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O casal de brasileiros que inventou a vacina da malária

Ruth Nussenzweig fugiu da Áustria ainda criança, para escapar dos nazistas. Depois, fugiu com Victor do Brasil para escapar dos militares. Entre uma fuga e outra, revolucionaram a saúde pública.

Por Nádia Pontes, editado por Tiago Jokura Atualizado em 24 ago 2020, 12h44 - Publicado em 3 out 2016, 15h30

[Atualização: Ruth morreu em abril de 2018, pouco tempo após a elaboração desta reportagem. Mantivemos o texto, que é de 2016, inalterado]

Do seu apartamento, em Nova York, a médica brasileira Ruth Nussenzweig não perde nenhum detalhe de uma revolução em curso no continente africano. É lá que sete países completaram a terceira fase de testes da primeira vacina contra a malária causada pelo parasita Plasmodium falciparum. Um momento crucial na história do combate à doença, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Se pudesse, Ruth acompanharia tudo de perto. Foi ela que, há quase 50 anos, descobriu no laboratório a primeira pista de que imunizar pessoas contra o parasita era possível. Naquela época, a malária matava mais de um milhão de pessoas por ano, era a principal causa de morte em toda a África, fazia vítimas no sul dos EUA e da Europa.

Em 1967, Ruth divulgou um estudo que demonstrava como quebrar o ciclo de infecção da malária em roedores. Ela irradiou com raio-X os esporozoítos, forma do parasita que é transmitida a humanos pela picada do mosquito Anopheles. Depois, injetou esses esporozoítos em camundongos e, em seguida, os infectou com parasitas que não foram irradiados. A doença não foi transmitida: os esporozoítos enfraquecidos pelo raio-X ativaram uma resposta imune protetora do organismo. A vacina era viável.

“A Ruth fez os trabalhos fundamentais de proteção contra malária numa época em que se achava ser impossível”, defende o marido e colega, Victor Nussenzweig.  Ele fazia pesquisa básica em imunologia e foi convocado por Ruth para cooperar no estudo da malária. Juntos, acabaram com um dogma científico. É que em regiões endêmicas, sobretudo na África, as crianças têm uma infecção de malária atrás da outra e o organismo parece nunca adquirir imunidade contra a doença. “Isso criou essa convicção entre os cientistas sobre a impossibilidade de uma vacina”, relembra Victor.

Num projeto conjunto, Victor foi a fundo para descobrir o elemento que neutralizava a infectividade dos esporozoítos expostos a raios-X. O anúncio veio em 1980: é uma alteração na proteína CS, presente na superfície dos esporozoítos, que deixa o parasita inofensivo. 

Ruth sempre acreditou na vacina contra a malária, apesar da desconfiança dos pares.

Este é o princípio básico da vacina RTS,S (Mosquirix). Ela foi desenvolvida pela GSK, com apoio da Fundação Bill & Melinda Gates, em parceria com a OMS e a Iniciativa para a Vacina da Malária (MVI), da ONG americana PATH. “A malária causada pelo P. falciparum está ‘mais ou menos’ resolvida. Já se obtém 90% de proteção em adultos”, avalia Ruth.

Este feito pode render à dupla brasileira um Nobel de Medicina, dizem as fofocas internacionais no meio acadêmico. O estudo da malária tem peso histórico na disputa. Logo na segunda edição do Nobel, em 1902, o indiano Ronald Ross foi laureado por desvendar o ciclo da malária no organismo humano.

Além disso, a doença não perdeu a atualidade: ainda é uma das principais ameaças infecciosas no mundo. Quem garante é o imunologista Fidel Zavala, da Universidade Johns Hopkins (EUA). “A malária segue matando milhares, ainda precisamos de melhores medicamentos e de uma vacina para resolver o problema”, disse o chileno à SUPER.

Ao longo das últimas décadas, Ruth acumulou prêmios e quebrou tabus. Foi a primeira mulher a dirigir um departamento na Universidade de Nova York, posto que manteve por mais de dez anos a partir de 1984. Em 2008, recebeu a medalha de ouro Albert B. Sabin, do Instituto Sabin de Vacina, graças a contribuições na área de imunologia e no compromisso de salvar vidas por meio de descobertas médicas. Em 2013, foi eleita membro da Academia de Ciências dos EUA.

No ano passado, os Nussenzweig ganharam o prêmio da Fundação Warren Alpert, dado em parceria com a Harvard Medical School. A honraria foi fruto de “descobertas pioneiras em química e parasitologia e comprometimento pessoal em traduzir essas descobertas em um quimioterápico eficaz e abordagens para controlar a malária por meio de vacina”. Estatística importante: sete vencedores do Warren Alpert, organizado desde 1987, também foram premiados com o Nobel.

O próximo desafio

A relação entre os Nussenzweig e a ciência sempre foi de amor intenso. Victor ainda trabalha na Universidade de Nova York: todos os dias, dirige até o escritório, a 30 quadras do apartamento, e por lá passa as manhãs orientando alunos de doutorado.

