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Quem foi Josef Stalin, o monstro de aço

Ele derrotou Hitler e transformou um país agrário em superpotência. Ao mesmo tempo, construiu campos de trabalho forçado e matou milhões de pessoas

 (Bundesarchiv, Bild 183-R80329/Superinteressante)

Em 1944, Serguei Eisenstein já era um cineasta renomado quando recebeu de Josef Stalin uma difícil missão: escrever e dirigir um filme sobre Ivan IV, o tirano que inaugurou a era dos czares russos, no século 16. Amante do cinema, o secretário-geral do partido comunista soviético enxergava a si próprio como o sucessor de “Ivan, o Terrível” – algo um tanto quanto contraditório para um leninista.

Mas a vida de Stalin seria marcada por contradições. Por um lado, o líder máximo soviético comandou a resistência que mudou os rumos da 2ª Guerra Mundial ao botar os nazistas para correr da URSS. Por outro, fez escolhas políticas que levaram à morte de pelo menos 20 milhões de pessoas – número que pode chegar, dependendo da fonte, a 40 milhões.

A personalidade inconstante já havia sido identificada por Lenin. Em sua carta-testamento, escrita em dezembro de 1922, o líder bolchevique expunha o receio com o que poderia acontecer caso Stalin fosse seu sucessor: “O camarada Stalin, tendo se tornado secretário-geral, tem autoridade ilimitada concentrada em suas mãos, e não tenho certeza de que sempre irá utilizá-la com prudência”.

Depois da morte de Lenin, em 1924, Stalin escondeu a carta, que só reapareceu na década de 1950, em meio à desestalinização capitaneada por Nikita Kruschev. Para Lenin, o nome de Trotsky – com quem comungava o ideal de revolução permanente – era o mais adequado para sucedê-lo. Mas acabou sendo Stalin, adepto ao socialismo de um só país, quem se tornaria o novo líder máximo da URSS.

DE PADRE A ASSALTANTE

Nascido em Gori, na Geórgia, em 1878, Iosif Vissarionovich Djugashvili só adotaria o famoso pseudônimo em 1913. Stalin, em russo, remete a “feito de aço”. E era assim que o jovem bigodudo se via: como um homem de aço, a despeito de seus mirrados 1,62 de altura. Filho de um sapateiro beberrão e de uma faxineira, o futuro revolucionário teve uma infância sofrida. Vítima de varíola, carregou marcas no pescoço e no rosto pelo resto da vida, além de ter nascido com duas deficiências físicas: o braço esquerdo 5 cm mais curto e dois dedos do pé colados. Foram esses fatores, aliados ao espírito de agitador, que motivaram sua dispensa do Exército quando ele se alistou para combater na 1ª Guerra.

Adolescente, Stalin frequentou um seminário da Igreja Ortodoxa Russa em Tbilisi, capital da Geórgia. Foi lá que aprendeu o idioma russo e a pensar de maneira sistemática, lendo panfletos marxistas clandestinos e adquirindo consciência política. Tudo por conta do clima repressivo que o lugar impunha. Aos 20 anos, Koba, como era chamado pelos amigos, abandonou os estudos sacerdotais para abraçar a fé comunista – mais tarde, sua mãe confessou que preferia tê-lo visto padre. Seu plano, agora, era se empenhar pela revolução. Hierarquia, disciplina e luta de classes viraram expressões corriqueiras em seu dia a dia. Assim como incitar manifestações, espancar adversários e roubar bancos. Stalin chegou a ser preso e enviado para a Sibéria sete vezes. E foi no isolamento que desenvolveu algumas de suas características mais marcantes: a frieza e a autossuficiência.

O primeiro contato com Lenin aconteceu em 1905, e em pouco tempo cairia nas graças do líder bolchevique. Lenin se referia a ele como “o georgiano que nos consegue dinheiro”. Cabia a Stalin fazer o trabalho sujo em toda e qualquer ação revolucionária. Na posição de capataz de Lenin – e ainda que não fosse um intelectual como Trotsky -, Stalin ganhou respeito dentro do Partido Comunista.

