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Reserva Biológica Marinha do Arvoredo: Ameça a uma reserva sem lei

Parada obrigatória de aves migratórias e dona de uma variedade de 35 espécies de peixes, além de uma vegetação exuberante, a Reserva Biológica Marinha do Arvoredo, em Santa Catarina, vive ameaçada. Pesquisadores e ecologistas batalham por sua efetiva implantação.

Heloísa Dallanhol

Vistas de longe, a 13 quilômetros de Florianópolis, em Santa Catarina, as formações rochosas do Arvoredo, em meio ao Oceano Atlântico, parecem apenas mais uma magnífica paisagem. Na verdade, promovidas há dois anos à condição de Reserva Biológica Marinha, as ilhas Deserta, Galé, Arvoredo e o calhau de São Pedro, que juntos somam 17 800 hectares, não deveriam receber visitas de pessoas não autorizadas e — se existisse fiscalização — haveria multas, caso ousassem furtar dali qualquer animal, como, afinal, determina a lei. Mas a efetiva implantação da Reserva ainda não aconteceu e ela continua desprotegida, à mercê dos depredadores.

Por isso, motivos de preocupação não faltam aos ecologistas. O primeiro, e talvez o principal, é a presença de milhares de aves migratórias? vindas do extremo norte do continente, que em todos os invernos procriam nas ilhas Deserta e Galé. A vizinha Ilha do Arvoredo — a maior, com 3 quilômetros de comprimento por 2 de largura e a mais acessível ao desembarque — também está ameaçada por acampamentos e infelizes pescas predatórias. Para afastar as cobras, por exemplo, os visitantes costumam atear fogo à vegetação — uma das raras porções da Mata Atlântica ainda preservada —, sem saber que com isso contribuem decisivamente para aumentar o número de ratos no local.

No mar, o perigo também não é menor. Pescadores, para matar os peixes de uma só tacada e ainda facilitar sua retirada, usam dinamite, além de substâncias químicas tóxicas, como o carbureto, que em contato com a água produz gases tóxicos ameaçando assim o equilíbrio da vida marinha costeira e matando peixes pequenos, sem valor comercial. Além disso. a morte indiscriminada de filhotes pode varrer definitivamente daquelas águas gerações inteiras de uma única espécie. Enfim, em terra, quando os pássaros chegam de suas longas jornadas e conseguem fazer os ninhos e desovar, vêem os ovos desaparecer — e virarem omelete para os pescadores que os recolhem.

Quem sabe, um dia todas essas histórias possam ser contadas como se fossem coisa do passado. Por enquanto, a batalha mal começou. Diante dos riscos à existência destes existência animais e da própria Reserva, em 1988, o catarinense André Freyesleben, estudante de Arquitetura de 27 anos, arregaçou as mangas e, munido de fofos, vídeos e um extenso dossiê escrito com a colaboração de biólogos, resolveu brigar pela criação da Reserva Biológica Marinha. Ele conseguiu convencer o governo federal não só da urgência em proteger estas espécies como de que o patrimônio genético do Arvoredo seria um rico objeto de pesquisas científicas. A escolha das ilhas para a procriação pelas aves, por exemplo, ainda não havia sido registrada.

Passados dois anos desde que a região adquiriu o status de Reserva, mesmo vitorioso, Freyesleben ainda não vê motivos para comemoração, já que ela só existiu até agora no papel assinado pelo então Presidente José Sarney. “Barcos pesqueiros indústriais ainda praticam arrastão ali, o que já é crime. Sem fiscais, não adiantou nada batizarem a área de Reserva Biológica”, protesta André, que desde os 12 anos freqüenta a região. Para alertar o governo, e a população, pesquisadores do Projeto Larus — que há dez anos se dedica à educação ambientar — da Universidade Federal de Santa Catarina, têm documentado em vídeo diversos aspectos deste ecossistema. “Se acontecerem modificações sensíveis na Reserva, as faunas, tanto terrestre quanto marinha, poderão recuar, deixando um imenso vazio”, sentencia o biólogo Alcides Dutra, coordenador do Larus.

Os trinta-réis, parentes das gaivotas dentro da família dos larideos — dai o nome do projeto, Larus —, são os donos do imenso ninho rochoso em que se transformou a Ilha Deserta. Os trinta-réis-de-bico-vermelho, por exemplo, apesar da frágil aparência, com suas penas brancas e o penacho escuro na cabeça, são ferozes e enfrentam os incautos que ousam se aproximar de seus filhotes. Ao mesmo tempo, atacam os filhotes de seus primos de bico-amarelo. É tal a sua antipatia por vizinhos que seus ninhos são sempre solitários. Já os trinta-réis-de-bico-amarelo são mais sociáveis e fazem ninhos tão próximos uns dos outros que formam verdadeiras creches.

