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Vulcões: Os senhores da morte

Thereza Venturoli

Está praticamente provado: a maior extinção em massa de espécies na Terra, ocorrida há 250 milhões de anos, foi mesmo causada pelos vulcões da região da Sibéria. A descoberta reforça a idéia de que os vulcões foram os principais responsáveis por, pelo menos, três enormes desastres ecológicos. Entre esses, aquele que causou o desaparecimento dos dinossauros. A tese mais aceita, agora, é a de que os dinossauros sumiram em conseqüência da associação entre a queda de um meteoro e uma sucessão devastadora de erupções vulcânicas.

10 000 bombas atômicas de uma só vez

Segunda-feira, 27 de agosto de 1883, 10h02 da manhã. O vulcão da ilha de Krakatoa (ou Krakatau), no estreito de Sunda, entre as ilhas de Java e Sumatra, Sudeste Asiático, explode com a violência de uma bomba atômica de 150 megatons (150 milhões de toneladas de dinamite). Foi como lançar, de uma única vez, 10 000 bombas iguais à jogada sobre Hiroshima no final da Segunda Guerra Mundial. A erupção arremessa uma coluna de rocha incandescente a até 5 quilômetros de altura, carregando de roldão terra, plantas e animais. Surge uma cratera monstruosa, de 7 quilômetros de diâmetro e 270 metros de profundidade, que corta a ilha de um lado a outro e é logo invadida pelo mar.

Quando cai de novo sobre a água, a avalanche vinda do céu cria ondas gigantescas, chamadas tsunamis, de 40 metros de altura. Saldo da catástrofe: 36 000 mortos pelo maremoto nas ilhas vizinhas, e aniquilamento de Krakatoa. A única coisa que restou foi a montanha de Rakata, ao sul da ilha – uma terra esterilizada, coberta por cinzas, a uma temperatura de mais de 350 graus Celsius. O cenário é de devastação total.

70% das espécies sumiram

Ao longo de 4,5 bilhões de anos, o planeta foi sacudido por convulsões bem mais intensas do que a de Krakatoa, com conseqüências muito mais trágicas. Mais trágicas até que a extinção em massa mais famosa, a dos dinossauros, ocorrida há 65 milhões de anos. Antes atribuída à queda de um meteoro (veja a seção Universo na SUPER número 1, ano 9), ela é hoje creditada também a ação vulcânica (veja a seção Supernotícias na SUPER número 3, ano 9). Recentemente, uma equipe de geólogos da Universidade da Califórnia obteve evidências de que a maior matança pré-histórica foi provocada por um inferno de lava e gases. Foi há 250 milhões de anos, quando cerca de 70% das espécies animais desapareceram (veja o infográfico ao lado). Os cientistas americanos mediram com precisão a idade das camadas de basalto (rochas vulcânicas), numa região ao norte da Sibéria. Verificaram que os 2 milhões de quilômetros cúbicos de lava endurecida foram expulsos das profundezas da Terra, em violentas erupções sucessivas, ao longo de 1 milhão de anos, há exatos 250 milhões de anos.

Simples coincidência? Não para Paul Renne, diretor do Centro de Geocronologia de Berkeley e líder da equipe. “Os especialistas dizem há anos que tal derrame de lava corresponde a um lançamento de gases tóxicos, cinzas e poeira na atmosfera, suficiente para alterar o clima na Terra”, escreveu Renne à SUPER, pela Internet.

Pelo menos parte da culpa

Faz sentido: entre outros efeitos pirotécnicos, os vulcões lançam uma grossa fumaça, que forma uma cortina, abafando o planeta e impedindo que ele transpire. Quer dizer, a radiação recebida do Sol fica presa aqui. É o efeito estufa, que altera o clima e mexe com a sobrevivência de animais e plantas. O trabalho reforça a hipótese de que os vulcões tenham sido também os vilões em pelo menos outras duas grandes crises da Terra, em que mais de 40% das espécies sumiram.

Nem todos os paleontólogos aceitam a idéia da lava assassina. “Há outros fatores, como a movimentação dos continentes, os períodos de glaciação e a queda do nível dos mares”, comenta Reinaldo Bertini, paleontólogo da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Rio Claro. De qualquer maneira, Bertini admite que as montanhas de fogo podem ter uma parte da culpa. Até porque a maioria dos vulcões têm relação com a deriva de continentes. O choque violento entre as placas tectônicas – aquelas que formam a crosta terrestre – derrete as rochas. Essa massa incandescente força a saída para a superfície, escapando na forma de rios de lava (veja As janelas da Terra, SUPER, número 2, ano 3).

Depois da tormenta, o renascimento

Os vulcões são senhores da morte, sim. Mas são também, de alguma maneira, senhores da vida. Voltemos aos restos da ilha de Krakatoa. Um ano depois da catástrofe de 1883, a flora e a fauna começam a retornar lentamente à montanha Rakata. Primeiro vêm as plantas rasteiras, cujas sementes foram carregadas das ilhas vizinhas, pelos ventos. Quinze anos mais tarde, existem já quase trezentas espécies de gramíneas. Depois é a vez de árvores maiores. A vegetação atrai caracóis, aranhas, escorpiões, formigas e besouros.