TERROR VELADO

Após a morte de Lenin, a propaganda oficial e os órgãos de repressão atuaram duramente contra qualquer movimento de contrarrevolução. Agora comandada por Stalin, a URSS queria se consolidar como Estado unificado, combatendo o nacionalismo de todas as formas. Pouco afeito a longos discursos e fraco de oratória, Stalin costumava dizer que qualquer problema poderia ser resolvido com o uso da força. Era o que acontecia, por exemplo, com os camponeses, vistos como capitalistas rurais que freavam a revolução. A solução era expulsá-los de suas terras e enviá-los a fazendas coletivas, cidades industriais ou mesmo a campos de trabalho forçado, os Gulags.

Ao fim dos anos 1920, a prosperidade ucraniana, a autonomia cultural do país e a resistência de seus agricultores levaram Stalin a condenar pelo menos 5 milhões de pessoas à morte pela fome. Isso porque, entre 1932 e 1933, ele ordenou a proibição da compra, troca ou venda de alimentos, num evento que ficou conhecido como holocausto ucraniano.

Para industrializar a URSS, Stalin deu início, em 1928, a uma série de planos quinquenais. Com projetos grandiosos, como a construção de canais, represas, ferrovias e formação de grandes indústrias, a URSS logo entraria na era moderna. Enquanto o resto do mundo sofria com a recessão histórica da quebra da bolsa de Nova York, em 1929, a economia soviética cresceu 2.425% entre 1928 e 1937. Tamanha expansão só seria obtida pagando um alto preço: o trabalho escravo. Os Gulags abrigavam centenas de milhares de pessoas. Considerados criminosos e “inimigos do Estado”, os trabalhadores desses locais se resumiam a qualquer um que não agradava ao regime – camponeses, presos políticos, intelectuais e pessoas de outras etnias. A brutalidade stalinista também ganharia destaque com os expurgos, iniciados em 1934 com a finalidade de identificar membros do partido que não se mostravam suficientemente militantes ou leais.

Quem, em algum momento, tivesse discordado de Stalin poderia agora ser preso, julgado e fuzilado – mesmo que por uma trivialidade. O próprio ditador costumava deleitar-se assistindo aos chamados “julgamentos de fachada”, usados para convencer o povo de que havia inimigos por toda parte. Em muitos casos, antigos camaradas eram torturados e obrigados a confessar conspirações das quais nunca participaram. “Stalin exigia apoio incondicional e sem discussão, e muitas mudanças em suas posições políticas nunca seriam explicadas”, escreve o historiador Zhores Medvedev, autor de Um Stalin Desconhecido.

Estima-se que Stalin tenha assinado de próprio punho a execução de 41 mil pessoas. Além disso, autorizou o envio de pelo menos 8 milhões aos Gulags. Qualquer indivíduo era um suspeito em potencial: oficiais das forças armadas, membros do comitê central, dirigentes empresariais, cientistas, escritores e até mesmo amigos próximos. Entre suas vítimas estiveram Grigori Zinoviev e Lev Kamenev, com quem Stalin compartilhou a Troika – o triunvirato que sucedeu Lenin. Não raro, o “Vojd” – líder, equivalente russo ao alemão “Führer” – era visto nos enterros daqueles que ele mesmo mandara executar.

CAMARADA “DE FAMÍLIA”

No dia 8 de novembro, em 1932, o Kremlin oferecia um banquete para celebrar os 15 anos da Revolução quando as recorrentes brigas entre Stalin e a esposa, Nadeja Alliluyeva, chegaram ao ápice. A discussão, na frente de todos, culminou com o suicídio da mulher na manhã seguinte. “Ela partiu como um inimigo”, teria dito Stalin. Filha de um revolucionário, Nadeja foi confidente de Lenin e não se conformava com a política conduzida pelo marido. Antes disso, Yakov, filho de Stalin com a primeira esposa, também havia tentado se matar depois de uma briga com o pai. Ao ver o jovem ferido, Stalin teria exclamado: “Não consegue sequer atirar direito!”. Anos depois, na 2ª Guerra, Yakov morreria nas mãos dos nazistas. Stalin deu de ombros.