Uma das preocupações com a preservação da Reserva do Arvoredo está diretamente ligada a essas aves. Pouco se sabe do seu destino ou de onde elas vêm. Por isso, acompanhar seu comportamento e artilhá-las, como tem sido feito recentemente por biólogos, permitirá entender estas complicadas viagens e seus objetivos. Além disso, acredita-se que elas riscam de seus roteiros os locais que não se mostrem muito seguros para a nidificação. O roubo dos ovos pelos pescadores contribuiria para que as aves deixassem de vez a região. Local de encontro de duas correntes marinhas, pesquisas preliminares apontaram a existência ali de 35 espécies de peixes além de golfinhos, leões-marinhos e tartarugas marinhas.

A razão da variedade é simples: a Corrente das Malvinas, fria, proveniente do Pólo Sul, carrega seus peixes e encontra ali, próximo à Reserva do Arvoredo, a Corrente do Brasil, quente, vinda da África, esta com seus animais marinhos amantes de águas mornas. A convergência destas duas correntes oceânicas torna a população de peixes rica e variada. Mais um motivo para impedir a pesca predatória. Tal diversidade é responsável indireta pelo povoamento das águas litorâneas do sul do pais, onde os pescadores, a continuar com a pesca Predatória. se arriscam a encontrar cada vez menos peixes para lotar seus barcos.

A vegetação da Ilha do Arvoredo é um capitulo à parte: são 24 espécies, entre elas quatro variedades de cipós. Esta intensa e exuberante vida vegetal e animal (que inclui gambás e morcegos-pescadores) se torna possível também devido aos veios de água doce que cortam seu território, resultantes de lençóis freáticos alimentados pelas águas da chuva. Apesar de toda essa riqueza estar protegida oficialmente, na prática os riscos ainda são grandes. A fiscalização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis) é precária: “A única lancha disponível está sempre quebrada”, admite Eduardo Benício de Abreu, funcionário do órgão. Alexandre Filipinni, oceanógrafo do Ibama encarregado da Reserva, também acha que a queda-de-braço com os pescadores deve ser longa. “Não será fácil mudar um hábito de décadas”, prevê Filipinni, com base na experiência de que trabalhou cinco anos na implantação da primeira Reserva brasileira do gênero, o Atol das Rocas, no Rio Grande do Norte. Para cobrir a deficiente fiscalização, a Reserva tem seu lado sul liberado, mas só para visitação controlada.

A forma que o Ibama encontrou para suprir a falta de recursos foi autorizar operadores de mergulho a trabalhar no local. “Há seis anos ensinamos aos que mergulham conosco o respeito à Reserva”, conta Júlio César Silva, dono da Sea Divers, uma das empresas que podem operar em Arvoredo. Ali, a visibilidade na água atinge 25 metros e a temperatura no verão é de 22 graus. Com um pouco de sorte, o mergulhador encontra peixes exóticos e fosforescentes, polvos, lagostas, moréias e ouriços. Aliás, os pesquisadores do Projeto Larus descobriram na ilha deserta uma espécie de ouriço-gigante que se pensava existir apenas no Caribe. Já no inverno, quem se aventurar a enfrentar os 17 graus de temperatura da água tem grande chance de deparar com golfinhos, pingüins e até baleias nanicas, vindas do sul da Argentina. Mas não são só os pássaros e os peixes que podem ser estudados na Reserva.

Um sambaqui de 3 metros de altura por 20 de diâmetro, com idade estimada entre 2 000 e 4 000 anos encerrava os restos mortais dos antepassados dos índios carijós. Infelizmente, a construção de um galpão para barcos e com a lavoura de um morador destruiu parte do sambaqui. São cerca de vinte pessoas entre marinheiros e suas famílias, que se ocupam da manutenção do farol que orienta as embarcações. Nos paredões da Ilha do Arvoredo, de diabásio preto, uma espécie de rocha magmática, existem numerosas gravuras rupestres (sulcos gravados na rocha), ou simplesmente “letreiros”, como apelidaram os moradores locais. Esses vestígios são valiosos para o estudo da ocupação do sul do país, que depende da preservação de sítios arqueológicos como estes. Pensando nisso e empenhado na defesa da Reserva, o oceanógrafo Filipinni anuncia as prioridades para este ano: montar uma equipe qualificada, instalar bases de apoio na Estação Ecológica de Carijós — próxima à Ilha do Arvoredo — e na praia de Porto Belo (a 66 quilômetros de Florianópolis) — perto da Ilha da Galé — e iniciar uma campanha de conscientização da população. O passo inicial foi dado em fevereiro, quando o Ibama promoveu um campeonato de caça ao lixo: entre as toneladas de resíduos recolhidas no mar pelos participantes, o prêmio de originalidade ficou com a porta de uma geladeira, completamente tomada pela vida marinha.