Ruth já não sai tanto de casa. Há alguns anos, caiu e quebrou todas as costelas do lado esquerdo. Desde então, se locomove em uma cadeira de rodas. O acidente não limitou a capacidade intelectual da cientista, que agora estuda para resolver um outro problema. “O que mais me interessa já há vários anos é uma vacina para outra malária, causada pelo Plasmodium vivax. Ela está se espalhando em grande parte do mundo, incluindo Austrália e Ásia”, explica.

Dados da OMS mostram que a malária ainda mata cerca de 440 mil pessoas por ano. O P. falciparum, alvo da vacina dos Nussenzweig, é mais prevalente na África. Já o P. vivax, que responde por cerca de 80% dos casos no Brasil, tem uma distribuição geográfica maior. Ele também se desenvolve no mosquito Anopheles, mas pode sobreviver em lugares mais altos e frios. Para eliminar o P. vivax, o tratamento mais comum é o uso da primaquina, remédio tóxico e caro usado desde os anos 1950.

Segundo Ruth, a decisão para produzir em massa uma vacina contra o P. vivax está nas mãos de uma das famílias mais ricas dos EUA. “Existe um elemento da vacina que passei, por meios indiretos, aos Gates. Eles têm a informação de uma pesquisa eficiente sobre o P. vivax“, detalha. A brasileira defende que Bill e Melinda Gates, com os recursos que têm e a campanha que fazem para combater a malária, deveriam financiar a novidade.

Os dados compartilhados com os Gates são fruto de uma pesquisa de 12 anos, em parceria com o biólogo brasileiro Maurício Martins Rodrigues. Em 2015, pouco antes de falecer, Rodrigues publicou um estudo com a sequência genética do P. vivax e outras informações que dariam base a uma vacina.

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Nos tempos da Guerra Fria  

Nascida em Viena, na Áustria, Ruth chegou ao Brasil ainda menina junto com os pais, em 1939, que fugiam da ocupação nazista, e se naturalizou. Victor e Ruth se conheceram aos 18 anos, cursando Medicina na USP.

E nunca mais desgrudaram. Os anos de namoro foram marcados pelo engajamento político e, só depois, científico. Victor era do Partido Comunista e dirigiu um jornal de esquerda na faculdade, o Bisturi. “A gente era um pouco ingênuo e idealista, achava que podia trabalhar pela humanidade fazendo política. A Ruth me convenceu que era melhor trabalhar pela humanidade fazendo ciência.”

As pesquisas levaram o casal a Paris entre 1958 e 1960. Três anos depois, se mudaram para Nova York. Candidato a uma bolsa de estudos nos EUA, Victor recebeu um sonoro “não” por causa do passado de esquerda. “O avaliador sugeriu que eu pedisse a bolsa para o Stálin”, conta, bem-humorado.

No fim das contas, a qualidade científica falou mais alto e a bolsa saiu, mas o número do visto era esquisito, diferente do padrão. “Descobri que esse número definia as pessoas como prostitutas, leprosos e comunistas. Foi assim que entramos nos EUA”, revela Victor.

Concluído o pós-doutorado, os Nussenzweig voltaram ao Brasil em 1965, um ano depois do golpe militar. Logo se deram conta de que quase todos os amigos da USP estavam na cadeia. Victor foi chamado pelo diretor da Faculdade de Medicina – um coronel – para uma conversa que virou interrogatório. Ao chegar em casa, disse a Ruth que não seria possível viver aqui nesse clima. 

Regressaram aos EUA duas semanas depois e foram surpreendidos por outro “convite”: agentes do FBI queriam interrogar Victor. No apartamento do casal, os agentes queriam saber se havia conteúdo subversivo no jornalzinho que editava, ainda como aluno da USP. “Foi ridículo”, recorda.

Relações com o Brasil 

Ruth e Victor sempre mantiveram colaborações com o Brasil, especialmente em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Gostamos muito do Brasil, principalmente dos brasileiros. A gente ainda não sabe se volta para passar um tempo”, afirma Victor, que atualmente tenta renovar o passaporte.

Após quase 70 anos de dedicação à ciência, os Nussenzweig estão perto de cumprir a missão de vida estabelecida aos 18 anos. “A gente queria ajudar. Descobrir coisas novas dá prazer, é uma sensação fantástica”, diz Victor. “Desejamos que a vacina diminua a mortalidade infantil, principalmente na África, onde a malária mata muitas crianças de até 5 anos”, finaliza Ruth.

Cinco décadas atrás da vacina

1967 – Testes em roedores

Nos anos 1960, esporozoítos do P. falciparum, parasita causador da malária, são expostos a raio-X. Enfraquecidos, são injetados em ratos, que ficam imunes.

1985 – Testes em humanos

Seis voluntários participam da primeira infecção controlada de malária em humanos no Centro Médico Militar Walter Reed, em Maryland, EUA.

2011- Testes em crianças

Na terceira fase de testes, mais de 15 mil crianças são vacinadas em sete países africanos. 27% dos bebês vacinados ficam imunizados.

2015 – Vacina apoiada

Com parecer positivo da Agência Europeia de Medicamentos, a RTS,S está perto de ser a primeira vacina comercial contra uma doença parasitária.

2016 – Testes Massivos

A OMS recomendou a implantação de um programa piloto de vacinação em países endêmicos na África. Até 800 mil crianças devem ser vacinadas.

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