600 mortes e jogou o Brasil na 2ª Guerra Mundial. Agora pesquisas revelam novos detalhes da tragédia

Marcelo Monteiro (de Valença, Bahia)

Qualquer americano já ouvir falar do bombardeio-surpresa à base naval de Pearl Harbor, trauma nacional que jogou os EUA na 2ª Guerra Mundial. Alguns até se lembram de que foi em 1941. Mas poucos brasileiros sabem que, no ano seguinte, o Brasil também entrou no conflito por causa de ataques em alto-mar.

Apesar de oficialmente neutro, o Brasil fornecia borracha para a indústria bélica americana. As retaliações alemãs a esse apoio velado começaram em 15 de fevereiro de 1942, quando o navio mercante Buarque foi afundado perto da Flórida. Até o fim da guerra, em 1945, seriam mais 36 afundamentos no Atlântico, e cerca de 1 500 mortes.

Mas o “Pearl Harbor brasileiro” ocorreu entre 15 e 19 de agosto, quando 7 embarcações brasileiras foram afundadas na costa do Nordeste pelo mesmo submarino alemão, o U-507. No dia 17, os nazistas chegaram a afundar um navio e também o cargueiro que veio prestar socorro. “Esse duplo naufrágio foi a gota-d’água”, diz o historiador Edgard Oliveira, que estuda o episódio desde 1998. “Houve campanha nacional para que o presidente Getúlio Vargas respondesse aos ataques.” Cinco dias depois, o Brasil declarava guerra à Alemanha e seus aliados.

Oliveira está produzindo um documentário sobre os afundamentos, com direito a uma farta pesquisa, caça de destroços no fundo do mar e diário de bordo do submarino assassino. Quase 70 anos depois, seu trabalho e o de outros historiadores está ajudando a revelar essa passagem importante e esquecida do nosso passado.

Tomando partido
Se, em 1942, os submarinos nazistas afundavam navios brasileiros, antes da guerra houve quem apostasse que eles estariam lhes fazendo escolta. Em 1938, um ano antes do conflito, a Alemanha era quem mais exportava para o Brasil. Não só produtos e máquinas mas ideias: Vargas havia dado um golpe e instalado o Estado Novo, regime bem mais próximo do fascismo que da democracia. Nos anos seguintes, já durante a guerra, que foi construída a aliança que tornaria nossas embarcações alvo dos alemães – por iniciativa dos EUA.

“No plano econômico, os americanos se voltaram para obter o controle de compra de materiais estratégicos , como manganês, minério de ferro e borracha”, afirma Boris Fausto na sua História do Brasil. Como os maiores produtores de borracha asiáticos já estavam sob domínio japonês, restava aos americanos recorrer ao Brasil. “A resposta brasileira foi se aproximar cada vez mais do ‘colosso do norte’, procurando extrair vantagens da nova situação”, escreve Fausto.

Para afastar a Alemanha, parceira comercial e ideológica, os americanos se esforçaram: criaram o Zé Carioca, financiaram a construção da Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ), e até prometeram um papel de destaque para o Brasil numa futura ONU – essa acabou ficando só na promessa mesmo. No fim de 1941, tropas americanas estacionaram no Nordeste. Mesmo sem assumir publicamente, o país já havia se posicionado em favor dos Aliados.

Terror dos mares
Um espectro rondava o oceano Atlântico: o U-boot. Era assim que os alemães se referiam a seus submarinos (abreviação de unterseeboot, literalmente “barco-sob-o-mar”), todos batizados com um U seguido de um número. Em 1942, auge do seu domínio marítimo, mandaram 6 milhões de toneladas aliadas para o fundo do mar. Sob comando do almirante Karl Dönitz, seus alvos eram navios de carga que iam da América do Norte para a Europa – e do Brasil para os EUA, assim que ficou clara a aliança entre os dois países. Nos 6 meses seguintes ao primeiro ataque, em fevereiro, foram 15 afundamentos de embarcações brasileiras, que causaram a morte de 135 pessoas. E o pior estava por vir.

Em 7 de agosto de 1942, Dönitz autorizou o comandante do U-507, Harro Schacht, a realizar “manobras livres” no litoral brasileiro. O eufemismo autorizava o capitão a atacar qualquer embarcação, sem necessidade de aviso ou autorização. Schacht já havia feito bom uso dessa permissão em abril e maio daquele ano: de passagem pelo golfo do México, afundou 11 navios, um no delta do Mississippi.

Após uma semana tediosa atravessando o Atlântico, o U-507 chegou à costa do Brasil e encontrou muitos de seus alvos favoritos: cargueiros sem escolta em águas calmas. A primeira vítima do submarino nazista foi o Baependy, dia 15, um sábado. Horas depois, o Araraquara também foi a pique. No domingo, dia 16, foi a vez de o Anibal Benévolo afundar. Foram 270, 131 e 130 mortos, respectivamente – um terço de todas as baixas civis brasileiras na 2ª Guerra Mundial concentradas em dois dias.

