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É possível mudar o curso do rio São Francisco para acabar com a seca?

Por Redação Mundo Estranho - Atualizado em 4 jul 2018, 20h09 - Publicado em 18 abr 2011, 18h51

Dá, sim, para desviar rumo ao sertão o curso do mais importante rio do Nordeste. Agora, nem todo mundo concorda que isso resolveria o problema da seca. Até agora, o que existe de concreto é um projeto, apresentado em 1996, que prevê a construção de mais de 600 quilômetros de canais, túneis, aquedutos e adutoras para levar a água do São Francisco às regiões semi-áridas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Com um custo estimado em 3 bilhões de reais em 1999, essa megaobra deve tomar cerca de 65 metros cúbicos de água por segundo do rio, menos de 3% de sua vazão. “É uma retirada irrelevante”, afirma o engenheiro João Paulo de Aguiar, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), órgão responsável pela geração de energia no Nordeste. A expectativa é que será possível matar a sede de cerca de 6 milhões de sertanejos. Mas a maioria dos especialistas não é tão otimista. “Hoje, famílias que moram a 10 quilômetros das margens do São Francisco já sofrem nas estiagens.

Isso vai continuar acontecendo na área dos rios perenizados pela transposição”, diz João Paulo. Para os críticos, a solução está em aproveitar melhor a água que já existe na região. “Represas e açudes do sertão já possuem 30 milhões de metros cúbicos de água. É o maior volume em regiões semi-áridas no mundo todo. Em outras áreas, dá para construir milhões de cisternas rurais, reservatórios de água que conseguem suprir as necessidades de uma família de cinco pessoas durante a estiagem”, diz o engenheiro João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, entidade que estuda problemas sociais das regiões Norte e Nordeste. O futuro do projeto é uma incógnita. No ano passado, o presidente Lula disse que terminaria a transposição nem que fosse “com uma lata d’água na cabeça”. Um grupo de trabalho preparou um pacote de obras contemplando também o sertão da Bahia, Sergipe e Alagoas. Os resultados, porém, ainda não são conhecidos.

Durante um mês, a reportagem de Mundo Estranho tentou ouvir o Ministério da Integração Nacional e o gabinete da Vice-Presidência, órgãos encarregados do assunto. Mas, para evitar problemas políticos, ninguém no governo gosta de falar sobre o assunto.

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Na internet:

http://www.chesf.gov.br

http://www.rio.saofrancisco.nom.br

O sertão vai virar mar?
Transposição prevê 600 quilômetros de obras, mas sua eficácia divide os especialistas

Dá, sim, para desviar rumo ao sertão o curso do mais importante rio do Nordeste. Agora, nem todo mundo concorda que isso resolveria o problema da seca. Até agora, o que existe de concreto é um projeto, apresentado em 1996, que prevê a construção de mais de 600 quilômetros de canais, túneis, aquedutos e adutoras para levar a água do São Francisco às regiões semi-áridas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Com um custo estimado em 3 bilhões de reais em 1999, essa megaobra deve tomar cerca de 65 metros cúbicos de água por segundo do rio, menos de 3% de sua vazão. “É uma retirada irrelevante”, afirma o engenheiro João Paulo de Aguiar, da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), órgão responsável pela geração de energia no Nordeste. A expectativa é que será possível matar a sede de cerca de 6 milhões de sertanejos. Mas a maioria dos especialistas não é tão otimista. “Hoje, famílias que moram a 10 quilômetros das margens do São Francisco já sofrem nas estiagens.

Isso vai continuar acontecendo na área dos rios perenizados pela transposição”, diz João Paulo. Para os críticos, a solução está em aproveitar melhor a água que já existe na região. “Represas e açudes do sertão já possuem 30 milhões de metros cúbicos de água. É o maior volume em regiões semi-áridas no mundo todo. Em outras áreas, dá para construir milhões de cisternas rurais, reservatórios de água que conseguem suprir as necessidades de uma família de cinco pessoas durante a estiagem”, diz o engenheiro João Suassuna, da Fundação Joaquim Nabuco, entidade que estuda problemas sociais das regiões Norte e Nordeste. O futuro do projeto é uma incógnita. No ano passado, o presidente Lula disse que terminaria a transposição nem que fosse “com uma lata d’água na cabeça”. Um grupo de trabalho preparou um pacote de obras contemplando também o sertão da Bahia, Sergipe e Alagoas. Os resultados, porém, ainda não são conhecidos.

Durante um mês, a reportagem de Mundo Estranho tentou ouvir o Ministério da Integração Nacional e o gabinete da Vice-Presidência, órgãos encarregados do assunto. Mas, para evitar problemas políticos, ninguém no governo gosta de falar sobre o assunto.

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Novos caminhos

O plano de transposição prevê o prolongamento do rio por duas rotas: o eixo norte, que parte de Cabrobó (PE) e leva água para as bacias dos rios Salgado, Jaguaribe e Piranhas-Açu (em PE, PB, CE e RN), e o eixo leste, que sai do lago de Itaparica, corta o agreste pernambucano e chega aos rios Moxotó e Paraíba (PB). A conta total inclui 591 km de canais, 37 km de túneis, 5 km de aquedutos e 4 km de adutoras

Agonia acelerada
Desvio de curso pode piorar problemas do rio

LIMITE ENERGÉTICO

As sete hidrelétricas hoje instaladas ao longo do rio são responsáveis pela geração de 95% da energia consumida no Nordeste. Especialistas alertam que a capacidade energética do rio não pode mais ser ampliada e que o desvio de rota agravará o quadro. Mas a Chesf, empresa que gera energia no Nordeste, diz que a transposição utilizará apenas 3% da vazão do rio, quantidade pequena para afetar o funcionamento das usinas

IRRIGAÇÃO INSUFICIENTE

De uma vazão total de 2 800 m3 de água por segundo, cerca de 0,5 m3 já é utilizado para irrigar as culturas que margeiam o rio, o que dá para 3 400 km2 de plantações. Os cálculos, porém, dão conta de que será possível irrigar perto de 30 mil km2. A preocupação é que a retirada de água possa prejudicar os planos de ampliação da área irrigada nas proximidades do leito atual

AMBIENTE EM PERIGO

Ambientalistas insistem que antes de pensar na transposição, é preciso revitalizar o rio. Isso faz sentido: ao longo de seus 2 700 km de extensão, o São Francisco recebe esgotos de 14 milhões de pessoas em mais de 500 municípios e teve destruídos 95% de suas matas ciliares, as árvores que margeiam e protegem o rio. Como resultado, o assoreamento (obstrução por sedimentos) hoje compromete vários trechos dos 1 100 km navegáveis de seu leito

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