Depois da morte de Nadeja, com quem teve outros dois filhos – Vasili e Svetlana, a sua predileta -, o tirano viveu recluso, passando a maior parte do tempo na dacha de Kuntsevo. A casa de veraneio, nos arredores de Moscou, tinha 20 aposentos e contava com biblioteca, jardim de inverno e solário. Insone, Stalin costumava ler documentos oficiais até altas horas da madrugada – especialmente durante a 2ª Guerra, quando trabalhava 15 horas por dia. Com o tempo, e ainda mais depois da guerra, a paranoia e a desconfiança em relação até mesmo aos mais íntimos só aumentariam. Como um déspota à moda antiga, exigia que sua comida fosse provada por outra pessoa para se certificar de que não estivesse envenenada.

Stalin envelheceu solitário e desolado, mas sempre temido. Em fevereiro de 1953, aos 73 anos, não resistiu a um derrame. A imagem de herói do povo alçou o ditador a duas indicações ao Nobel da Paz. E assim ele foi visto até 1956, quando Nikita Kruschev apresentou à cúpula do partido os arquivos secretos do stalinismo, expondo ao mundo a face desumana daquele que foi o mais contraditório estadista do século 20.

Comentários

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  1. Luiz Carlos Porto

    Brasil precisava de um líder assim. Eliminaria os inimigos da nação, os hipócritas que a enganam, os pérfidos que a defraudam, os ambiciosos que a usurpam e os corruptos e sem princípios que abusam da confiança do povo.

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  2. André de Souza

    Ou, simplesmente, eliminaria também aqueles que apenas discordassem dele! Somente em um país onde a maioria da sociedade é absolutamente despolitizada, analfabeta politicamente mesmo, onde as instituições políticas não são consolidadas a ponto de garantir os direitos democráticos básicos, acredita-se que a solução para os grandes problemas sociais e políticos sairão das mentes de caudilhos e ditadores, à esquerda ou à direita! O que precisamos (e, o que devemos fazer enquanto sociedade civil organizada) é lutar pela consolidação da democracia em nosso país, e não esperar que algum “Messias” venha nos salvar. Todo regime totalitário, baseado no autoritarismo, mais cedo ou mais tarde, mostra a sua verdadeira face: uma farsa visando o controle absoluto e irrestrito do Estado e da sociedade.

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  3. Luiz Osório

    Se o símbolo da suástica utilizado pelo regime nazista de Adolf Hitler é abominado em todo o mundo, o mesmo deveria ocorrer com o símbolo da foice e do martelo, que representa o comunismo, a ideologia que mais assassinatos cometeu na História da humanidade. Ao contrário disso, em nome da democracia, até partidos políticos utilizam esse símbolo em muitos países, incluindo o Brasil. Os comunistas não desejam o poder para o bem da humanidade, mas apenas para o domínio de um grupo e o próprio enriquecimento.

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  4. André de Souza

    O que há em comum entre países como Cuba, a ex-URSS, a República Popular da China e a República Popular da Coreia da Norte? É que todos eles, entre outros, se autoproclamaram ou se autoproclamam países comunistas. E, quem conhece o Manifesto Comunista, escrito por Marx e Engels e lançado em 1848, sabe que os regimes estabelecidos nestes países sequer se aproximam daquilo que foi proposto no referido manifesto. Estes regimes, sem exceção, são fruto de uma suposta “REVOLUÇÃO” que, tal como os golpes de extrema-direita (que, aliás, também se autoproclamam revolucionários, caso do golpe de 64 no Brasil e dos demais perpetrados América Latina afora) instalaram regimes totalitários, corruptos, violentos e ineficientes. A ideologia comunista, surgida como uma alternativa ao capitalismo, foi elaborada dentro de um contexto sui generis, no bojo da revolução industrial. As condições de trabalho da época (jornada excruciante, de até 16 horas diárias, a insalubridade dos locais de trabalho somada aos salários de fome) proporcionaram o desenvolvimento crítico-ideológico que representou o surgimento da ideologia comunista. Portanto, o problema não está necessariamente na ideologia comunista. Não é a ideologia em si que deve ser demonizada. O que deve ser criticado e combatido veementemente são os regimes que, para se consolidarem, utilizam-se do rótulo de comunistas para se legitimarem e se perpetuarem no poder. Estes regimes, que a princípio propuseram a chamada “Ditadura do Proletariado”, acabaram se tornando ditaduras na verdade controladas por estamentos ou facínoras totalitários. Igualzinho a todas as ditaduras, sem exceção.

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