A marinha mercante brasileira estava em pânico – os brasileiros ainda não. Esses 3 primeiros ataques concentraram o maior número de mortos, mas, por terem acontecido longe da costa e no fim de semana, a notícia demorou a repercutir. A indignação nacional imediata viria em bloco, junto com os afundamentos do dia seguinte.

Duas vezes náufragos
Às 10h40 do dia 17, uma segunda-feira, o comandante José Ricardo Nunes conduzia o Itagiba pelo litoral sul baiano quando um ruído ensurdecedor tomou conta da cabine. Atingido em cheio pelo U-507, o navio pertencente à Companhia Nacional de Navegação Costeira foi a pique em cerca de 8 minutos. O pescador Valdemar do Rosário, hoje com 83 anos, ouviu da praia do Guaibim, no município de Valença, o estrondo produzido pelo ataque ao Itagiba: “Parecia um tiroteio no meio do mar”.

A bordo estavam 60 tripulantes, 21 passageiros e 96 militares que partiram do Rio para Salvador. Das 8 baleeiras – embarcações menores, a remo – que poderiam ser usadas para o salvamento, duas foram inutilizadas pela explosão. Os náufragos de 4 das 6 baleeiras restantes foram acudidos por um iate; os das outras duas foram salvos pelo cargueiro Arará, que levava sucata de ferro de Salvador para Santos.

Mas o U-507 ficara à espreita, assistindo à movimentação em torno do afundamento do Itagiba. Às 16h06, o submarino nazista atingiu o Arará na casa das máquinas. A precisão do tiro fez com que a embarcação afundasse em 3 minutos. Assim, náufragos do Itagiba socorridos pelo Arará foram ao mar pela segunda vez no mesmo dia.

Por volta das 18h30, os primeiros náufragos chegavam ao Paço Municipal de Valença. As vítimas em estado mais grave foram levadas para o Hospital da Santa Casa. A partir de então, os novos grupos de náufragos foram acolhidos no prédio da prefeitura e, mais tarde, conduzidos a pensões e restaurantes da cidade. Os tripulantes do Itagiba e os militares que viajavam na embarcação foram alojados no edifício da Sociedade Recreativa, no centro da cidade. O último barco com sobreviventes chegou ao porto de Valença apenas ao meio-dia do dia seguinte, terça-feira. Cerca de 160 pessoas foram socorridas.

No dia dos atentados aos navios Itagiba e Arará, Mustafá Rosenberg de Souza, 17 anos, havia viajado a Valença para ir ao cartório local. Quando soube da chegada dos náufragos à cidade, correu para ver de perto a situação. “No hospital havia um médico só. Começaram a chamar o povo: ‘Entrem! Venham ajudar!’ Era muito sangue”, recorda. Assustado, Mustafá ajudou o médico com a limpeza de roupas, do chão e até de alguns ferimentos. “O que eu vi foi o inferno de Dante. Muita gente morta, estraçalhada, amputada”, conta o valenciano, hoje um médico de 84 anos. Impressionado com o que viu naqueles dias, o adolescente se formou em medicina.

Ainda no dia 17, o U-507 afundou um pesqueiro não identificado. Dois dias depois, foi a barca Jacira. Felizmente, ninguém foi ferido.

Corações e mentes
Ainda no armário bélico, a primeira reação do Estado Novo aos naufrágios foi defensiva: apagar as luzes do litoral. Mas o povo queria contra-ataque: uma rara coalizão de estudantes nacionalistas, sindicalistas pelegos e comunistas enrustidos se uniu em gritos pró-guerra. E a mídia subiu o volume.
No dia seguinte ao duplo torpedeamento, 18 de agosto, o jornal Diário da Bahia, de Salvador, estampava na capa: “Covardes! Inominável atentado”. Apenas no dia 20 o chanceler Osvaldo Aranha se manifestou, em discurso improvisado na sacada do Palácio Itamaraty, então no Rio : “Oporemos uma reação que há de servir de exemplo para os povos agressores e bárbaros que violentam a civilização e a vida dos povos pacíficos”. Houve aplausos entusiasmados, mas a “reação exemplar” ainda era só uma declaração vaga.

No dia 21 de agosto, o Diário da Bahia estampou a foto de uma garotinha de 4 anos sentada em uma cama de hospital. Era filha de um tripulante do Itagiba, Valderez Cavalcante, que chegou à praia agarrada a uma caixa. “A pequenina náufraga recebe curativos enquanto que os seus dedinhos fazem o V da vitória, que não poderá deixar de vir”, previa a legenda. Reproduzida em toda a parte, a “pequenina náufraga” se tornou mais popular que Carmen Miranda.

No dia seguinte, o Brasil deixava de ser neutro, declarando “estado de beligerância” à Alemanha – a declaração de guerra viria no dia 31. Os U-boote não se intimidaram: naquele ano houve mais 3 naufrágios, e seriam mais 12 até o final do conflito.

