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Santuário africano

Você está olhando para o que muita gente considera a oitava maravilha do mundo: a cratera de Ngorongoro, na Tanzânia, Africa.

Texto de João Paulo Barbosa – Fotos de Bento Viana

Simplesmente, a maior cratera extinta de vulcão do mundo. Assim é Ngorongoro, esta vasta planície que você vê aí em cima. São 260 quilômetros quadrados entre paredes de 600 metros de altura. Lá dentro, há 20 000 mamíferos, entre os quais 120 leões, oitenta elefantes, 3 500 búfalos e 120 hipopótamos. Também há gnus, gazelas, antílopes e zebras. Durante as chuvas, mais animais de fora migram para lá, onde sempre há alimentação abundante.

Foi muito chique, durante anos, caçar em Ngorongoro. O presidente dos Estados Unidos Theodor Roosevelt esteve lá, em 1910, colecionando troféus. O rinoceronte negro, cujo chifre teria propriedades afrodisíacas, foi dizimado: hoje só existem vinte.

Mas o governo da Tanzânia acabou com a matança. Agora, só a tribo dos masais pode usar o parque. Eles moram do lado de fora, mas levam o gado para lamber o sal da beira dos lagos. São os únicos humanos com permissão para andar por ali. Turistas só entram acompanhados por guias autorizados e não podem descer dos jipes.

Da destruição nasce a exuberância

Ngorongoro era uma fonte de morte: um vulcão ativo tão alto quanto o Kilimanjaro, a maior montanha da África (5 895 metros de altura), que fica a 150 quilômetros dali. Há 2,5 milhões de anos, quando o intenso vulcanismo da região arrefeceu, o enorme cone entrou em colapso e caiu para dentro, formando a cratera.

Atualmente, só no norte da Tanzânia existem vinte vulcões – alguns extintos, outros apenas dormentes e uns poucos ativos. Mas há centenas de crateras ao longo das fissuras do Rift Valley – a fenda geológica que vai do Mar Vermelho a Moçambique, com 5 600 quilômetros de comprimento, até 30 quilômetros de largura e 1 quilômetro de profundidade. Se ela se partir, daqui a alguns milhões de anos, uma parte da África Oriental poderá ser desmembrada, virando um continente-ilha maior do que Madagascar (veja infográfico).

A fenda Rift Valley é o grande berço da diversidade natural de Ngorongoro. Há savanas com gramíneas, ideais para carnívoros e herbívoros, e florestas na borda dos vulcões, habitadas por pássaros e macacos, além de centenas de lagos, cheios de flamingos. Um espetáculo incomparável.

Quem come quem (ou o quê) nesse paraíso

O sol é tão forte em Ngorongoro que, no auge da seca, em agosto, quase tudo que está embaixo do céu fica amarelo (os pastos) ou cinza (as árvores). Os rios quase somem e os animais se aglomeram onde houver água. O lago Magadi vira um mar cor-de-rosa de flamingos. Até o calor é benéfico. Junto com a alcalinidade da água, as algas e os crustáceos, ele favorece a reprodução das aves.

Herbívoros de planície, como gnus e zebras, também aproveitam as bordas do lago para complementar a dieta com sal. Comedores de folhas, gramíneas e cascas de árvores, como antílopes e avestruzes, não precisam brigar entre si pois o que é do antílope a avestruz não bica. Cada um tem sua parte da planta e todos se entendem.

Os hábitos alimentares dos animais se entrelaçam numa teia complexa. O hipopótamo, que come plantas, carrega nas costas algas que são o manjar dos peixes. Estes são comidos por aves e elas caem na boca dos crocodilos, cujas fezes espalham as sementes das plantas que os hipopótamos apreciam.

Eles são reis da cratera

A cultura dos masais é tão rica quanto rara. Tão logo chegam à maturidade, têm relações sexuais indiscriminadas. Infelizmente, quase todos têm sífilis. As doenças venéreas prejudicam o crescimento populacional. Por isso, o governo encoraja casamentos com outras tribos.

Os masais migraram da Etiópia para o Quênia e a Tanzânia, onde hoje são 200 000. Há 150 anos, expulsaram a tribo dos datogas e ocuparam Ngorongoro. Houve conflitos com as autoridades até 1959, quando a criação da Área de Conservação Ambiental de Ngorongoro deu-lhes o direito de andar pela cratera.

Cada família masai tem umas 150 cabeças de gado e cabras. Diariamente, fazem uma incisão na jugular de uma rês, retiram o sangue, misturam com leite e bebem numa cabaça (dias depois, o mesmo bicho será novamente sangrado). Quase não comem carne. No passado, domesticavam zebras e caçavam leões com lanças de ponta de metal. Faziam cocares com a juba. Para os vizinhos, os masais são muito arrogantes e, de fato, nas cidades, nunca se vê um masai em atitude submissa. São os reis de Ngorongoro. E sabem disso.

Como nasce um continente

As placas tectônicas estão se afastando 7 milímetros por ano.

Há 15 milhões de anos, o calor subterrâneo provocou a ruptura da crosta terrestre e ergueu uma cordilheira de vulcões no Rift Valley. Há 2,5 milhões de anos, as lavas espraiaram os cones e criaram crateras e lagos, surgindo o cenário de hoje, de vulcões ativos, inativos e lagos. Daqui a 15 milhões de anos, se as placas tectônicas se separarem, a fenda pode dividir a Africa.

1 – Há 15 milhões de ano, havia uma cordilheira de vulcões

2 – Hoje, há vulcões, crateras e lagos na fenda do Rift Valley

3 – Daqui a 15 milhões de anos, a fenda pode partir e dividir a Africa.

O baobá furado

Como o clima é seco, há poucas árvores na savana. A mais imponente é o baobá, capaz de armazenar água e nutrientes nos troncos e galhos por bastante tempo. Muitos ostentam grandes buracos. Não, os baobás não nascem furados. Os buracos são obras dos elefantes. Eles escavam o tronco macio com as presas em algumas horas. Depois, enfiam a tromba ali dentro e sugam o líquido. Em seguida, outros bichos pegam carona nas sobras. A árvore chega a ter 13 metros de altura e um tronco de 12 metros de diâmetro. São 35 metros de circunferência! O baobá faz parte do restrito grupo de árvores milenares. Alguns exemplares têm 2 500 anos. Sua madeira esponjosa é aproveitada para a fabricação de fibras, tecidos e cordas. A fruta serve como alimento para homens e macacos. Além de ser a base de um refrigerante muito apreciado pelos masais.

Cena de trânsito

Geralmente, perto de uma manada de elefantes em movimento há um bando de gnus andando na mesma direção. Não é coincidência, é oportunismo. Os elefantes são os guardiões da savana, pois defendem os colegas menores, como gnus, impalas e gazelas, dos ataques dos felinos. No caso dos gnus, o risco é maior pois eles não sabem se defender e são menos rápidos do que parece. São bons apenas como comida dos outros. Os elefantes impõem respeito pelo tamanho e protegem quem estiver perto deles.

Falta de moradia

Como há poucas árvores na savana, elas são muito disputadas pelos pássaros e abrigam ninhos de várias espécies. Alguns são construídos em galhos finos para proteger os filhotes dos predadores como babuínos e leopardos, pesados demais para subirem neles.

Sai pra lá !

Nenhum masai aceita ser fotografado sem pagamento. Os mais velhos, como a índia destas fotos, se irritam com a invasão de privacidade pelos turistas. Para eles, a câmera rouba a alma e atormenta o espírito do fotografado. E eles sabem que as fotos dão dinheiro aos brancos. Por isso partem para a agressão se for preciso. É bom não insistir.