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Aquecimento global: O começo do fim

A humanidade está diante da maior ameaça de todos os tempos:o aquecimento global

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 19h06 - Publicado em 30 set 2005, 22h00

Texto Rafael Kenski

No mês passado, o furacão Katrina devastou Nova Orleans. Não demorou um dia até que uma porção de gente começasse a declarar que a culpa não era do efeito estufa. O climatologista Pat Michaels, da Universidade da Virgínia, por exemplo, se apressou a afirmar que “ainda não há prova de que as contribuições humanas para o efeito estufa causem furacões”. É sempre assim. Existe nos EUA um verdadeiro exército disposto a desfazer qualquer relação entre a ação humana e os efeitos destrutivos do aquecimento global. “Há uma enorme campanha de desinformação”, diz o jornalista Ross Gelbspan, autor de Boiling Point (“Ponto de Ebulição”, inédito no Brasil). A tese de Gelbspan é a de que o governo Bush e as empresas petrolíferas investem pesado em confundir a opinião pública. Quer dizer então que a ação humana causou o Katrina? Não. Impossível afirmar isso com o pouco que sabemos sobre clima. Mas uma coisa é certa: furacões só acontecem quando as águas dos oceanos ficam quentes demais – e o mundo está cada vez mais quente, como você pode ver no mapa abaixo.

A temperatura média do planeta subiu 0,7 ºC no último século. Nas últimas décadas, geleiras tidas como eternas começaram a derreter, enchentes e secas se tornaram mais violentas, ondas de calor mataram milhares e um furacão fez sua estréia no Brasil. E o pior: foi só o começo. Nos próximos 100 anos, prevê-se que a temperatura aumentará entre 1,4 ºC e 5,8 ºC. Se considerarmos que 0,7 ºC causou tudo isso, dá para dizer que a palavra “apocalipse” não está longe de descrever o que vem por aí. O aquecimento global não é uma ameaça distante: é um perigo palpável, real, e está bem na sua frente.

Ele já está entre nós

Os moradores de Fairbanks, a maior cidade do interior do Alasca, perceberam que algo estava errado quando a cidade começou a afundar. Localizada no extremo norte da América, a região é tão fria que muitas ruas são construídas sobre uma camada de gelo, parte dele com mais de 12 mil anos de idade. O calor esburacou as ruas e entortou as casas. A 850 quilômetros dali, todo o gelo que protegia a vila de Shishmaref do vento e das ondas derreteu, o que obrigou os habitantes a mudar a cidade inteira para outro lugar, a um custo de 180 milhões de dólares.

O Alasca é uma das regiões mais afetadas pelo aquecimento global – em alguns pontos, a temperatura no inverno subiu 6 ºC desde 1960. Entretanto, quase todos os lugares frios do mundo têm uma história para contar a respeito do calor crescente. No início de 2002, uma placa de gelo com o dobro do tamanho da cidade de São Paulo e 220 metros de espessura se desfez em pedaços na Antártida em apenas um mês. Em todos os continentes, a maioria das geleiras – os rios de gelo que correm do topo das montanhas – está sumindo. “A julgar pela taxa com que estão diminuindo, perderemos grande parte delas nas próximas décadas”, afirma o climatologista Lonnie Thompson, da Universidade do Estado de Ohio, EUA, que desde os anos 70 sobe montanhas em uma corrida para estudar o gelo antes que ele acabe. Pelas suas previsões, as neves no topo do Kilimanjaro, o ponto culminante da África, não passarão de 2015. No Himalaia, a mais alta cadeia de montanhas do mundo, dois terços das geleiras podem entrar em colapso, provocando primeiro enchentes catastróficas na China, Índia e Nepal e, depois, falta de água em toda essa região superpovoada.

Tanto degelo não é à toa. A década de 1990 foi a mais quente desde que os cientistas começaram as medições, no século 19 – 1998 registrou o calor recorde e 2005 é forte candidato ao 2o lugar na lista. Há indícios de que as altas temperaturas da última década não têm paralelo ao menos nos últimos 1 000 anos.

“O que o aquecimento global faz é tornar o ano todo mais parecido com um verão”, diz o meteorologista Carlos Nobre, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Além do calor, espere todas as atrações de um verão que se preze (secas, enchentes e tempestades) e mais algumas (nevascas, por exemplo, que são fruto de mais umidade em regiões frias). “Se aquecemos a atmosfera, aumentamos a energia e toda a máquina do clima trabalha mais rápido: muita chuva em um momento e muita evaporação em outro. E aí começa o caos”, afirma José Marengo, também do CPTEC.