Enquanto os militares não respondiam aos ataques, os civis se mobilizavam. Diversos grupos foram criados para colaborar, cada um à sua maneira – Legião Acadêmica, Legião dos Comerciários, Legião dos Médicos para a Vitória. Em Salvador, um estudante de medicina fundou os Legionários da Morte, que chegou a reunir 90 homens dispostos a honrar o Brasil em missões suicidas. Apesar da grande disposição patriótica, nenhum foi chamado a se matar pelo país.

Quase dois anos depois dos 5 dias de terror no litoral baiano, 25 mil brasileiros que preenchiam os requisitos mínimos (60 quilos, 1,60 metro e 26 dentes) embarcaram para a guerra na Itália.

Recontando a história
Durante a Guerra Fria, teóricos da conspiração defendiam que os ataques de 1942 foram de submarinos americanos, para obrigar Vargas a entrar na guerra. A frágil hipótese perdeu adeptos em 1958, com a autobiografia do almirante nazista Karl Dönitz, que confirma que todos os ataques foram nazistas. Mas há quem suspeite de inflação das mortes.

Qualquer polêmica poderia ser desfeita pelo exame dos destroços. Mas o Itagiba e o Arará, afundados em sequência, nunca foram encontrados. A descoberta do diário de bordo do U-507 motivou uma expedição liderada pelo professor Edgard Oliveira. Ele acredita ter encontrado restos da barcaça Jacira, colocada a pique pelos nazistas dois dias depois, a 40 metros de profundidade. “Temos indícios de que o Arará está a 60 metros, mas o Itagiba parece ter caído em um precipício de 200 metros”, afirma Oliveira, que vai fazer outras buscas. Após a localização das carcaças dos navios, a ideia é promover roteiros turísticos e educacionais. Quem sabe na próxima vez o passado vem à tona.

Aliado aéreo
Uma prova do alinhamento prévio do Brasil com os Aliados: a Força Aérea Brasileira (FAB) foi criada em janeiro de 1941 com aviões e instrutores cedidos pelos EUA. Quatro dias após o ataque a Pearl Harbor, uma esquadrilha dos EUA desembarcou em Natal, trazendo militares que passariam a cuidar da segurança da base. Como se não bastasse, em 22 de maio de 1942, uma aeronave da FAB decolou de Natal com o objetivo de repelir o submarino que havia atacado um navio brasileiro. Pelo ar, o Brasil parecia já estar na 2ª Guerra.

Capitão vilão
Harro Schacht comandava o submarino U-507, que causou 7 naufrágios e 597 mortos no Nordeste em 1942. Impiedoso com as vítimas de seus torpedos, ele seguia disparando enquanto os náufragos ainda deixavam os navios. Schacht recebeu a Cruz de Ferro em 9 de janeiro de 1943 por seu sucesso no ano anterior. Todavia, ele nunca usou a condecoração: 5 dias depois, enquanto torpedeava um navio britânico próximo ao litoral paraense, foi atacado por um hidroavião americano. Junto com ele, afundaram todos os tripulantes do U-507.

Cobra fuma?
O Brasil demorou tanto tempo para entrar na guerra – foram mais de dois anos entre a declaração e o combate – que surgiu a brincadeira: “Os brasileiros só vão lutar quando a cobra fumar”, ou seja, nunca. Quando o embarque foi confirmado, o símbolo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) não podia ser outro: uma cobra fumando. A FEB embarcou para a Itália em agosto de 1944, onde lutou até a rendição do Eixo, em maio de 1945.

17/8/1942

Veja como foi o duplo afundamento que jogou o Brasil na 2ª Guerra

10h40
Indo do Rio pra Salvador, o navio Itagiba navega a 5,6 km da praia de Guaibim (BA) e é atingido por um torpedo do submarino alemão 507.

10h48
O navio, de 89 m de comprimento e 2 169 t, desaparece nas águas do Atlântico.

11h10
O iate Aragipe aproxima-se e recolhe vítimas que estavam em 4 das 6 baleeiras (pequenos barcos a remo) carregadas pelo Itagiba.

12h14
Ao passar pelo local do naufrágio, o navio Arará recolhe os náufragos alojados em duas baleeiras do Itagiba.

16h03
O U-507, que ficara à espreita observando toda a movimentação para o salvamento da tripulação do Itagiba, dispara um torpedo no Arará.

16h06
Atingido na casa das máquinas, o Arará vai a pique, indo fazer companhia ao Itagiba, afundado horas antes.

Noite
Naquele dia, 0 U-507 atingiria mais duas embarcações na região – felizmente, sem causar mortes.

4 barcos foram afundados pelo U-507 neste dia.

56 mortes foram causadas pelos naufrágios.
 

Para saber mais

Senta a Pua!
Rui Moreira Lima, Itatiaia, 1989.

Irmãos de Armas
José Gonçalves e César Maximiano, Conex, 2006.