Religiões Afro – Magia do bem e do mal
Olorum e Obatalá são os deuses supremos. Mas é com os orixás - às vezes bondosos, outras vezes maléficos - que os devotos se identificam
Texto Álvaro Oppermann
Era uma vez Olorum, o senhor do céu. Certo dia, ele teve vontade de criar o mundo. Mas era majestoso demais para se ocupar com assuntos “menores”. Por isso, confiou o trabalho a outra divindade, Obatalá. E foi o que ele fez: inventou a Terra, os homens, os animais e as plantas. Essa é a história da Criação para os iorubas, um povo originário da Nigéria, na África.
Com nomes diferentes, a mesma narrativa se repete entre vários povos africanos, como tumbukas, bantos e pigmeus. Quem notou essa coincidência foi o estudioso romeno Mircea Eliade, no volumoso – e monumental – Tratado de História das Religiões (Editora Martins Fontes). Mas a história não termina por aqui. Obatalá designou deuses menores para ajudarem na empreitada, como num processo de terceirização divina. Um cuidou dos mares. Outro, dos ventos. Outro ainda, da terra. E assim por diante. Esses deuses auxiliares eram os orixás, que viraram ancestrais dos seres humanos e guardiães das forças da natureza.
Intervenção mágica
O distante Olorum, isolado em sua condição de supremacia, acabou ficando a ver navios. Nas culturas tradicionais africanas, os meros mortais nunca se relacionaram diretamente com ele, mas com os orixás, como Xangô, Ogum, Iansã e Iemanjá. O mesmo aconteceu no Brasil, onde a mitologia ioruba desembarcou junto com os escravos trazidos do continente africano, a partir de 1559. Candomblé, pará, macumba, cambinda, batuque, umbanda, quimbanda, catimbó, babaçuê, tambor-de-mina… Em todas essas crenças, a primazia é deles. A ação dos orixás está sempre envolta numa aura fantástica. “São religiões mágicas, que pressupõem o uso de forças sobrenaturais para a intervenção neste mundo”, diz o antropólogo Antônio Flávio Pierucci, professor da Universidade de São Paulo (USP). Os babalorixás e ialorixás – pais e mães-de-santo, respectivamente – são os responsáveis pelos cultos.
A intervenção mágica dos orixás pode ser benévola ou malévola, e depende muito da troca de favores – ou das relações de amizade e inimizade – entre humanos e divindades. Vem daí a tradição de oferecer presentes às entidades, assim como banquetes de louvação e sacrifícios. Incluam-se nessa lista os feitiços do tipo “despacho”, geralmente colocados no cruzamento de duas ruas. No início do século 20, o popular cronista carioca João do Rio escreveu: “Para matar um cavalheiro, basta torrar-lhe o nome, dá-lo com algum milho aos pombos e soltá-los numa encruzilhada”. Os orixás, contudo, também são bondosos e oferecem proteção aos seus filhos. É o que explica o uso de amuletos e talismãs.
Para saber mais
• Candomblé e Umbanda
Vagner Gonçalves da Silva, Summus, 2005.






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