Com isso, os prejuízos com desastres naturais ao redor do mundo têm aumentado. Segundo a ONU, eles foram de 55 bilhões de dólares em 2002. Em 2003, o número subiu para 60 bilhões. Um relatório elaborado em 2002 por 295 bancos e companhias de seguro concluiu que as perdas chegarão a 150 bilhões de dólares por ano na próxima década. Andrew Dlugolecki, diretor da maior seguradora britânica, avalia que as perdas em 2065 serão maiores do que o valor de toda a produção mundial.

É difícil saber se toda essa grana pode ser debitada da conta do aquecimento global. Afinal, o clima sempre foi imprevisível e sujeito a desgraças repentinas. Mas a lógica diz que deve haver algo de errado quando tanta coisa estranha acontece ao mesmo tempo. Veja como exemplo o furacão Catarina, que em março de 2004 atingiu a Região Sul brasileira, destruindo milhares de casas. Ele bem pode ser um fenômeno de causas naturais. Mas nunca em toda a história houve qualquer registro de furacões naquelas bandas. Não é coincidência demais que tenha acontecido justo agora?

Mas existem alguns fenômenos mais fáceis de relacionar ao aquecimento. Em 2003, um calor muito acima da média na Europa causou cerca de 30 mil mortes e um prejuízo direto de 13,5 bilhões de dólares. “Foi um verão atípico, mas os modelos dizem que, daqui a 50 anos, a temperatura média européia será parecida com a que gerou essa catástrofe”, diz David King, o principal consultor para assuntos científicos do governo inglês. Outra conseqüência bem clara do aquecimento global é que, em todo o mundo, o inverno está chegando mais tarde e o verão, mais cedo. Na Inglaterra, a primavera aparece 3 semanas antes. Isso significa flores desabrochando mais cedo, animais mudando a época de acasalamento e muitas espécies migrando lentamente em direção aos pólos, onde o clima é mais parecido com o que estavam acostumadas.

Não apenas as espécies selvagens são afetadas pelo problema: as plantações também perdem. Entre 2000 e 2003, pela primeira vez na história recente, o mundo produziu menos grãos do que consumiu por 4 anos seguidos (ou seja, tivemos de atacar nossos estoques). “A produção cai com o aumento da temperatura. Inevitavelmente, ela vai diminuir mais e a fome no mundo, aumentar”, diz o agrometereologista Hilton Silveira Pinto, da Unicamp.

Esses problemas já estão fazendo vítimas. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o aquecimento global mata cerca de 160 mil pessoas por ano. Vários dos fatores diretos das mudanças climáticas afetam a saúde: falta de alimentos leva à desnutrição, enchentes trazem leptospirose e contaminam fontes de água, o que traz diarréias. Mas, nessa história toda, pelo menos uma família de animais parece ter se beneficiado: os mosquitos. Resultado: epidemias. Eles não só se proliferam mais rapidamente no calor como atingem áreas que antes eram frias demais para o seu estilo de vida. Junto com eles, doenças como malária, dengue e febre amarela têm mais possibilidades de se propagar. Ou seja, é uma tragédia. Mas pode piorar muito.

Por que esquenta?

Mas, afinal, de onde vem o aquecimento global? Acertou quem respondeu “efeito estufa”. Não que ele seja ruim por natureza. O efeito estufa é o fruto da ação de vários gases – como dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e até vapor de água – e o seu resultado é preservar um pouco do calor na Terra e permitir que o nosso planeta se mantenha com essa temperatura confortável (veja o infográfico na página 46). Não fosse por ele, toda a energia que o Sol emite durante o dia escaparia para o espaço à noite e a temperatura média do planeta ficaria em torno de 18 oC negativos, em vez dos acolhedores 13 oC positivos de hoje.

O mais influente desses gases, o dióxido de carbono, está em uma concentração bem pequena na atmosfera. Até o século 19, ele não passava de 0,027% do ar que respiramos. Entretanto, em 1958, quando os cientistas começaram a medir a concentração, a nossa queima de combustíveis já tinha jogado esse número para 0,031%. Hoje, ele já passa dos 0,037%. Parece pouco, mas é uma concentração que com certeza nunca foi vista nos últimos 420 mil anos e possivelmente nos últimos 20 milhões de anos.

