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O céu pega fogo

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h58 - Publicado em 29 jul 2009, 22h00

Na Antiguidade, quando o imenso véu colorido irrompia a noite, era sinal de fúria divina. Atualmente, é reflexo da fúria do Sol. O segredo do fenômeno e do fascínio que ele exerce está na mesma palavra: magnetismo. É justamente o campo magnético terrestre que faz a fúria solar incendiar a noite.
A II Guerra Mundial consumia a Europa e a Ásia em setembro de 1941. Nos Estados Unidos, os cidadãos da Califórnia, na costa oeste, temiam um ataque japonês. Inesperadamente, no meio de uma noite escura, o céu ficou vermelho. Pânico, alerta geral: aquilo só podia ser o início da invasão. E era. Mas nenhum japonês estava por trás daquela luz. Ela vinha de outro lugar e o “campo de batalha” situava-se a cerca de cem quilômetros de altura. Os californianos estavam presenciando uma aurora polar.

Nada a ver com o raiar do dia. A aurora polar acontece mesmo no meio da noite. É um fenômeno luminoso produzido por partículas energizadas vindas do Sol. São prótons e elétrons que, viajando a 1,4 milhão de .quilômetros por hora, penetram pelas linhas magnéticas da Terra criando os mais variados efeitos luminosos. É como se a atmosfera terrestre fosse um gigantesco tubo de televisão, pois em ambos os elétrons energizados emitem luzes, e assim, criam imagens. Se for uma aurora polar, pode ser, por exemplo, uma cortina brilhante que se estende por centenas de quilômetros. Ela se move lentamente. Em sua base, insinua-se um verde, depois um vermelho, como se fosse a barra do tecido, que pulsa e ondula.

Na Antiguidade, quando nem se suspeitava que o Sol emitisse matéria, a ocorrência de uma aurora polar era sinal da ira divina, prenúncio de catástrofes e guerras, castigo certo. O terror se espalhava entre os espectadores. Aquilo só podia ser coisa de Deus. Ou do diabo. Passaram-se muitos séculos até que a ciência começasse a entender o espetáculo. Aqui, a partir da próxima página, você também vai saber como acontece a aurora polar. Calma, o céu não está pegando fogo. A aurora polar, como o cinema, é só ilusão.

 

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Três séculos para desvendar o mistério

Em 1621, um homem que investigava o movimento dos astros começou a explicar o que antes apenas apavorava a humanidade. Já que, por algum motivo que ele não suspeitava, a luminosidade noturna quase sempre ocorria no norte da Europa, ele começou batizando o fenômeno de “aurora boreal” (de Bóreas, o deus grego do vento norte). Aquele sábio italiano, de tanto estudar, compraria uma briga feia com a Igreja Católica, por ter descoberto que a Terra, humildemente, girava em tomo do Sol. Seu nome era Galileu Galilei e a expressão que ele inventou para designar a aurora polar é usada por muita gente até hoje. Mas não é a mais correta. No século seguinte, o navegante inglês James Cook, descobridor da Austrália, presenciaria no Oceano Índico a aurora de Galileu, mas na direção do pólo sul. Chamou-a de aurora austral. A partir daí, ficou claro que ela não pertencia exclusivamente ao norte, mas às duas regiões polares do planeta. Veio daí o nome aurora polar.

Um sujeito que entrou para a história na cauda de um cometa, o astrônomo Edmond Halley (1656-1742), foi o primeiro a ligar a ocorrência das auroras polares ao campo magnético terrestre, sua principal área de estudo.
No entanto, foi apenas no fim do século XVIII que outro pesquisador, o americano Elias Loomis, daria um passo decisivo para transformar o mistério da aurora em ciência, ao investigar a atividade solar. Ele percebeu que ao ocorrer uma erupção solar (súbito brilho na superfície do Sol que dura menos. de duas horas), 20 a 40 horas mais tarde tinha-se notícia de uma espetacular aurora em regiões próximas à latitude 77°, no norte do Canadá e dentro do círculo polar ártico. Não por acaso, desconfiou Loomis, o pólo magnético da Terra, para onde todas as bússolas se dirigem.

