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Relógio: Máquina do Tempo

Poucos inventos moldaram tanto o mundo moderno como o relógio mecânico, surgido no século XIV. Ele tornou possível a civilização industrial e fixou a idéia de desempenho na atividade humana

Suzana Veríssimo

Certa vez, ao explicar como escreveu seu livro O nome da rosa, o italiano Umberto Eco revelou que as cem primeiras páginas do romance continham um truque. De propósito, ele as fez arrastadas, demoradas, difíceis de serem vencidas. Quem quisesse ler o livro tinha de superar essa barreira. Por quê? Porque, à medida que ultrapassava essas linhas, o leitor fazia outra travessia: a passagem do mundo moderno para um tempo ido, em que não havia segundos nem minutos e as horas escoavam como a vida. Enfim, um tempo sem relógios.

O nome da rosa se passa na Idade Média. Até então, o tempo era percebido como uma coisa natural. Ao inverno seguia-se a primavera, o verão; a manhã vinha depois da madrugada, que por sua vez sucedia à noite. Não havia precisão: a contagem do tempo se fazia por longos períodos – meses e anos, materializados nos calendários. Nos conventos, especialmente, nem hora existia. O dia era dividido de acordo com o ritual dos ofícios. Como não havia uma medida universal, cada convento tinha sua hora, assim como cada cidade vivia segundo seu ritmo.

Mais ou menos na época em que se desenvolve O nome da rosa, na primeira metade do século XIV, o relógio mecânico vai ser descoberto. Antes, os instrumentos para medir o tempo eram notavelmente precários. Havia o relógio de sol, mas quando não havia sol ele não funcionava. Havia o relógio hidráulico, mas quando era inverno a água congelava. Cada um, a sua maneira, tinha um inconveniente. E todos tinham o inconveniente comum da inexatidão. O advento do relógio mecânico fará muito mais do que corrigir as imperfeições técnicas de seus antepassados. Como disse o pensador americano Lewis Mumford, “o relógio não é apenas um instrumento para seguir a marcha das horas; é também um meio de sincronizar as ações dos homens”.

Segundo o historiador, também americano, David Landes, autor de Revolução no tempo: os relógios e a formação do mundo moderno, ainda não traduzido em português, o relógio figura entre as supremas invenções da humanidade: “Ela talvez não se compare à do fogo e da roda, mas é da mesma ordem que a da imprensa, por suas conseqüências revolucionárias em relação aos valores culturais, às mudanças técnicas, à organização política e social e à personalidade”. De fato, a partir do momento em que medir o tempo deixou de ser privilégio dos poderosos e passou a ficar ao alcance de qualquer um, as relações entre as pessoas e entre os diversos grupos sociais mudaram. Com o relógio criou-se a base de uma disciplina do tempo, em lugar da obediência ao tempo. “Foi o relógio que tornou possível, para o bem e para o mal, uma civilização atenta ao tempo, portanto à produtividade e ao desempenho”, diz Landes.

Não se sabe exatamente quando surgiu o relógio mecânico nem quem foi seu primeiro criador—o ancestral de uma linhagem de técnicos e artesãos cujos trabalhos seriam muitas vezes autênticas obras de arte. O certo é que datam da metade inicial do século XIV os primeiros documentos que tratam inequivocamente de relógios mecânicos. São dessa época, por exemplo, as descrições do complicado mecanismo-relógio criado pelo abade inglês Richard de Wallingford, em Saint Albans, e do relógio construído em 1344 pelo físico e astrônomo Giovanni di Dondi para a cidade Italiana de Pádua. Tão precisa é a descrição feita por cada um deles de suas obras, que é possível ver no Time Museum da cidade de Rockford, em Illinois, Estados Unidos, duas réplicas daqueles aparelhos, montadas exclusivamente a partir das instruções deixadas pelos inventores.

E o que diferenciou tecnicamente o relógio mecânico dos que o antecederam? Antes de mais nada, o relógio mecânico é movido por um peso. A energia da queda desse peso é transmitida através de um trem de engrenagem, formado por rodas dentadas que se encaixam umas nas outras e movimentam as agulhas do mostrador. O problema é que uma força aplicada continuamente produz uma aceleração. Logo, se nada se opusesse à descida do peso, ele imprimiria um movimento cada vez mais rápido à engrenagem. O que os sábios da Idade Média descobriram foi justamente um dispositivo de retardamento capaz de bloquear o peso e frear o movimento das rodas e agulhas, de modo a criar um movimento de oscilação com um batimento regular—o vaivém continuo característico dos relógios.