Com mais dióxido carbono no ar, temos certamente uma receita para um mundo mais quente – mas é bem difícil de dizer o quanto. Vários efeitos, alguns quase desconhecidos da ciência, influem no clima. Pode ser, por exemplo, que a temperatura do planeta sofra uma grande influência das mudanças na atividade solar, um fenômeno misterioso e dificílimo de medir. O resultado disso é que, apesar de os cientistas saberem que o planeta está esquentando, ninguém pode determinar ao certo qual porcentagem desse aquecimento é culpa nossa.

Nesse ponto, a meteorologia é uma ciência bem peculiar. “A Terra é uma só, não dá para fazer experimentos e depois comparar”, diz o ecólogo mexicano Exequiel Ezcurra, do Museu de História Natural de San Diego, EUA. “Temos de decifrar o aquecimento global da mesma forma com que Darwin fez a Teoria da Evolução: observando, anotando e criando modelos”. Os modelos a que Ezcurra se refere existem em alguns dos computadores mais potentes do mundo – são softwares que tentam reproduzir com fidelidade cada variável que influi no clima. É claro que esses modelos ainda são imperfeitos: por mais memória que um computador tenha, ele ainda fica longe da complexidade da atmosfera terrestre. Mas o fato é que estamos chegando cada vez mais perto desse objetivo.

E, quanto melhores os modelos ficam, mais aparecem evidências de que o aquecimento global não poderia acontecer apenas por causas naturais. Um exemplo é uma pesquisa de 1997 que mostrou que as temperaturas mínimas noturnas e de inverno estão subindo quase duas vezes mais rápido do que as máximas diurnas e de verão. Variações na atividade do Sol fariam as duas oscilarem de forma parecida. Outra pesquisa, feita dois anos depois, mostrou que todas as causas naturais somadas não teriam a força suficiente para levar às alterações que estamos observando no clima. Ou seja, cabe mesmo à humanidade tomar uma providência.

A conspiração do calor

Por mais dados que se acumulem, a opinião pública parece estar cada vez menos preocupada. Em 1991, uma pesquisa da revista Newsweek mostrou que 35% dos americanos acreditavam no aquecimento global como fato. Em 1996, o número tinha caído para 22%. O que mudou no meio tempo? Foi nessa época que a tal “campanha de desinformação” da qual fala Ross Gelbspan ganhou corpo. Basicamente, difundiu-se a idéia de que culpar a ação humana pelo aquecimento global é só uma teoria não comprovada e que, portanto, não precisamos nos preocupar.

Realmente, há ainda muitas dúvidas cercando o assunto – só que a existência do aquecimento global e a nossa responsabilidade nele não estão entre elas. Quem garante é o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (conhecido pela sigla em inglês, IPCC), um grupo de cerca de 2 mil cientistas de mais de 100 países que se reuniram, em uma das maiores colaborações científicas da história para analisar o problema. “Ter tantos pesquisadores defendendo a mesma opinião é o mais perto que se pode chegar de uma verdade científica”, diz Gelbspan.

Mesmo assim, há alguns poucos pesquisadores dispostos a afirmar que o aquecimento global não existe, que ele não é causado pela ação humana ou até que ele não vai ser ruim para o mundo. Três dos mais famosos desses cientistas são o meteorologista Richard Lindzen, o físico Fred Singer e o climatologista Pat Michaels, este último aquele que disse no começo desta reportagem que ninguém provou que ações humanas possam causar furacões. O problema é saber se dá para acreditar em alguma coisa do que esses cientistas vêm dizendo.

“Singer, Michaels e outros ‘céticos’ estavam manipulando dados, omitindo fatos cruciais, criando objeções ilusórias e interpretando a situação de forma errada deliberadamente”, diz Gelbspan. O jornalista revelou que os 3, sem contar a ninguém, vinham recebendo dinheiro de indústrias de carvão e petróleo para fazer suas pesquisas. Segundo ele, Singer e Michaels foram pagos pela Peabody, a maior empresa privada de carvão do mundo, para fazer uma turnê pelos EUA pregando que o aquecimento é uma “teoria”, não um fato. A empresa deixava claro que o público-alvo dessas palestras seriam pessoas de baixo nível educacional – alvos mais fáceis de manipulação.

Mas o personagem que mais contribuiu para gerar dúvidas sobre as mudanças climáticas não é um cientista. Trata-se de ninguém menos que o presidente dos EUA, George W. Bush. Exemplo da atuação dele é um relatório escrito pelo assessor da Casa Branca Frank Luntz, que entre outras coisas já havia recomendado trocar o termo “aquecimento global” pelo mais ameno “mudança climática”. No relatório, chamado Vencendo o Debate sobre Aquecimento Global, que uma ong trouxe a público, Luntz recomendava que, em vez de controlar as emissões, o governo deveria passar a imagem de que desenvolveria tecnologias capazes de resolver o problema. E acrescentava que “o público acredita que não existe consenso sobre aquecimento global na comunidade científica. Se ele vier a acreditar que as questões científicas estão fechadas, sua opinião irá mudar.” E concluía: “Existe ainda uma oportunidade para desafiar a ciência.”

