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E Se… A peste negra não tivesse acontecido?

Para quem viveu, e morreu, foi aterrorizante. Mas foi ela quem deu à luz o mundo como o conhecemos.

Por Fábio Marton - Atualizado em 6 Maio 2020, 20h51 - Publicado em 22 abr 2020, 18h12

Uma pandemia de peste bubônica ceifou as vidas de algo entre 30% e 60% dos europeus entre 1347 e 1351. Na Ásia, a taxa foi similar (a China perdeu quase metade da população). Terrível, mas foi esse morticínio que acelerou a criação do mundo moderno.   

  A Europa estava superpovoada antes da peste. Isso se traduzia em eventos como a Grande Fome de 1315, que causou um surto de canibalismo –  que vitimou principalmente crianças. A peste teve a chance de se tornar explosiva nessas condições. Ao tirar tanta gente do mundo, mudaria as relações socioeconômicas para sempre.

O trabalho braçal se tornou uma commodity valorizada. A peste acabaria com a servidão na Europa Ocidental. O sistema antigo, pelo qual os camponeses eram atrelados à propriedade, e só podiam se mudar (para uma cidade, por exemplo) com (rara) autorização do senhor feudal, já estava em decadência e não sobreviveu quando a peste reduziu a população dos feudos a níveis insustentáveis. Para continuar a plantar, era preciso trazer gente de outros lugares: gente livre, sem amarras servis, como os que nasciam em cidades ou se mudavam de feudos abandonados.

Para continuar a plantar, era preciso trazer gente de outros lugares: gente livre, sem amarras servis, como os que nasciam em cidades ou se mudavam de feudos abandonados.

Isso fez bem aos trabalhadores. Na Inglaterra, o salário dos camponeses dobrou entre 1350 e 1450. Em vários países, leis foram criadas proibindo cobrar salários maiores que em 1347, mas a mão do mercado mexia suas peças: se alguém não podia cobrar mais caro num lugar, tinha como se mudar para outro.

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Sem gente suficiente, o feudalismo – sistema pelo qual os vassalos tinham seus próprios exércitos e se juntavam a seus superiores, os suseranos – também se tornou inviável. Nobres foram morar nas cidades, atuando como administradores. Muitos abandonaram sua função militar. A guerra acabaria indo parar nas mãos dos exércitos nacionais, o que diminuía conflitos internos.

A alimentação também ficou mais rica. Animais agrícolas se reproduzem mais rápido que humanos e sua população foi fácil de recuperar. Áreas agricultáveis foram abandonadas por falta de trabalho e puderam se tornar pastos. Como resultado, carne deixou de ser um luxo exclusivo dos mais ricos.

E veio a tecnologia: com poucas mãos, máquinas se tornaram altamente desejáveis. Então, essa energia vinha na forma eólica, hidráulica ou animal. De meros moinhos de fazer farinha, as máquinas complexas passaram a ser empregadas em outras atividades: mineração, metalurgia, tecelagem, serralheria, construção. Tudo isso passou a ser feito com energia de rodas d’água, pás de vento ou cabrestantes (rodas com barras de tração) movidos a força animal. Essa energia era transformada por sistemas cada vez mais complexos de engrenagens e polias.

De meros moinhos de fazer farinha, as máquinas complexas passaram a ser empregadas em outras atividades: mineração, metalurgia, tecelagem, serralheria, construção. Tudo isso passou a ser feito com energia de rodas d’água, pás de vento ou cabrestantes (rodas com barras de tração) movidos a força animal.

Nem tudo foi progresso. Os médicos não conseguiram explicar a peste pelas teorias da época, baseadas em “humores corporais”, supostos líquidos do organismo ligados aos quatro elementos, e “miasmas” (ares fétidos). Achavam que a doença transmitia-se pelos tais miasmas. Daí as famosas máscaras de médico da peste (veja acima), protegendo inutilmente a respiração. Ninguém suspeitou de pulgas e ratos –  os transmissores da bactéria Yersinia pestis, a responsável pela doença. Até houve quarentenas: em Veneza, navios estrangeiros precisavam esperar 40 dias numa ilha antes de entrar, mas a peste chegaria por terra.

