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A volta de Palpatine resume tudo que está errado no novo Star Wars

O Imperador está de volta no Episódio 9. Mas não só ele: o filme resgata – e exagera – muitos elementos-chave da trilogia original (cuidado, spoilers).

A risada de bruxa velha já estava no trailer, então não é spoiler: o Imperador Palpatine está de volta no Episódio 9 de Star Wars. 

(Daqui para frente, porém, este texto é só spoilers. De fato, ele sequer faz sentido para quem não viu o filme. Fuja o mais rápido que puder, caro desavisado.)

Não é só Palpatine. A verdade é que todo mundo está de volta no filme novo. Até quem morre no próprio filme. Os roteiristas são incapazes de matar alguém de vez. 

Em algumas situações, o momento Chico Xavier se dá por meio de artifícios que já fazem parte do imaginário da saga – como os espíritos azulados dos Jedi. Às vezes, a volta dos que não foram utiliza um recurso inédito: há ferimentos letais que cicatrizam milagrosamente, estilo Jesus ou Harry Potter. Por fim, algumas soluções são simplesmente toscas: uma nave explodiu com um personagem dentro? Calma: não era aquela nave. Era só uma outra nave, exatamente igual

Mesmo objetos se negam a partir desta para melhor. O pequeno artefato piramidal Sith, capaz de guiar os Rebeldes ao planeta perdido de Exegol, é destruído por Kylo Ren. Algum problema? Não, afinal, há outro idêntico. O roteiro é uma criança mimada: não aceita ficar sem nada. Faz birra quando algo some; imediatamente o tal algo volta em um passe de mágica. As coisas dão certo com tanta frequência – e o filme corre em um ritmo tão alucinante – que o espectador fica anestesiado. 

Vamos dar nome aos bois e mencionar algumas situações:

Rey, incapaz de lidar com seus poderes, solta relâmpagos da Força com as mãos (estilo Palpatine) e destrói o cargueiro da Primeira Ordem que está levando Chewbacca algemado. Parece uma idéia ótima: a aprendiz de Jedi deixa o ódio fluir sem querer e acaba machucando quem ama. É a mesma lição que Anakin não aprendeu na Vingança dos Sith. Só tem um problema: de última hora descobrimos que aquela era a nave errada, e que o Wookie está vivo. Assim fica difícil botar a mão na consciência. 

Depois, Rey e Kylo duelam nos destroços da segunda Estrela da Morte, na lua de Endor. Como o páreo fica duro, Leia, que está a beira da morte, deitada em outro planeta, interfere usando a Força. Faz um interurbano por telepatia para o filho, em resumo. Kylo fica em choque, dá brecha e entrega a luta para Rey. Foi o primeiro duelo da saga resolvido com um deus ex machina

Achou ruim? Calma que piora. Depois que Rey enfia o sabre no oponente distraído, ela se arrepende e fecha o ferimento do vilão com as mãos para trazê-lo de volta à vida. Sim, mais ou menos que nem Melisandre faz com Jon Snow em Game of Thrones. Mas é tão rápido que ele nem chega a morrer.

O momento esotérico tem uma cereja no bolo: depois que Rey vai embora, Han Solo aparece. Não na forma de espírito, mas em carne e osso, embora esteja morto há dois filmes. Ele conversa com o filho recém-renascido e o convence de que o lado do bem é a escolha certa. Fica claro que é uma alucinação. Mas também fica claro que não dá muito certo. 

Não consigo imaginar o quanto foi difícil para os produtores convencerem Harrison Ford a fazer uma pontinha na Ascensão Skywalker. Em uma entrevista muito citada ao New York Times, ele não parecia simpático à trilogia nova: “Eu estava em O Despertar da Força para morrer. Eu não podia dar menos bola para quem ficaria no meu lugar.” Bem, morreu mesmo. Só que não, afinal, isso aqui é Star Wars

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Até os droides voltam do céu ciborgue. Em certa altura da história, a memória de C-3PO precisa ser apagada para que ele possa traduzir uma mensagem Sith escrita em runas (droides protocolares, feitos para lidar com situações diplomáticas, são programados para não mexer com o lado negro da força).

Você acha que é o fim do personagem de Anthony Daniels – e, de fato, ele passa mais ou menos uma hora de filme sem a menor ideia do que está acontecendo. Depois, porém, R2-D2 magicamente insere um backup no amigo, e o douradinho volta ao normal. 

As naves também renascem. No Episódio 8, a X-wing T-65 vermelha (código Red 5) que Luke Skywalker pilota na trilogia clássica é vista embaixo d’água na ilha paradisíaca do planeta Ahch-To, onde o mestre Jedi se exilou voluntariamente após seu plano de reerguer a Ordem dar errado. Até aí, legal. No Episódio 9, o negócio vai além: o espírito azul de Luke puxa a X-Wing para fora da água. Detalhe: o caça está funcionando normalmente. Rey pega o possante e corre com ele para o outro lado da galáxia, sem nem trocar o óleo. 

Falando em idosos mortos tirando naves que não existem mais da água, Palpatine faz a mesma coisa logo na abertura do filme – só que em escala industrial. Ele extrai centenas de star destroyers do gelo, todos com a aparência das naves imperiais antigas, da trilogia original. Cada uma está equipada, porém, com um canhão capaz de destruir um planeta. Sim: em vez de uma Estrela da Morte gigante, este filme tem um enxame de estrelas da morte pequenininhas, instaladas nos monstrões triangulares que já conhecíamos. Saudades, novidades. 

Quem assistiu ao Retorno de Jedi sabe que é difícil alguém estar mais morto que o Imperador. O sujeito na casa dos 80 anos foi arremessado em um poço de manutenção com alguns milhares de metros de profundidade na segunda Estrela da Morte. Depois, os rebeldes vão lá e explodem a estação espacial inteira com o corpo do vovô dentro.

Assim, era bom J. J. Abrams arranjar uma desculpa muito boa para ressuscitar o vilão. Não arranjou: ninguém explica qual magia negra lhe permite voltar à vida. Ele reaparece para substituir Snoke no papel de vilão por causa de um erro de roteiro no filme anterior – e não porque faz algum sentido. 

É evidente que o contato com os mortos é um elemento importante das trilogias de George Lucas, mas ele foi usado com tanto exagero na Ascensão Skywalker que fez o filme parecer uma paródia – quase um episódio de Porta dos Fundos – da trilogia original. Até o clássico letreiro de abertura amarelo admite: “Os mortos falam! A galáxia ouviu uma misteriosa transmissão, uma ameaça de vingança na voz sinistra do falecido Imperador Palpatine.”

Esse erro se repete em muitos outros elementos-chave do filme. Na batalha final, Palpatine usa as mãos para imobilizar toda a frota improvisada da Resistência de uma tacada só. Tudo bem, o cara é poderoso. Mas, ao resolver a batalha sozinho, ele de alguma maneira está dobrando as regras do xadrez de Star Wars. O filme fica com gostinho de fanfic. Vira uma espécie de remake do último episódio da trilogia clássica, que replica seus acontecimentos com uma roupagem exagerada, mas sem mexer no essencial.

É um exercício de saudosismo: já que criar um novo enredo – como George Lucas fez nos episódios 1, 2 e 3 – seria muito arriscado, a solução é contar exatamente a história que já conhecemos, embalada para presente nos moldes do cinema Marvel que é garantia de bilheteria. Com um problema: Star Wars não é Marvel. É, simplesmente, Star Wars