Bush retirou seu país dos acordos da ONU para o controle de gases de efeito estufa, praticamente melando a decisão, já que os EUA produzem mais de um terço desses gases no mundo. Ele também defendeu que era preciso “mais pesquisas” antes de qualquer decisão e afirmou que limitar a emissão de gases ameaçaria o estilo de vida americano. No início de seu primeiro mandato, anunciou um plano energético que previa a construção de 1 300 a 1 900 usinas termoelétricas, a maioria a carvão, o combustível que mais emite gases do efeito estufa. “O plano de Bush é basicamente um atalho para o caos climático”, diz Gelbspan.

Em 2003, o presidente americano chamou de “fruto da burocracia” um estudo da Agência Americana de Proteção Ambiental que afirmava que a emissão de gás carbônico aqueceria os EUA. No ano seguinte, seu gabinete censurou de um relatório dessa mesma agência qualquer referência aos problemas climáticos. Uma revelação de como funcionavam esses cortes veio no início deste ano, quando Rick Piltz, um dos coordenadores do programa de pesquisas em mudanças climáticas do governo americano, divulgou uma carta denunciando a alteração forçada de relatórios científicos. O autor das mudanças seria Philip Cooney, um ex-lobista do Instituto Americano de Petróleo (uma associação comercial da indústria petrolífera), que foi alçado, no governo Bush, a nada menos do que chefe do Conselho de Qualidade Ambiental. Cooney renunciou em junho deste ano, quando o jornal The New York Times trouxe a público documentos que comprovavam as tais mudanças nos textos científicos. No mês seguinte, ele foi contratado pela gigante petrolífera ExxonMobil.

É fácil entender o interesse das empresas de carvão e petróleo em abafar as discussões sobre as mudanças climáticas. Afinal, resolver o problema requereria cortes drásticos nos seus principais produtos, a ponto de ameaçar a própria existência dessas indústrias. E trata-se de um setor gigantesco, que movimenta 1 trilhão de dólares e que, entre 1998 e 2004, gastou nada menos que 440 milhões de dólares em influência política nos EUA, principalmente com lobistas e contribuições de campanha. A relação dessas indústrias com o governo Bush são especialmente próximas, não só pelas doações vultosas, mas também pelo fato de que várias pessoas do gabinete têm vínculos com empresas do setor. “Normalmente, os casos de corrupção levam a produtos defeituosos ou fundos de pensão fraudados. Mas, nesse caso, o que está em jogo é o futuro do planeta. É um crime contra a humanidade”, afirma Gelbspan.

E qual é a solução?

Não é um problema simples. O que está em jogo é nada menos do que a forma como a humanidade obtém energia para fazer basicamente tudo – e as mudanças nesse modelo terão de ser drásticas se realmente queremos escapar do pior. Em 2003, 3 cientistas americanos mostraram que, para evitar um aumento maior do que 2 ºC na temperatura nas próximas décadas, precisaríamos que dois terços de nossas energias viessem de outras fontes que não o carbono até o final do século (isso na previsão mais otimista. Na pior, teríamos de eliminar as emissões por completo).

Isso quer dizer que teremos de desenvolver uma quantidade gigantesca de tecnologias para substituir todas as comodidades que o petróleo nos fornece. Em teoria, o mundo já tem quase todas as técnicas de que ele precisa para amenizar o problema, mas colocá-las em prática está longe de ser simples (veja o infográfico na página 52). Uma das idéias mais promissoras, por exemplo, é capturar dióxido de carbono que seria jogado na atmosfera e enterrá-lo em fossas a, no mínimo, 800 metros de profundidade, para que não saia nunca mais de lá. A idéia é engenhosa, mas vá saber como colocá-la em prática. Os cientistas ainda travam acaloradas discussões para encontrar formas de detectar pequenos vazamentos e de levar os gases às fossas.

