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As voltas que o sono dá

A aparente tranquilidade do sono esconde uma intensa atividade. Interna, dos neurônios, glândulas, pulmões e músculos, e externa, com muitas voltas na cama.

Conta-se que um personagem chamado Sandman – o Homem da Areia, em inglês anda por aí à noite, com um enorme saco de onde tira areia para jogar nos olhos que encontra abertos. Despeja o pó dentro deles até que fiquem turvos. Por fim, as pálpebras pesadas fecham. Parece assim que a areia do Sandman nos leva a um mundo silencioso e tranqüilo, onde o corpo e a mente podem descansar. Mera ilusão. Durante o sono continuamos tão agitados como quando acordados. Um conjunto de medidas das atividades corporais mostra que o sono acontece em ciclos e o cérebro trabalha intensamente para efetuar tarefas possíveis apenas enquanto estamos roncando.

Os ciclos – Durante oito horas o dorminhoco experimentou quatro ciclos de sono, que têm de uma hora e meia a duas horas. Cada ciclo subdivide-se em três estágios. O primeiro, sono ligeiro lento, faz a transição da vigília. O segundo, sono ligeiro profundo, restaura funções do corpo relacionadas com a atividade física: depois de um dia de muita ginástica, por exemplo, sua duração tende a aumentar.

Nas duas fases, a freqüência das ondas cerebrais, medidas pelo eletroencefalograma (EEG), diminui e os músculos relaxam. O corpo se recarrega para o dia seguinte e entra numa oficina de reparos comandada pelo cérebro. Este manda o pâncreas, por exemplo, liberar pequenas quantidades de hormônio do crescimento, que favorece o desenvolvimento dos músculos e osso e ajuda a restaurar tecidos danificados.

O paradoxo – o último estágio, conhecido como sono paradoxal, é completamente diferente. Tem esse nome porque as ondas cerebrais se agitam e o desenho no EEG, por estranho que possa parecer, assemelha-se ao da vigília. Porém, acordar alguém nessa fase é dificílimo. Apresenta ainda uma característica muito especial: os olhos se mexem freneticamente, fenômeno batizado de REM, “movimento rápido dos olhos”, em inglês. Durante o REM, que é maior após um dia de atividade intelectual intensa, provavelmente o cérebro recupera a si próprio e algumas (e suas regiões ficam mais ativas). O REM também inibe a ação das células motoras da medula espinhal, responsáveis pela contração dos músculos. Elas se mostram sem tono e ficamos paralisados. Caso contrário, acordaríamos nas mais estranhas posições ou nos movimentaríamos de acordo com o que estivéssemos sonhando. Gatos que tiveram as células motoras extraídas começam a agir durante o sono como se estivessem brigando ou lambendo pratos imaginários. Com certeza, as conseqüências desses atos oníricos seriam muito mais constrangedoras para os humanos.

Razões – Todos os gatilhos que desencadeiam o sono permanecem nebulosos. Os especialistas acham que deve existir um complô de fatores que nos faz dormir. Por enquanto, eles conseguiram definir ações específicas de cinco substâncias existentes no organismo: a serotonina está ligada ao sono lento; a acetilconina à fase REM; a noradrenalina e a histamina fazem despertar, e a dopamina atua em todos os períodos. Também existem regiões do sistema nervoso, algumas das mais arcaicas do ponto de vista evolutivo, relacionadas a cada estágio. O locus ceruleus põe em marcha o sono paradoxal; o bulbo raquiano comanda os controles do sono e da vigília; o mesencéfalo atua como um despertador.

Misteriosamente, nós sonhamos no sono paradoxal. Não se sabe a razão, mas 95 % das pessoas acordadas nessa fase lembravam de seus sonhos, enquanto apenas 10% os recordava quando despertadas em outro momento. Excetuando-se os golfinhos e os tamanduás, todos os animais superiores sonham. Os tamanduás teriam o cérebro primitivo demais. Já os golfinhos, animais inteligentes, nunca atingem a fase REM. Eles precisam controlar os movimentos e a respiração, para não se afogarem. Mesmo sem sonhar, os outros vertebrados também desfrutam do prazer simples de descansar algumas horas naquele mundo tranqüilo. Ainda que enquanto isso o organismo trabalhe tanto quanto acordado.