Isso foi possível graças a uma pecinha composta de duas palhetas presa a um eixo horizontal móvel, que se engrenam alternadamente sobre uma roda em forma de coroa dentada (chamada roda de encontro), localiza da verticalmente sobre um eixo que se move sob o efeito do peso. Os impulsos alternados provocados pela roda de encontro fazem a pecinha oscilar sobre seu eixo de maneira regular; este movimento, então, é transmitido ao trem de engrenagem, que movimenta as agulhas. O aparecimento, dos primeiros relógios mecânicos causou uma febre nas cidades européia que começavam a sacudir a modorra medieval. Cada burgo queria ter seu relógio—não apenas por uma questão de prestígio, mas também porque a atração trazia viajantes, portanto dinheiro, para a localidade.

Já para os operários das cidade mais desenvolvidas, principalmente na Itália e em Flandres, onde já existiam uma florescente indústria têxtil, um movimentado comércio, a novidade não era assim tão boa. O relógio. passou a encarnar a autoridade que impunha as horas de trabalho e mais importante ainda—exigia de terminada produtividade ao longo da jornada. Em algumas cidades, os operários chegaram a se rebelar contra isso. Por exemplo, em Pádua, em 1390, a torre que abrigava o relógio de Dondi foi atacada.

Mas, se a delimitação da jornada de trabalho era ressentida pelos trabalhadores, por outro lado a existência do relógios trazia um beneficio nada desprezível: permitia separar o tempo que pertencia ao patrão daquele que pertencia a eles próprios. Em todo caso, a grande mudança na forma de medir e controlar o tempo só ocorreu no século XV, quando o relógio a mola tornou possível reduzir drasticamente o tamanho dos aparelhos.

No relógio a mola, o motor não mais acionado pelo peso e sim pela força da mola, enrolada em forma de espiral. Ou seja, o motor desses novos aparelhos passou a ficar dentro deles, permitindo que os relógios se tornassem portáteis. No início, eles não eram tão pequenos como o atuais relógios de pulso, mas suas dimensões diminuíram o suficiente para poderem ser carregados no bolso ou como um broche. O primeiro europeu cujo nome é citado como construtor de relógios portáteis é um artesão de Nuremberg, Alemanha, Pete Healein. Em 1512, ele fabricava pequenos relógios que funcionavam por quarenta horas e podiam ser carregados no pescoço ou dentro de uma bolsa.

Menos de meio século depois, em 1551, o francês Jacques de La Garde faz um relógio em forma de bola com apenas 8 centímetros de diâmetro Não se sabe por que, mas, naquele tempo, todos os relógios portáteis soavam as horas. Um código de boas maneiras publicado na França em 1644 alertava os gentis-homens da época para o que seria uma grande falta de educação: “Aqueles que usam relógios onde vêem as horas, as meias horas e os quartos de hora, podem servir-se deles algumas vezes para medir a duração de sua visita. No caso dos relógios soantes, eles são muito incômodos, porque interrompem a conversa. Por isso é preciso usar certos relógios novos, onde a marcação das horas e das meias horas é em alto-relevo e, tocando com o dedo, podemos reconhecê-las”.

A multiplicação dos relógios, observa o historiador David Landes, tornou possível uma nova organização das atividades coletivas. “Mas foi particularmente em dois domínios”, escreve ele, “que a medida de tempo abriu novas perspectivas: os transportes e as comunicações, de um lado, e a guerra, de outro.” De fato, preocupados em acelerar a circulação de passageiros e mercadorias, as companhias de transporte da Europa, em plena Revolução Comercial, passaram a estabelecer horários fixos de partidas e chegadas. Ao mesmo tempo, o modo de guerrear também mudou. A partir do momento em que os generais puderam predeterminar a hora H de uma ofensiva, a estratégia militar nunca mais seria a mesma. Até então, as ações eram limitadas geograficamente porque o controle era feito com base em sinais auditivos ou visuais (gritos, bandeiras, coros).

Em 1656, na cidade de Haia, Holanda, Christian Huygens concebeu um relógio de pêndulo, que substituiu o fuso como instrumento regulador da força da mola. Ao contrário dos outros progressos da relojoaria, porém, essa invenção foi antes de tudo teórica. No lugar do fuso regulador da mola-motor, Huygens imaginou um pêndulo, suspenso livremente por um cordão ou um fio. Esse achado reduziu a margem de erro dos relógios de cerca de quinze minutos por dia para meros dez ou quinze segundos no mesmo período Para todos os efeitos práticos, o relógio se tornara enfim um instrumento realmente confiável para medir o tempo.