O país que mais defende a idéia de que as tecnologias vão nos salvar é, pouco surpreendentemente, os EUA, maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta. Em julho, eles aderiram a um pacto com Austrália, China, Índia, Japão e Coréia do Sul para desenvolver tecnologias capazes de substituir o carbono. Em vez de diminuir as emissões, o plano de Bush para 2012 é reduzir em 18% a intensidade do carbono, ou seja, a quantidade de gases do efeito estufa necessárias para se obter a mesma produção. “Investir apenas no desenvolvimento de tecnologias é empurrar o problema mais para a frente, quando ele hoje já pode ser grave o suficiente. É parte da ilusão de que a tecnologia resolve tudo”, diz Luiz Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas.

A maior parte dos cientistas acredita que a única solução viável é mesmo reduzir a quantidade de gases do efeito estufa que jogamos na atmosfera. Esse projeto até chegou perto de virar realidade em 1992, quando representantes de quase todas as nações se juntaram para discutir o problema, no Rio de Janeiro. O resultado foi um acordo em que os países visavam manter as emissões no mesmo nível de 1990. Mas as boas intenções pararam aí. Quase ninguém cumpriu a promessa e, 5 anos depois, houve uma nova reunião, dessa vez no Japão. Daí saiu o famoso protocolo de Quioto. Ele propõe que os países reduzam suas emissões a um nível em média 5,2% menor do que o de 1990 e estabelece 2012 como prazo.

Em grande parte por influência do Brasil, as nações assumiram “responsabilidades históricas” pelas emissões. Em outras palavras: como o dióxido de carbono permanece por mais de um século na atmosfera, grande parte do problema de hoje se deve a emissões que as nações ricas fizeram há décadas e que foram fundamentais para o seu desenvolvimento. Por isso, os países pobres ficaram isentos de obrigações, para terem alguma chance de se desenvolver também. Um outro mecanismo bolado em Quioto é o mercado de carbono: países e empresas que excedessem sua cota poderiam “comprar” créditos de outras nações, financiando programas que controlem as emissões de carbono por lá – coisas como reflorestar áreas desmatadas ou capturar o carbono antes que ele caia na atmosfera (a esses projetos se deu o nome de “mecanismos de desenvolvimento limpo”). Tudo bonito, mas que perdeu muito do sentido em 2001, quando os EUA de Bush desistiram de implementar o protocolo sob o argumento de que ficariam em desvantagem diante das nações em desenvolvimento. No início de 2005, o protocolo entrou em vigor, mas sem os americanos.

“Os mecanismos do protocolo de Quioto estão tendo um impacto substancial no Brasil”, diz José Miguez, coordenador geral de mudanças do clima do Ministério da Ciência e Tecnologia, que participou ativamente das negociações. O país tem cerca de 30% dos projetos de mecanismos de desenvolvimento limpo e é de longe o líder nessas iniciativas. As vantagens por aqui vão além do controle de emissões: programas de reflorestamento, por exemplo, poderão ajudar a preservar a biodiversidade no país. Mas isso não acaba com o risco do aquecimento global. “A idéia de Quioto não é durar até 2100, mas criar um novo modelo de desenvolvimento, menos baseado na queima de carbono”, diz Miguez. “E isso ele está conseguindo”.

Mesmo que isso aconteça, talvez tenhamos de pagar um bom preço por esse tal novo modelo. “Hoje vemos a saída em mecanismos de desenvolvimento limpo, mas, quando a situação piorar, começaremos a achar aceitáveis medidas mais drásticas”, diz Pinguelli Rosa. “É possível que tenhamos, por exemplo, que simplesmente eliminar a circulação de automóveis.” O lado bom é que o esforço para deter esse apocalipse certamente vai nos forçar a buscar novas formas de cooperação internacional. “O problema da camada de ozônio foi controlado quando os países entraram em acordo, decidiram não emitir mais gases CFC e encontraram substitutos para ele. É um exemplo do que deve ser feito com os gases do efeito estufa”, disse à Super Mario Molina, da Universidade da Califórnia em San Diego, que ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1995 por ter decifrado as causas da destruição do ozônio. Só resta torcer para que essa decisão não chegue tarde demais.

Calor recorde

O mapa à esquerda mostra as regiões que apresentaram calor anormal entre junho e agosto deste ano. Cada bolinha preta indica um local em que a temperatura nesses 3 meses foi maior que a média dos últimos 30 anos. A temporada deste ano foi a 2a mais quente já medida – e deixou marcas, como o furacão Katrina, nos EUA. Cidades inteiras ficaram embaixo de lama.

Mundo difícil

Alguns mecanismos queaumentam, diminuem e, sobretudo, complicam o aquecimento global

Efeito Estufa

A energia solar chega à Terra na forma de luz visível e atravessa a atmosfera. Quando ela atinge o solo, este esquenta e devolve o calor na forma de radiação ultravioleta. Os gases do efeito estufa são transparentes à luz visível, mas não à ultravioleta, e por isso mantêm parte do calor na Terra.

