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A diferença de artigos esportivos

Roupas e acessórios de última geração transformam atletas em top models e as competições em desfiles

Cristiana Felippe

A competição no esporte está tão acirrada que centésimos de segundo separam a glória do fracasso. A diferença pode estar num ínfimo detalhe: um solado especial de sapatilha, um tecido com menos atrito na água ou uma roupa que elimine o suor mais rapidamente. Para os fabricantes de artigos esportivos, os atletas em Sydney serão como top models na passarela. Você verá na sua TV um desfile de equipamentos e materiais desenvolvidos com a mais alta tecnologia e um único objetivo: quebrar recordes.

Maurice Greene, o homem mais rápido do mundo, foi escolhido para o papel de Gisele Bündchen. O marmanjo americano de 1,80 de altura entrará na pista dos 100 metros rasos fantasiado de teletubbie, aquele personagem infantil de identidade sexual indefinida. Uma roupa especial feita com cinco tipos diferentes de microfibras de poliéster cobrirá seu corpo dos pés à cabeça, que será embrulhada num capuz projetado para melhorar a aerodinâmica das orelhas – os fabricantes juram que isso faz diferença até mesmo para quem não tem orelhas de abano. Os pés dos corredores também estarão devidamente turbinados. As novas sapatilhas contêm uma placa de fibra de carbono que impede a flexão exagerada do pé durante a corrida, propiciando um aumento de até 2% no rendimento. A conferir. No solado, as travas têm design em forma de “Z” para manter a tração sem afundar no piso da pista, economizando energia do atleta.

A moda do nada-de-fora também marcará presença nas piscinas. Os nadadores vestirão maiôs que cobrem o corpo inteiro. Um modelito da Speedo chega ao requinte de imitar a pele de tubarão, com arestas em formato de “V” que, supostamente, diminuem o atrito com a água. No ciclismo, a novidade é a comunicação: a equipe brasileira de ciclismo planeja utilizar rádios para que os técnicos passem instruções aos atletas durante as provas. Esse esporte é um tradicional celeiro de bugigangas tecnológicas. As mais recentes foram os capacetes e as bicicletas aerodinâmicas feitos de fibra de carbono e titânio lançados em Atlanta-96.

O futebol também trará novidades. Seis camadas de espuma sintética proporcionam à bola o chamado “efeito sanfona”. Com o impacto dos pés, ela se deforma ligeiramente, voltando em seguida ao normal. Dessa maneira, promete o fabricante, o chute fica 5% mais veloz. Outra invenção é o tecido da camisa da Seleção Brasileira, que absorve o suor pela parte interna e o transporta para lado de fora, onde a evaporação é mais rápida. Em breve, muitos desses artigos estarão disponíveis para os atletas de fim de semana. As fábricas aproveitam o sucesso dos Jogos para faturar com a moda esportiva. “As Olimpíadas servem como um laboratório para a criação de novas tecnologias que serão utilizadas nas mais diferentes áreas no dia-a-dia”, diz Victor Matsudo, coordenador do Centro de Estudos do Laboratório de Atividades Físicas de São Caetano do Sul (Celasfiscs).

Com todo o gás

Não, o rapagão aí na foto não está isolado nessa bolha de plástico por causa de algum supervírus africano. Ao contrário, ele tem saúde até demais. É o triatleta brasileiro Leandro Macedo, de 32 anos. O casulo, uma câmara hipóxica, reproduz as condições de ar rarefeito encontradas em grandes altitudes. O resultado é o aumento da produção de glóbulos vermelhos, melhorando a captação de oxigênio do sangue e fazendo o corpo render mais em provas de longa duração, que exigem resistência. “É uma forma natural de melhorar o meu desempenho”, diz Macedo, que montou a engenhoca no quintal de sua casa, em Brasília, e dorme todas as noites dentro dela.

O peso da “amarelinha”

Ronaldinho Gaúcho é uma das “cobaias” do novo tecido que deixou a camisa da seleção brasileira 60% mais leve: suor evapora mais rápido

Se depender do tecido, a camisa da Seleção Brasileira de futebol não vai pesar para ninguém. A peça, feita de uma malha muito leve, tem aberturas que aumentam a ventilação e facilitam a transpiração. Seu peso é de 160 gramas, 60% a menos que a antiga. A bola também traz novidades: é mais leve, rápida e durável.

Só falta a barbatana

O australiano Grant Hackett (foto), favorito nos 1 500 m livre, cairá na piscina com uma roupa que imita a pele do tubarão. O objetivo é diminuir o atrito com a água para ganhar rapidez.

Verga mas não quebra

Sergei Bubka deu todas as dicas para a produção de uma vara perfeita, muito mais flexível. Ela o alavancou para a glória olímpica

Poucas novidades tecnológicas fizeram tanta diferença no esporte quanto a vara flexível nas provas de salto. O equipamento fez a sua estréia nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. Com a nova vara, o ucraniano Sergei Bubka ganhou a medalha de ouro e bateu o recorde olímpico, atingindo a marca de 5,90 metros. A novidade estava na matéria-prima: a fibra de carbono. Esse material, mais elástico, substituiu as rígidas fibras de alumínio, grafite e vidro e aumentou o poder de catapultar os atletas. Antes de chegar às mãos de Bubka, a vara passou por projetistas franceses, fabricantes americanos de fibras e ainda cozinhou em fornos especiais da Suécia e da Dinamarca. O gafanhoto ucraniano serviu de consultor durante todo o processo de fabricação.