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Quem foi Mary Anning, a paleontóloga do século 19 que virou filme

Ela descobriu centenas de fósseis e revelou a chave da cadeia alimentar pré-histórica. Saiba o que é fato ou ficção na história que chega aos cinemas no final do ano.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 7 set 2020, 15h42 - Publicado em 7 set 2020, 15h40

Não é comum ver a paleontologia sendo retratada no cinema. Com exceção de ficções como Jurassic Park, histórias de paleontólogos da vida real costumam ficar de fora das telas. Mas no final de 2020 (se a pandemia deixar), o filme Ammonite deve chegar aos cinemas. Ele conta a história da paleontóloga Mary Anning, que viveu no Reino Unido na primeira metade do século 19.

A protagonista será interpretada por Kate Winslet. No filme, ela vive um romance com a aprendiz Charlotte Murchison (Saoirse Ronan). O longa deve ser exibido nesta sexta (11) no Festival de Filmes de Toronto. Confira o primeiro trailer:

Mary Anning é um dos grandes nomes da paleontologia, principalmente quando se trata de animais marinhos. Ela herdou o interesse de seu pai, um marceneiro que passava as horas vagas procurando fósseis na praia de Lyme Regis, onde moravam. Vindos de uma família muito pobre, dinheiro recebido com a venda dos fósseis ajudava a complementar a renda da casa. Quando ele morreu, Mary e seu irmão continuaram a caçar fósseis para vender. 

Em 1811, quando Mary tinha apenas 12 anos, eles encontraram o crânio e vértebras de um animal que acreditavam ser um crocodilo. Na época, acreditava-se que os fósseis fossem apenas o esqueleto de animais atuais, e não de criaturas extintas. A razão para isso vem do cristianismo: era difícil entender por que deus teria criado uma espécie “imperfeita” e depois se livrado dela. 

Os cientistas estavam aos poucos comprovando a existência desses seres pré-históricos – e as descobertas de Anning foram essenciais para isso. O fóssil encontrado por ela e seu irmão aos 12 anos era nada menos que o primeiro esqueleto de um ictiossauro, uma espécie de “peixe-lagarto” que viveu entre 248 e 65 milhões de anos atrás.

O irmão acabou indo para o ramo da marcenaria, mas Anning continuou a descobrir fósseis em Lyme Regis e redondezas, que hoje é conhecida como Costa Jurássica. Lá, ela descobriu centenas de fósseis, incluindo o primeiro fóssil completo de um plesiossauro, além do primeiro pterossauro fora da Alemanha. Na praia, não era raro encontrar fósseis de amonita, o que dá nome ao filme. Esses seres pré-históricos eram moluscos com cascos espirais, como os de caracol.

Anning também descobriu que alguns compostos estranhos, chamados de “pedras bezoar” na época, eram, na verdade, cocô fossilizado. Por causa de sua experiência caçando centenas de fósseis, ela percebeu que essas rochas sempre apareciam na região do abdômem inferior do fóssil, onde deveria estar o intestino dos animais. Dentro dessas “pedras”, ela também encontrou pequenos ossos, de animais menores, indicando que eles foram ingeridos pelo predador. 

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A paleontóloga propôs que eles eram nada mais do que cocôs. Hoje, as fezes fossilizadas são chamadas de coprólitos, e são essenciais para entender a cadeia alimentar da pré-história. É assim que sabemos, por exemplo, se um dinossauro era carnívoro ou vegetariano.

  • Apesar de não ter uma educação formal, Anning estudou paleontologia, geologia, anatomia e ilustração científica. Ela abriu uma oficina, onde vendia fósseis da região para outras coleções e paleontólogos renomados. Ela chegou a trabalhar com Richard Owen, pesquisador que cunhou o termo “dinossauro” em 1841.

    Apesar das grandes descobertas de Anning, ela nunca assinou uma publicação científica. Alguns pesquisadores mencionam seu nome em artigos, enquanto outros a deixam de fora. Mesmo assim, ela ficou conhecida na comunidade científica por suas expedições paleontólogas.

    Uma socialite da época, Harriet Silvester, escreveu em seu diário que ficou impressionada que uma garota “pobre e ignorante” pudesse ter adquirido tanto conhecimento a ponto de conversar com professores e especialistas em paleontologia. Ela ainda afirma que todos reconhecem que Mary Anning entende mais sobre essa área da ciência do que qualquer outra pessoa do reino.

    Charlotte Murchison

    Anning nunca se casou, e nenhum de seus registros fala de sua vida sexual e amorosa. Charlotte Murchison, retratada no filme, foi uma amiga próxima, com quem fazia expedições para encontrar fósseis. 

    Charlotte estudava ciência quando casou com Roderick Impey Murchison, um oficial da cavalaria, em 1815. Ela o influenciou a entrar no ramo da geologia e chegou a dar aulas informais ao marido, apesar do desinteresse inicial dele. Ele passou a assistir aulas de geologia e química na universidade e se tornou geólogo. Ela, por outro lado, o ajudava em suas pesquisas, já que mulheres não eram permitidas nas aulas. Os dois também faziam viagens de pesquisas juntos.

    Foi em uma dessas viagens que eles conheceram Mary Anning. Roderick de fato deixou a esposa morando com a paleontóloga durante algumas semanas, para que ela pudesse aprender sobre fósseis com a maior especialista no assunto. No entanto, não há evidências de que elas teriam tido um relacionamento amoroso nesse período. No filme, Anning parece ser mais velha que Murchison, mas, na realidade, a paleontóloga era 11 anos mais jovem.

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