 

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A atmosfera é uma lâmpada fluorescente

Mas que relação pode existir entre uma erupção solar, auroras polares ocorrendo dois dias depois (a 149 milhões de quilômetros de distância do Sol) e, o campo magnético terrestre? Essa relação é dada pelo vento solar, uma descoberta que ainda não completou meio século, No fim da década de 50, os cientistas perceberam que, além de luz e calor, o Sol também emite grandes quantidades de matéria, ou, mais exatamente, prótons e elétrons, Deu-se o nome de vento solar a este fluxo de prótons e elétrons carregados eletricamente, Ele é ininterrupto, mas quando há uma erupção solar toma-se mais violento. É esse vento solar que explica o fato de as caudas dos cometas estarem sempre no sentido contrário ao Sol – como o vento comum aqui da Terra empurra as caudas dos papagaios e das pipas da garotada. A hipótese do vento solar apareceu em 1957, a partir de um trabalho do físico americano Newman Parker. No ano seguinte, o satélite americano Explorer 1 anunciava a entrada dos Estados Unidos na corrida espacial e comprovava, com seus instrumentos, a veracidade da idéia de Parker.

Quando o vento solar entra em contato com o campo magnético terrestre, parte das partículas é atraída para onde existe maior atividade magnética, ou seja, nos pólos. Imagine-se aqui a Terra funcionando como um gigantesco ímã: sua maior força de atração está nos pólos. Com o movimento de rotação da Terra, formam-se nestas regiões linhas de magnetismo em forma de espiral. É ali que as partículas vindas do Sol serão aceleradas. Em contato com o oxigênio e nitrogênio livres na alta atmosfera, as partículas aceleradas emitem luz, como se estivessem num tubo de lâmpada fluorescente. Essa a teoria que atualmente explica a ocorrência das auroras polares.

 

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Pelo telefone você descobre quando ver

As auroras polares podem surgir na forma de manchas, raios, arcos/faixas ou véus. Umas têm movimentos suaves, outras pulsam, formando um quadro mutante. Sempre a cem quilômetros das nossas cabeças, no mínimo. A distância é providencial, pois a formação da aurora polar libera energia da ordem de um milhão de watts (o que produz, no pico, a Usina de Sobradinho, no rio São Francisco). Mesmo assim, de longe, elas provocam tempestades magnéticas tão fortes que costumam afetar os rádio – transmissões, o movimento das bússolas, a ação de radares e até mesmo a rota de alguns satélites.

Quanto mais próximo o observador estiver dos pólos magnéticos (que não coincidem exatamente com os pólos geográficos), maior a chance de ver o fenômeno. Como o pólo magnético no nosso hemisfério sul está em pleno oceano (veja ao lado), o mais indicado é o norte do Canadá, entre 60° e 77° de latitude, longe das luzes da cidade e, de preferência, de 20 a 40 horas depois de uma erupção solar. Parece coisa de doido mas, nos Estados Unidos, existe um serviço para astrônomos amadores que informa a ocorrência de erupção solar. Para quem estiver realmente disposto a conhecer ao vivo o panorama oferecido por estas páginas, o mapa da mina é esta espécie de “Disque Aurora”: 001-303-497 3235. É o Space Environmental Service Center, que fica no estado do Colorado.

Enquanto se sabe tão pouco sobre a influência das tempestades magnéticas no metabolismo humano, algumas agências de turismo japonesas continuam vendendo viagens pelo Círculo.

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Polar Ártico para casais que não conseguem ter filhos. Dizem que fazer amor debaixo de uma aurora polar aumenta a chance de concepção. Nada de científico. Talvez seja puro magnetismo.

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