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A natureza em telas

O físico americano Ricard Taylor analisa a obra de arte do pintor americano e afirma que ela foi feita baseada na matemática.

Rafael Kenski

Olhe para a pintura acima. Goste dela ou não, você há de se perguntar o que tem de tão impressionante nesse emaranhado de manchas. As peculiares obras do americano Jackson Pollock valem hoje milhões de dólares e lotam museus, mas mesmo os seus admiradores ainda têm dificuldade em dizer o que há ali que um chimpanzé não pudesse fazer. A resposta, para o físico americano Richard Taylor, da Universidade de Oregon, está na matemática.

Taylor descobriu que as obras de Pollock seguem um modelo geométrico conhecido como fractal, baseado na teoria do caos. São padrões em que cada detalhe reproduz o todo. O tronco de uma árvore, por exemplo, possui uma enorme semelhança com os demais ramos, que por sua vez se parecem com os galhos mais finos. Da mesma forma, nossos mais microscópicos capilares se assemelham ao sistema circulatório como um todo. Esse tipo de modelo é encontrado em vários fenômenos na natureza, das curvas de uma nuvem até o formato das praias no litoral.

A descoberta foi feita quando Taylor analisou as obras no computador. Ele dividiu cada uma em quadrados de tamanhos que variavam de 1 centímetro a 4,8 metros, e comparou o conteúdo de cada caixa. O resultado foi que um mesmo padrão se repetia em diversos tamanhos, alguns até mil vezes maiores que outros.

Durante a pesquisa, Taylor mediu nos quadros a dimensão fractal – número que mede a complexidade do fractal. Percebeu que ela aumenta à medida que Pollock refina sua técnica, atingindo valores maiores nas últimas obras, como se o pintor estivesse inconscientemente à procura de fractais cada vez mais complexos. Enquanto suas telas iniciais, feitas em 1945, têm uma dimensão fractal baixa, semelhante à de uma couve-flor, as últimas obras possuem números comparáveis aos de uma floresta.

“As pinturas de Pollock podem resultar da percepção da essência dos cenários naturais”, diz Taylor. O próprio pintor afirmava que sua grande preocupação era com “os ritmos da natureza” e, para desenvolver sua técnica, mudou-se da cinzenta Nova York para uma casa de campo em Long Island. O impressionante é que a teoria dos fractais foi formulada na década de 70, quase 30 anos depois das obras de Pollock.

Uma pista de como ele chegou a esses modelos está em seu estilo de pintura. Pollock colocava a tela no chão e jogava tinta por todos os lados, sem que o pincel encostasse na tela. Meia hora depois ele parava de pintar e deixava o quadro de lado. Voltava após dias ou meses, preenchia um detalhe ou até mudava a estrutura da obra, para depois abandoná-la novamente. “Esse estilo em que a pintura vai se acumulando é muito semelhante aos processos usados pela natureza para construir seus cenários”, diz Taylor. Assim como as folhas caem dia após dia sobre o chão, com intensidades diferentes a cada momento, as tintas iam se somando de forma caótica.

Para Taylor, a beleza dos quadros de Pollock talvez esteja nessa semelhança com a natureza. O homem evoluiu numa paisagem marcada por fractais e dependia dela para sobreviver. “Não é de se espantar que esse tipo de padrão nos pareça agradável”, afirma.