Poucos anos depois, um novo tipo de peça veio dar ainda maior precisão ao relógio: a âncora. Como o nome indica, é uma peça em forma de âncora de navio, cujos braços serviam para bloquear e libertar a roda de encontro. A âncora tornou obsoletos todos os modelos anteriores de relógios. A Revolução Industrial do século XVIII na Inglaterra deu uma nova importância à hora. As relações de produção passaram a se fazer de maneira mais sistematizada, com a reunião dos operários dentro de fábricas.

A vida nas usinas era regida pela disciplina dos ponteiros do relógio, a começar pelo relógio de ponto, cujos primeiros modelos são dessa época. “O relógio e não a máquina a vapor”, afirma Lewis Mumford, “é a máquina vital da era industrial moderna.” Nessa nova organização, virtualmente impessoal, os trabalhadores tinham de se apresentar ao serviço numa certa hora, cumprir uma jornada de trabalho predeterminada e até descansar e alimentar-se conforme o relógio. Habituados ainda a trabalhar segundo seu próprio ritmo, de acordo com a tradição herdada das corporações de ofício dos artesãos medievais, os operários se revoltaram contra as implacáveis máquinas do tempo.

Foi, de certa maneira, uma reedição daquilo que, séculos antes, ocorrera entre os trabalhadores da indústria têxtil, na Holanda e na Itália. Além disso, desconfiados de que os patrões “roubavam” no horário, atrasando ou adiantando os relógios das fábricas de acordo com seus interesses, os operários passaram a comprar, eles mesmos, seus relógios, para ter algum controle sobre a duração real da jornada de trabalho. Foi exatamente essa demanda que transformou os britânicos, no século XVIII, em comandantes da indústria relojoeira: nos 25 anos finais daquele século, a Grã-Bretanha produziu de 150 mil a 200 mil relógios—pouco mais da metade da produção mundial à época.

Os relógios estavam definitivamente incorporados à sociedade. Com a fabricação em série, passaram a ficar ao alcance de todos, por um preço cada vez mais acessível. A descoberta de novos materiais os transformou em objetos mais resistentes, podendo ser usados até debaixo da água, o que fez com que se tornassem companheiros inseparáveis do homem. Nada, porém, popularizaria tanto o relógio como uma descoberta de 1880. Os irmãos Pierre e Jacques Curie, cientistas franceses, descobriram que um pedaço de cristal de quartzo, cortado na forma de uma lâmina ou de um anel e colocado a vácuo num circuito elétrico e em baixa temperatura, vibra 32 758 vezes por segundo, como um pêndulo ultra-rápido.

A primeira utilização dessa descoberta foi a instalação das freqüências hertzianas, para a radiocomunicação. Em 1925, pesquisadores dos Laboratórios Bell, nos Estados Unidos, construíram o primeiro oscilador a quartzo. Mas, então, os relógios a quartzo eram ainda quase tão grandes quanto uma geladeira—e assim permaneceriam por muito tempo. Pode-se considerar o 9º. Congresso Internacional de Cronometria, em Paris, em setembro de 1969, como a verdadeira data de nascimento da indústria do relógio a quartzo. Pois foi ali que a empresa japonesa Seiko apresentou seu primeiro modelo eletrônico. A partir de então, o mecanismo não cessou de evoluir— e, com ele, a indústria. No Japão, a produção de relógios eletrônicos passou de 1,8 milhão em 1974 para 19,7 milhões em 1978.

O relógio a quartzo tinha dado um golpe mortal na indústria relojoeira clássica—assim como o relógio atômico a césio tiraria do observatório de Greenwich, na Inglaterra, o privilégio de fornecer a hora oficial do mundo. Enquanto o consumo de energia dos relógios a quartzo baixava em 60 por cento, os produtores apresentavam modelos ainda mais eficientes e econômicos. A principal mudança, porém, seria a quantidade de outras funções anexas à de marca, a hora: calendário, despertador, calculadora, agenda de telefones—enfim, toda a parafernália disponível nos relógios de última geração, que torna o homem moderno absolutamente dependente deles. Num mundo assim, nada mais natural que o cuidado do escritor Umberto Eco em preparar o espírito dos leitores de seu O nome da rosa. Pois, na era das máquinas digitais de contar as horas, quem ainda sabe como se dividia o tempo nos conventos?