Vapor de água

Um planeta mais aquecido estimula a evaporação da água. Só que o vapor também contribui para o efeito estufa e, ao se espalhar pela atmosfera, aumenta ainda mais o calor. Isso causa mais evaporação, que coloca mais vapor na atmosfera, gerando um círculo vicioso.

Reflexo no GelO

O gelo é como um espelho que reflete mais de 80% da energia solar que incide nele. Quando o calor o derrete, a área passa a ser ocupada por água, que reflete menos de 10% da luz solar. Isso significa que a região tende a esquentar ainda mais – e, com isso, derreter mais gelo.

Absorção de CO2

Oceanos são os principais responsáveis por tirar gás carbônico da atmosfera. Mas existe um limite para a quantidade que podem absorver – e quanto mais quente, mais fácil é atingi-lo. Se isso acontecer, a temperatura do planeta subiria rapidamente.

Gases escondidos

Existem grandes quantidades de matéria orgânica presa em pedaços de gelo muito antigos. Ao derreter, ela fica sujeita à ação de bactérias que a transformam em metano, um poderoso gás do efeito estufa. O calor também estimula que bactérias no solo emitam gás carbônico.

Aerossóis

São partículas sólidas em suspensão, como areia, pólen e fumaça. Muitos aglutinam moléculas de água e formam nuvens densas, que refletem a luz do Sol de volta para o espaço, o que esfria o planeta. Controlar a emissão desses poluentes pode acabar esquentando ainda mais o planeta.

Os mecanismos

A Terra não é simples. Cada detalhe pode desencadear centenas de conseqüências que mudam todo o resultado, e alguns desses detalhes são totalmente imprevisíveis. Veja ao lado os principais efeitos que interferem no clima mundial.

Conclusão

Se fosse só pelo efeito estufa, dobrar a concentração de gases aumentaria a temperatura do planeta em 1,2 oC. Somando os outros efeitos, os cientistas acreditam que a mesma quantidade de gás aumentará a temperatura da Terra entre 1,5 oC e 4,5 oC.

Os 4 cavaleiros do apocalipse

Como um calorzinhoa mais se transforma em umamáquina assassina

MAR EM ASCENsÃO

A previsão é de que os oceanos subam entre 9 e 88 centímetros no próximo século. Vai ser suficiente para que a população inteira de países em pequenos arquipélagos como Tuvalu e as Ilhas Marshall tenham de migrar para outros lugares.

Degelo

Quando uma geleira começa a derreter, é difícil fazê-la parar. Ela forma rachaduras que levam água até o fundo e lubrificam o contato com a rocha, fazendo com que o gelo escorregue mais rapidamente.

Icebergs

A água e os blocos de gelo que as geleiras lançam ao mar contribuem para aumentar o nível dos oceanos. Esse processo se acelera quando as grandes placas de gelo que estão na base se desprendem.

Dilatação

O principal fator para o aumento do nível dos oceanos é que eles estão esquentando – cerca de meio grau nos últimos 60 anos. Como qualquer coisa que esquenta, a água se dilata, expandindo o mar.

Invasões marinhas

Um mar mais alto invade praias e cidades, mas isso é só o começo. A elevação causa uma erosão das áreas costeiras, leva água salgada aos aqüíferos e causa sede, além de obrigar populações inteiras a se mudar.

NOVOS PADRÕES

Mudar a temperatura força o planeta a buscar um novo equilíbrio climático. Do fundo do mar ao topo da atmosfera, os cientistas estão vendo mudanças em correntes e desastres onde eles não eram esperados.

Austrália seca

Correntes úmidas vindas do oceano Pacífico costumavam cair sobre a Austrália e irrigar plantações. Mas, nos últimos 30 anos, ventos na região se aceleraram e agora as chuvas caem mais adiante, no meio do mar.

Ciclones até aqui

O aquecimento global pode ter esquentado as águas do Atlântico Sul a ponto de permitir que elas formem furacões. Em todo o mundo, a velocidade e a duração desses fenômenos aumentou 50% nos últimos 50 anos.

Europa fria

O aquecimento enfraquece uma corrente de água quente do Atlântico que segue em direção à Europa. Se ela parar completamente, em apenas 6 anos grande parte da Europa sofrerá invernos de 20 oC negativos.

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SECAS E ENCHENTES

Dois dos maiores problemas. Além de trazer sede e fome, as secas podem levar pessoas e até países a conflitos pela água que resta. Já as enchentes estão entre as maiores causas de prejuízos por catástrofes naturais no planeta.

