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China registra um caso de peste bubônica – a “peste negra”

Calma, não há motivo para medo. O paciente já está isolado, e a doença reaparece em intervalos regulares – sua bactéria causadora nunca foi extinta.

Por Carolina Fioratti - Atualizado em 6 jul 2020, 16h55 - Publicado em 6 jul 2020, 16h35

A China confirmou um caso de peste bubônica na região da Mongólia Interior, no norte do país. Sim aquela peste, que dizimou um terço da população europeia no final da Idade Média. Não há motivo para preocupação, porém. De acordo com autoridades estatais, o paciente – um camponês da cidade de Bayannur – já está em quarentena e seu quadro é estável. 

O caso foi reportado como suspeito no sábado (4), e o diagnóstico foi oficializado no domingo (5). Após a confirmação da doença, autoridades chinesas intensificaram medidas de segurança sanitária no país. Foi decretado nível três de alerta (são, ao todo, quatro níveis). No nível três, fica vetado o consumo e transporte de animais potencialmente infectados. Além disso, a população fica obrigada a relatar qualquer caso suspeito de infecção, seja em pessoas ou animais. 

A peste bubônica é causada pela bactéria Yersinia pestis. Ela é transmitida pela mordida de pulgas infectadas, que costumam se alojar em roedores. Os humanos costumam se infectar após a ingestão da carne dos animais que carregam as pulgas. Mas também é possível que a pulga pule para o Homo sapiens e o morda diretamente. Na Mongólia Interior, o hospedeiro intermediário costuma ser a marmota.

A bactéria que causou a famosa Peste Negra no século 14 não foi extinta. A diferença é que hoje, com o avanço da medicina, é possível controlar a doença com auxílio de antibióticos. A medicação precisa entrar em cena rapidamente, de preferência dentro de 15 horas após o paciente exibir primeiros sintomas. Se não for tratada, a doença é fatal em algo entre 30% a 60% dos casos.

O último surto notável de peste bubônica na Europa ocorreu em Londres, no ano de 1665. Cerca de um quinto dos cidadãos morreu. No século 19, a doença reapareceu na China e Índia, tirando a vida de mais de 12 milhões de pessoas.

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Os episódios seguintes foram menos expressivos. Em 2017, em Madagascar, houve um surto que acometeu 300 indivíduos. Em maio de 2019, duas pessoas morreram na Mongólia após contraírem a bactéria através da ingestão de carne de marmota. Nos Estados Unidos, são relatados cerca de sete novos casos por ano.

No Brasil, o último registro de peste bubônica em humanos data 2005. O caso foi registrado no Ceará, no município de Pedra Branca. Como a bactéria ainda está presente em roedores, a doença é considerada como “perigo em potencial” pelo Ministério da Saúde. Por aqui, os focos da bactéria são o Nordeste e o município de Teresópolis, no Rio de Janeiro.

A bactéria causa três doenças diferentes conforme o local do corpo atingido. A mais comum e famosa é a peste bubônica, que atinge os gânglios linfáticos – localizados nas axilas, virilhas e pescoço. Quando a pessoa é acometida pela doença, esses órgãos incham, podendo chegar aos 10 centímetros. Esses caroços que se formam foram chamados no passado de bubões, daí o nome “peste bubônica”. Nos estágios mais avançados da doença, eles necrosam e se tornam escuros, o que explica o outro nome – “peste negra”.

Também há a peste septicêmica, que atinge o sangue, e a pulmonar – a forma mais grave, cujo nome é autoexplicativo. Existe a hipótese de que o surto mais famoso, no século 14, tenha sido de peste pulmonar, o que explicaria sua altíssima letalidade. A peste pulmonar não depende só das pulgas: pode ser transmitida por gotículas de saliva e secreções. Por isso, isolar e tratar o paciente rapidamente é imprescindível. A peste pneumônica foi registrada pela última vez em novembro de 2019, também na Mongólia Interior.

Em 2018, a Organização Mundial da Saúde classificou a peste como uma doença reemergente, ou seja, que estava controlada mas mudou seu padrão epidemiológico e voltou com um alto número de casos. Entre 2011 e 2015, foram registrados mais de três mil casos e cerca de 580 óbitos. Tirando a Oceania, todos os continentes do globo possuem com animais que poderiam carregar a Yersinia pestis.

Todo cuidado é pouco, mas chances de que a doença saia de controle são mínimas: a peste negra se espalhou rapidamente em uma época em que as cidades tinham problemas de saneamento básico bem piores que os atuais, e não havia nenhum remédio capaz de curar uma infecção bacteriana. A covid-19, embora menos letal, se provou capaz de causar uma tragédia por ser um vírus respiratório – um tipo de agente que se dissemina facilmente em locais populosos e para o qual não há tratamento conhecido.

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