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Mergulhadas na ignorância sobre a origem da doença, as pessoas passaram a inventar culpados. Os primeiros foram os judeus: eles morriam em menor número, porque viviam em isolamento do resto da sociedade. Seus hábitos higiênicos, baseados na ideia de pureza ritual, também ajudavam. Mas o fato é que eles foram acusados de “envenenar a água dos cristãos” e massacrados por todo o continente. Entre 1347 e 1351, houve 350 eventos de extermínio de judeus, destruindo 310 comunidades.

E houve caça às bruxas. Literalmente. Acreditar em bruxas era considerado uma heresia na Igreja Católica: seria dizer que pessoas comuns possuem um poder como o de Deus. Após a peste, uma corrente contrária passou a ganhar força: bruxas não teriam poder em si, mas o obteriam por meio de um pacto com o Diabo. A peste, e sua falta de explicação pelo conhecimento racional, fez com que mais mulheres fossem assassinadas por “bruxaria” –  um costume torpe que ganhou força com a peste, e permaneceria até o século 18.

Enquanto o fanatismo crescia, a Igreja se tornava, paradoxalmente, mais fraca, já que os fiéis morriam aos montes. A geração seguinte de padres foi formada por gente treinada às pressas. Era uma Igreja já em crise: o papa morava na França, em Avignon, praticamente refém do rei. O caos chegaria ao auge com o Cisma Ocidental (1378-1415), no qual dois cardeais, um em Roma, outro em Avignon, diziam ser papa ao mesmo tempo. A Reforma Protestante veio após esse enfraquecimento, quando nobres locais se sentiram confiantes para desafiar a Igreja, e apoiaram o monge rebelde Lutero. Ou seja: sem a peste não haveria o protestantismo.

Nobres locais se sentiram confiantes para desafiar a Igreja, e apoiaram o monge rebelde Lutero. Ou seja: sem a peste não haveria o protestantismo.

A Renascença também ganharia um impulso. Os escritores Boccaccio e Petrarca estavam vivos para presenciar o desastre, e isso influenciou sua ideia de que o mundo vivia uma Idade das Trevas, que precisava ser superada em favor do retorno da glória da Antiguidade. Com isso começava um processo, em grande parte incentivado pela própria Igreja, que levaria ao humanismo e ao racionalismo secular moderno. Até então, a ciência vinha principalmente da própria Igreja, com monges gastando seu tempo estudando e escrevendo sobre a natureza, adaptando fatos a explicações teológicas.

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Assim, por consequência da Peste Negra, acabamos por listar todos os ingredientes do mundo industrial moderno: trabalhadores livres, fim do feudalismo, avanços na tecnologia, nas artes, na ciência. Mas estaríamos simplesmente ainda na Idade Média sem isso?

Não exatamente. A Idade Média não era um período estático. Já estava experimentando todas essas mudanças, apenas mais devagar, e vivenciando uma crise. Um mundo sem a Peste Negra continuaria a ser dominado pela Igreja unificada, e se manteria mais fixo às tradições anteriores, mas não pararia de evoluir.

O Brasil provavelmente seria colonizado por portugueses, sem surpresas: a queda de Constantinopla, em 1453, que levaria à corrida pela rota das especiarias, e marca o fim da Idade Média, aconteceria do mesmo jeito; talvez antes porque a peste enfraqueceu o Império Otomano, que dominava a cidade. As Grandes Navegações, então, aconteceriam de uma forma ou de outra. Mas o mundo estaria, sim, mais atrasado. Talvez hoje tivéssemos uma realidade mais parecida com a do século 18 ou 19. Porque crises podem, sim, ser terríveis, mas fazem a roda da história girar mais rápido.

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