Falta de água

Quanto mais quente o clima, mais as plantas transpiram e mais a água presente no chão evapora. Dessa forma, as áreas afetadas por secas severas dobraram nos últimos 30 anos e já representam um terço do planeta.

Raios

A capacidade do ar de absorver água cresce junto com o calor e massas de ar mais úmidas formam mais raios. Um estudo sugeriu que 1 oC de aumento na temperatura eleva em 40% a quantidade de raios em latitudes iguais às da Europa e EUA.

Inundações

Uma hora, toda essa água acumulada nas nuvens tem de cair. Em um só dia, é possível ter a mesma quantidade de chuva de um mês inteiro. A tendência ao aumento de inundações têm sido observada em todos os continentes.

EXTINÇÕES

Até 37% das espécies do planeta estarão extintas até 2050 – e esta É uma estimativa otimista. ela não leva em conta a interação do clima com fatores como o desmatamento e barreiras para a migração, como estradas, cidades e plantações.

Ártico

Acossados pelo calor, os animais não têm para onde migrar em busca de frio. A previsão era de que até 2070 a região não teria mais neve no verão, mas depois de 4 anos de degelos recordes, acredita-se que o gelo acabará bem antes.

Corais

A base da alimentação dos corais é uma alga colorida que morre com uma pequena elevação na temperatura. Quando isso acontece, a área se torna branca e sem vida. Com esse efeito, o El Niño de 1998 exterminou um sexto dos corais do planeta.

Florestas

O aquecimento retira água do solo e faz as plantas transpirar mais, o que aumenta nelas a necessidade de água. A partir de um ponto, a floresta deixa de se adaptar ao ambiente e entra em colapso.

Tá quente, Brasil!

Se estamos nopaís do futuro, eis aquicomo ele vai ser

Pode parecer estranho, mas é mais fácil prever o clima no planeta inteiro do que em um só país. Para isso, é preciso não só saber os fatores que influenciam todo o mundo como calcular a interação deles com montanhas, florestas e cidades. Os cientistas já sabem que, na pior das hipóteses, a temperatura na América do Sul subirá entre 2 e 6 oC – limitar as emissõs de gases reduz o problema para entre 1 e 4 oC. A maior complicação é calcular como esse calor vai interferir no regime de chuvas no Brasil: cada programa de computador dá um resultado diferentes do outro. Mas tirando uma média entre as diferentes previsões, os cientistas conseguem ter uma idéia razoável de como ficarão o clima e os ecossistemas por aqui. “A tendência é que uma vegetação substitua a outra: floresta vira cerrado, cerrado vira caatinga e caatinga vira semi-deserto”, diz Carlos Nobre, do CPTEC.

Savana Amazônica

O aquecimento global e o desmatamento na Amazônia tendem a tornar o clima da região mais quente e seco. Isso levará a uma vegetação típica do cerrado, com vegetação adaptada a períodos sem chuvas e a muitos incêndios. As florestas sobrevivem apenas no extremo oeste.

Sem cerrado

Um estudo realizado no Centro Hadley, na Inglaterra, analisou 138 espécies de árvores do cerrado e concluiu que as mudanças climáticas podem levar 24% delas à extinção até 2050. Muitas regiões podem ganhar características semelhantes às da caatinga.

Deslizamentos

Com mais vapor na atmosfera, a população sofrerá ainda mais com enchentes, inundações e deslizamentos, principalmente nas serras do Mar e da Mantiqueira. O problema fará mais vítimas, no entanto, em centros urbanos como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Recife e Salvador.

Outras plantações

Um possível aumento de 5,8 oC acabaria com as plantações de café de Goiás e com 97% das de São Paulo e Minas Gerais. “O clima do sudeste pode se tornar igual ao da Bahia, o que obrigaria à plantação de culturas como coqueiros e caju na região”, diz Hilton Silveira Pinto, da Unicamp.

Semi-desertos

Os cenários até prevêem uma elevação das chuvas, mas isso pouco importa. O calor vai aumentar tanto a evaporação que lagos e açudes se tornarão ainda mais secos. A vegetação da caatinga ficará mais pobre, algumas áreas se tornarão semi-desertos e a agricultura será ainda mais difícil.

Invasão marinha

O aumento do nível do mar atacará especialmente o Nordeste, onde as praias são pouco inclinadas e afundam suavemente. “Quando o mar se eleva, a erosão nesse tipo de costa é muito maior”, diz o oceanógrafo Dieter Muehe, da UFRJ. Recifes e falésias protegerão alguns lugares.

