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Quais foram as maiores descobertas científicas brasileiras?

A descoberta da Doença de Chagas, do méson pi, da bradicinina. Selecionamos oito momentos importantes da nossa ciência.

Por Leandro Saioneti
Atualizado em 22 fev 2024, 10h11 - Publicado em 27 set 2017, 15h30

Ilustra Felipe Cachopa
Edição Felipe van Deursen

Foram muitas, em várias áreas, e todas ajudaram no progresso da ciência e beneficiaram de forma direta milhões de pessoas. Essas descobertas coincidem com uma efervescência científica nacional na primeira metade do século 20, que influenciou na formação de cientistas e na fundação de instituições como a Academia Brasileira de Ciências (1916), a Universidade de São Paulo (1934) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (1961).

Infelizmente, a ditadura militar (1964-1985) prejudicou a produção de conhecimento, com estudiosos perseguidos, presos ou exilados – segundo o último levantamento do portal Ciência na Ditadura, pelo menos 483 cientistas sofreram algum tipo de censura. Com o fim do regime, nossa ciência voltou a evoluir (ainda que a passos lentos). Os destaques mais recentes foram a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 1985, e as pesquisas nos campos da neurociência (a interface cérebro-máquina de Miguel Nicolelis) e da astrofísica (observação de eventos espaciais até então inéditos). Confira nossa galeria de notáveis.

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  Vital Brazil, médico imunologista, 1898 – Especificidade do soro antiofídico

O soro antiofídico foi criado em 1894 pelo francês Albert Calmett para tratar picadas de cobras venenosas. Acreditava-se que ele atuava de forma universal a partir do veneno de uma única espécie, a naja. Vital Brazil acreditava que cada tipo de veneno de cobra deveria ser tratado de forma específica. Para isso, produziu antídotos distintos para a mordida de cascavel e jararaca. Além disso, ele inventou o soro polivalente (que é eficaz para um grupo de cobras, e não para somente uma)

 

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  Carlos Chagas, médico sanitarista, 1909 – Doença de Chagas

Nunca antes na história da medicina o ciclo completo de uma doença havia sido identificado. Chagas traçou todo o caminho: vetor (besouro barbeiro), agente causador (protozoário Trypanosoma cruzi), reservatório doméstico (gato), características e complicações e meios de combate. A descoberta veio enquanto ele combatia a malária em Minas Gerais. Chagas foi reconhecido internacionalmente, batizou a doença e virou um importante nome no combate a moléstias tropicais

 

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  Mário Schenberg (e George Gamow, EUA), astrofísicos, 1940 – Processo Urca

O processo descreve a explosão de uma supernova, em que a presença de partículas chamadas neutrinos acarreta no desaparecimento de energia no núcleo da estrela, provocando seu colapso e a consequente explosão. O nome “Urca” é uma referência ao extinto cassino da Urca, no Rio de Janeiro, sobre o qual Schenberg dizia que “a energia das supernovas desaparece tão rápido quanto o dinheiro dos apostadores aqui presentes”

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(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  César Lattes (e Cecil Frank Powell, Reino Unido, e Giuseppe Occhialini, Itália), físicos, 1947 – Partícula méson pi

Partícula presente no núcleo dos átomos, o méson pi foi fundamental para entender as forças atuantes nessa região atômica e sua estabilidade, originando um novo campo de estudo (o de partículas elementares). A descoberta rendeu o Nobel de Física em 1950, mas só Powell foi agraciado

 

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  Maurício Rocha e Silva, farmacologista, 1949 – Bradicinina

Importante no controle da hipertensão, a bradicinina é um vasodilatador presente no sangue. Rocha e Silva a descobriu com a ajuda de Wilson Beraldo e Gastão Rosenfeld enquanto analisava a ação do veneno de jararaca em um cão. Desde os anos 70, muitos remédios para a doença têm bradicinina na fórmula

 

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  Johanna Döbereiner, agrônoma, década de 1950 – Bactérias fixadoras de nitrogênio

Döbereiner identificou tipos específicos das bactérias que ajudam na nutrição das plantas por meio da fixação de nitrogênio nas raízes. Isso ajudou a diminuir o impacto ambiental e a baratear a produção nacional de soja (hoje, o Brasil é um dos maiores exportadores). Döbereiner é a cientista brasileira mais citada lá fora

 

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  • Crodowaldo Pavan, geneticista, 1957 – Amplificação gênica

A descoberta derrubou a ideia de que as células possuem a mesma quantidade de material genético. O feito ocorreu quando Pavan encontrou a mosca Rhynchosciara angelae no litoral paulista. Ele identificou a duplicação de genes presentes nos cromossomos, sem a ocorrência de divisão celular. Foi um grande avanço nos estudos sobre DNA

 

(Felipe Cachopa/Mundo Estranho)
  •  Marcos dos Mares Guia, bioquímico, 1990 – Insulina humana recombinante

Inicialmente extraída do pâncreas de bois e porcos, a insulina destinada a diabéticos podia causar reações alérgicas. Mares Guia descobriu um método em que a bactéria E. coli, presente no nosso corpo, recebe o gene da produção de insulina humana e passa a fabricá-la naturalmente. Resolveu o problema da alergia e barateou a produção

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O tabu do Nobel
Por que nunca ganhamos um?

Em mais de cem anos de história, poucos foram os brasileiros que “quase” levaram o principal prêmio das ciências do mundo. Dos citados aqui, Chagas, Rocha e Silva, Schenberg e Lattes foram os que mais se aproximaram do feito. Como o processo de escolha dos vencedores é secreto, é difícil entender por que esse ou aquele não ganhou. O fato de Lattes não ter levado é que, na época, só o chefe do grupo era premiado – no caso, o britânico Powell.

Para a bioquímica Debora Foguel, membro da Academia Brasileira de Ciências, o Brasil ainda não tem Nobel por três motivos: nossa ciência é muito jovem, se comparada à de outros países, grande parte dos pesquisadores não recebe recursos suficientes e de forma constante, o que é essencial para o trabalho, e o número de cientistas brasileiros ainda é muito pequeno. Uma pena.

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