Para saber mais:

Os ritmos do homem

(SUPER número 3, ano 3)

Computadores de pulso

(SUPER número 12, ano 6)

Supernovas – Relógios cósmicos

(SUPER número 4, ano 10)

Sol, água e areia

O mais antigo instrumento para medir a duração do dia foi o relógio solar, como o gnômon egípcio, datado de 3500 a 3000 a.C. Consiste em um mastro vertical ficando sobre uma base. O tempo é medido de acordo com a sombra projetada pelo mastro. Por volta do século VIII a.C., esses instrumentos se tornaram mais preciosos, à medida que marcas passaram a ser inscritas na base onde se projetava a sombra. Os gregos integraram os relógios solares a sistemas de considerável complexidade, nos quais se mediam os momentos do Sol, da Lua e das estrelas. Nasceu assim o relógio astronômico.

Os progressos na Astronomia ajudaram a aprimorar a medição do tempo. Com a invenção do astrolábio, por Ptolomeu, no século II d.C., tornou-se possível calcular, de acordo com a posição do Sol, a duração do dia ou da noite, assim como prever o levantar e o cair de um astro no firmamento e a hora do crepúsculo e da aurora. Media-se o tempo pelo ritmo de escoamento de um líquido. Os relógios de água eram usados pelos egípcios para marcar o tempo à noite, ou quando não havia sol. No Museu do Cairo existe um exemplar, fabricado na época do faraó Amenófis III, em 1400 a.C.

Era um recipiente cheio de água, com um pequeno furo no fundo, que deixava escorrer o líquido para outro recipiente, marcado com escalas. De acordo com o nível da água, podia-se saber a hora.

Esses instrumentos foram aperfeiçoados por mecanismos que tornavam constante a pressão da água que escoava; por exemplo, a colocação de canos que jogavam continuamente líquido no primeiro reservatório. Um dos mais bem elaborados sistemas da Antigüidade foi a Torre dos Ventos, construída em 75 a.C. aos pés do Partenon, em Atenas—uma torre de 20 metros de altura, com nove quadrantes solares, um catavento, uma clepsidra (o nome do relógio a água), além de outros instrumentos. Também os chineses apreciavam esse tipo de relógio. O que foi feito, já no ano de 1090, para o imperador Su Sung indicava as doze horas do dia, tinha um sino que soava a cada quarto de hora e era enfeitado com autômatos.

Mas foi só no primeiro século da era cristã que surgiu o mais conhecido dos medidores de tempo anteriores ao relógio mecânico: a ampulheta. Ela mede o tempo de acordo com a passagem da areia de um recipiente de vidro para outro, através de uma estreita ligação. Nos séculos XVI e XVII, foram feitas ampulhetas para funcionar durante períodos de quinze e trinta minutos. E, embora poucos exemplares desse tipo tenham sido construídos, havia alguns com quatro ampulhetas, ligadas de modo que todas fossem visíveis. Cada uma marcava um período de tempo: um quarto de hora, meia hora, três quartos e a hora inteira.

Hora certa para inglês ver

Os progressos da relojoaria cravaram na paisagem das principais cidades do mundo verdadeiros monumentos à arte e ciência de marcar o tempo. Certamente o mais famoso deles é o Big Ben, de Londres—símbolo por excelência do lendário gosto pela pontualidade que se atribui aos britânicos. Ao contrário do que se imagina, porém, Big Ben é o nome do maior dos cinco sinos da torre de Santo Estêvão, e não propriamente do relógio. Este, por estranho que pareça, foi projetado por um advogado, Edmund Denison, barão de Grimthorpe, e instalado, aí sim, pelo arquiteto Frederick Dent. Suas primeiras badaladas foram ouvidas em 31 de maio de 1859. Naquela época, dois homens tinham a ocupação de. três vezes por semana, dar corda no relógio, o que durava nada menos de seis horas.

Pelo que contam os londrinos, o nome Big Ben é provavelmente uma homenagem a Sir Benjamin Hall, parlamentar da Câmara dos Comuns, encarregado de supervisionar a construção do relógio. Outra história afirma que o som de seu carrilhão é baseado numa frase musical do compositor alemão naturalizado inglês Georg Friedrich Haendel (1685-1759). Mas a fama do Big Ben vem acima de tudo, de sua inabalável precisão. As raríssimas vezes em que atrasa ou adianta são corrigidas colocando-se ou tirando-se pequenos pesos de uma bandeja presa a um pêndulo. Uma moeda de 1 penny, por exemplo, adianta o relógio em 2/5 de segundo, em 24 horas. Nada mais improvável para um londrino do que ver o Big Ben parado. Uma das raras vezes em que isso aconteceu foi por ocasião da morte do estadista Winston Churchill, em 24 de janeiro de 1965. No dia dos funerais, das 9h45 à meia-noite, os ingleses fizeram o tempo parar.