Chuva e nova vegetação

El Niños mais intensos aumentarão as chuvas no sul do Brasil. Com mais calor e umidade, a região ganhará uma vegetação parecida com a da Mata Atlântica, um pouco mais pobre por conta da diferença de solo. Já as típicas araucárias resistirão, quando muito, só nas partes mais altas e frias.

Furacões

Em março de 2004, o furacão Catarina atingiu a costa da Região Sul com ventos de 150 km/h. Foi inédito na região. É possível que seja fruto do aquecimento – e apenas o primeiro de muitos. Se comprovado, as construções na região precisarão ser reforçadas daqui em diante.

Árdua solução

Resolver o problemaé possível, mas ninguémdisse que é fácil

Ninguém sabe quanto de carbono estaremos emitindo daqui a 50 anos. Analisando várias estimativas, Stephen Pacala e Robert Socolow, ambos da Universidade Princeton, EUA, concluíram que o crescimento da economia elevará as emissões do planeta à desastrosa quantidade de 14 bilhões de toneladas métricas por ano. Eles calculam que diminuir essas emissões pela metade colocaria o planeta em um patamar mais ou menos seguro, e fizeram um levantamento das propostas para cortar as emissões. Cada uma das 11 medidas abaixo pode eliminar 1 bilhão de toneladas e, portanto, basta atingir 7 delas para controlar a situação. Quais você acha mais viáveis? Só uma dica: realizar uma proposta dificulta as outras. Quanto mais energia vier de meios limpos, por exemplo, menos impacto terão as campanhas para reduzir o consumo. Difícil, não?

Solução

Aumentar a eficiência dos automóveis

Diminuir o uso de automóveis

Prédios com iluminação, resfriamento e aquecimento mais eficientes

Trocar usinas elétricas a carvão por outras a gás natural, que emite apenas metade do carbono

Capturar o carbono e enterrá-lo em poços profundos

Energia nuclear

Energia eólica

Painéis solares

Usar biocombustíveis, como o álcool

Aumentar a área de florestas

Obstáculo

Automóveis grandes e pouco eficientes viraram moda

Falta, algumas vezes, um bom transporte público e, em outras, disposição para deixar o carro em casa

As técnicas já são bem conhecidas, mas não há muitos incentivos para investir nelas

Há outras indústrias – do aquecimento ao transporte – disputando o gás natural

A técnica é pouco testada e existe ainda um alto risco de vazamentos, que podem ser catastróficos

Gera muito lixo nuclear e é um possível alvo para terroristas

O único problema é a poluição visual. Por outro lado, os terrenos das usinas podem ser usados para várias outras coisas

Ainda é uma maneira cara de gerar energia

Disputa terra com áreas de reflorestamento e com outros tipos de plantações

Florestas disputam terra com as plantações, mas têm o benefício extra de aumentar a biodiversidade

Para atingir o objetivo*, seria preciso…

Dobrar a eficiência de todos os automóveis do planeta, assumindo que o número de carros em 2054 chegará a 2 bilhões (4 vezes o atual)

Diminuir pela metade o número de quilômetros rodados por dia em todos os carros do mundo

Diminuir em um quarto as emissões dos prédios

Que o número de usinas a gás seja 4 vezes o de hoje

Criar 3 500 projetos iguais ao maior existente hoje

Dobrar o número de usinas nucleares existentes

Aumentar 50 vezes a quantidade de usinas eólicas de hoje. Ao final, elas ocupariam uma área de 30 milhões de hectares, um pouco maior do que o estado do Tocantins

Aumentar 700 vezes o número de painéis no mundo. Ao final, a área ocupada seria de 2 milhões de hectares, ou entre 2 e 3 m2 de espaço ao sol por pessoa

Aumentar em 100 vezes a quantidade de álcool que o Brasil produz, o que significaria ocupar uma sexto das áreas cultiváveis do mundo

Eliminar o desmatamento das florestas tropiycais e replantar 250 milhões de hectares, o equivalente aos estados do Amazonas e Mato Grosso somados

*Eliminar 1 bilhão de toneladas métricas de carbono.

Para saber mais

Boiling Point – Ross Gelbspan, Perseus, EUA, 2004

http://www.presidencia.gov.br/secom/nae – Caderno sobre as mudanças climáticas do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República

http://www.newscientist.com/channel/earth/climate-change – New Scientist – Climate change

http://www.centroclima.org.br – Site do Centro Clima, da UFRJ

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