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Terra de ninguém

Com Saddam Hussein à beira da forca, milícias assassinas semeiam o terror no Iraque

Alexandre Versignassi

Para morrer naquelas bandas é só ter o nome “errado”. Um sujeito que se chame Omar, por exemplo, já corre o risco de acabar torturado e morto numa batida policial qualquer. Ali, na rua mesmo. É que boa parte do Iraque está dominada por milícias xiitas. E seus membros, infiltrados no governo, na polícia e no Exército, tocam o terror na minoria sunita, que forma 35% da população. Essas duas facções dividem o islamismo desde o século 7, quando os muçulmanos decidiam quem sucederia Maomé, o fundador da religião. Os xiitas acreditavam que Ali, um parente dele, deveria assumir a chefia. Já os sunitas queriam um certo Omar, que não tinha laços de parentesco com Maomé. E os muçulmanos acabaram divididos. Inclusive nas carteiras de identidade: Ali virou um nome de xiita; e Omar, de sunita. A convivência era relativamente pacífica no Iraque. Mas agora, que o país invadido pelos EUA em 2003 virou uma terra de ninguém, os Omares (e outros homens com alcunhas sunitas) tiram documentos falsos para escapar da morte. E contra-atacam as milícias, semeando uma guerra civil. Bem-vindo ao Iraque, ou ao que restou dele.

Crônicas de um país esfarrapado

APERTEM O CINTO

O avião começa a cair. Todo mundo gruda nos assentos. Crises de pânico, rezas… Mas a aeronave aterrissa como se nada tivesse acontecido. E não aconteceu mesmo: é assim que os aviões pousam no aeroporto de Bagdá. Para driblar ataques de rebeldes, o piloto mantém o avião a 10 mil metros de altura até chegar bem em cima da pista de pouso. Aí joga a aeronave numa espiral, praticamente em queda livre, e aterrissa. Pois é: o horror no Iraque começa antes de você pôr os pés no chão.

ÀS ARMAS, CIDADÃOS

Fizeram eleições diretas para o Congresso em dezembro de 2005. Mas isso só fez a violência crescer. Partidos que apóiam milícias elegeram representantes, e elas ganharam força. Agora, xiitas e sunitas se armam para uma guerra civil, tanto que o preço do fuzil mais usado por lá, um clone chinês do AK-47, quadruplicou para R$ 450.

QUESTÃO DE ESTILO

Cada facção mata do seu jeito. Quando acham um corpo com sinais de tortura, sabem que foi coisa de xiitas. Já atentados suicidas, carros-bomba e decapitações são obra de sunitas. Seja como for, é impossível determinar o número de civis mortos desde a queda de Saddam – as estimativas variam de 50 mil a 650 mil. A única conta exata é a de soldados americanos (e de países aliados) mortos: 3 129 (até novembro de 2006).

ACUADOS

O desemprego chegou a 70% nas regiões mais arrasadas. E o crime subiu no mesmo ritmo. Há pelo menos 40 seqüestros por dia. Nesse clima, os iraquianos mais ricos se fingem de pobres. “Eu poderia comprar uma Mercedes. Mas, se fizer isso, os seqüestradores vão competir para ver quem me pega primeiro”, disse um milionário de Bagdá à revista americana Time.