Pouco mais de um século depois do desastre, a antes estéril montanha está coberta por uma fechada floresta tropical, povoada por aves, répteis, borboletas e ratos selvagens. Krakatoa é de novo uma típica ilhota do Sudeste Asiático. O vulcão funcionou como um verdadeiro maná, fertilizando o solo no qual antes despejara sua ira. É que, depois de lançar jatos de gases venenosos e lava incandescente, essas “bocas-do-inferno” se acalmam e deixam o terreno pronto para o ressurgimento de animais e plantas. O material que jorra do interior da Terra vem carregado de substâncias nutritivas, que adubam o solo. “Não é à toa que o solo da região sul de São Paulo e norte do Paraná está entre os mais férteis do país”, comenta o geólogo Antonio Carlos Rocha Campos, da Universidade de São Paulo. A chamada terra roxa é formada por basalto pulverizado.

Alimento onde havia veneno

Enfim, a aridez acaba dando lugar à exuberância. Nem que seja debaixo d’água. Pesquisadores americanos encontraram, no fundo do Oceano Pacífico, entre 1991 e 1993, uma estranha colônia de animais num dos mais inóspitos habitats conhecidos (veja as fotos). A geóloga marinha Rachel Haymon, da Universidade da Califórnia, e o ecologista Richard Lutz, da Universidade Rutgers, em Nova Jersey, Estados Unidos, usaram o submarino Alvin para estudar as atividades de um vulcão submerso, a mais de 2,5 quilômetros de profundidade.

No início, depois da erupção, o cenário estava coberto por lava e cinzas. Apenas bactérias conseguiam sobreviver no ambiente árido. Mas, dois anos e meio depois, eles encontraram estranhas criaturas sobrevivendo à beira de uma das bocas do vulcão. As minhocas sugavam nutrientes e energia da corrente de gases vulcânicos. “A Terra é assim mesmo: depois dos grandes acidentes naturais, os ecossistemas voltam a nascer”, conclui Bertini.

As seis grandes extinções

As lavas causaram os três últimos desastres. Outros três, anteriores, têm explicações diferentes

Maré baixa

Há 550 milhões de anos, a primeira extinção em massa castigou 45% das espécies. Um dos grupos atingidos foi o dos arqueociatos – um tipo de esponja que vivia em colônias no fundo dos mares (veja a ilustração abaixo). Para os paleontólogos, o principal motivo da chacina foi a queda no nível dos mares, que reduziu a área de águas mais rasas, habitadas pela maior parte dos animais.

Frio letal

Há 450 milhões de anos, no final do período Ordoviciano, um novo desastre ecológico eliminou 55% das espécies. Nenhum grupo específico foi atingido. A matança foi geral, incluindo várias famílias de animais. Os vilões mais prováveis são a queda do nível dos mares e o brutal resfriamento da Terra (glaciacão), que forçaram os animais a se comprimirem numa estreita faixa ao longo do equador. Só os mais capacitados conseguiram sobreviver à violenta competição por alimentos.

Terra em transe

Entre os períodos Devoniano e Carbonífero, há 360 milhões de anos, entre as vítimas estavam os peixes Agnatha (sem mandíbulas) e os placodermos, peixes primitivos, com uma couraça de proteção na parte anterior do corpo (veja a ilustração acima). Ao todo, a catástrofe eliminou perto de 45% de espécies. O motivo mais aceito é o movimento dos continentes.

Rios de fogo

A maior matança aconteceu entre os períodos Permiano e Triássico, há 250 milhões de anos. Morreram 70% das espécies, a maioria vivendo nas águas rasas do mar, como os trilobitas e alguns grupos de antozoários. Ou os briozoários – animais de esqueleto calcário, que viviam em colônias (veja a ilustração abaixo). As últimas pesquisas mostram que erupções de um milhão de anos, na Sibéria, podem ter causado isso.

Pedras quentes

Há 200 milhões de anos, na passagem do Triássico para o Jurássico, outro acidente monumental extinguiu 45% das espécies. Entre os grupos mais castigados estavam os peixes crossopterígeos, ancestrais do celacanto (veja a ilustração acima). As rochas fósseis mostram indícios de atividade vulcânica.

Gases superaquecidos

Há 65 milhões de anos, entre o Cretáceo e o Terciário, desapareceram mais de 40% das espécies. Entre as vítimas mais conhecidas estão os dinossauros. O euoplocéfalo – um herbívoro de mais de 6 metros de comprimento – era um deles (veja a ilustração acima). A hipótese mais discutida hoje é que o choque de um meteoro teria causado o desastre. Mas, nessa época, acontecia também uma imensa erupção na região de Dekan, na Índia. A própria colisão do meteoro pode ter provocado sucessivas erupções em vários pontos do planeta.