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Coronavírus: estudo registra primeiro caso de transmissão dentro do útero

Caso foi comprovado de forma inédita por pesquisadores da França. A boa notícia é que, aparentemente, a infecção não deve trazer danos aos bebês.

Por Guilherme Eler - Atualizado em 15 jul 2020, 16h23 - Publicado em 15 jul 2020, 16h17

Após mais de seis meses de pandemia, a lista de questões em aberto sobre o novo coronavírus – e os efeitos da covid-19 – não dá sinais de que irá diminuir tão cedo. O quanto devemos nos preocupar com a possibilidade de contaminação por partículas suspensas no ar? Quem é infectado uma vez fica mesmo imune para sempre? É possível que uma gestante com covid-19 passe o vírus para o bebê?

Um estudo científico publicado na revista Nature Communications na última terça-feira (13), porém, trouxe novas evidências que podem ajudar a responder esta última pergunta. Médicos franceses relataram algo inédito: um bebê ainda no útero da mãe foi contaminado pelo novo coronavírus, via placenta. O caso, segundo o grupo, é um indício forte de que essa forma de contaminação é, sim, possível – e de que recém-nascidos que testaram positivo podem ter contraído o vírus da mãe, e não no hospital, como se especulava anteriormente.

A mãe citada no estudo, de 23 anos, foi internada em um hospital de Paris no dia 24 de março, aos oito meses de gestação, após apresentar febre alta e tosse constante. Seu teste deu positivo para o novo coronavírus, e ela passou a ser acompanhada de perto pela equipe do hospital. Exames feitos no fim de março mostraram que a frequência cardíaca do bebê estava oscilando, o que fez os médicos anteciparem o parto – realizado por cirurgia cesariana em uma sala isolada.

Na primeira hora de vida, foram coletadas amostras de nariz, faringe e reto da criança, que acusaram a presença do vírus. Exames de sangue e do fluido pulmonar, depois, também confirmaram o resultado positivo para Sars-CoV-2. O líquido amniótico, que envolve o feto durante a gestação, da mesma forma, tinha traços do vírus.

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De acordo com os pesquisadores, o fato de a ciência ainda não ter outras provas consistentes de que a transmissão do vírus pode acontecer dentro do útero esbarra exatamente aí: no grande número de testes necessários para cravar o diagnóstico.

“É preciso coletar mostras do sangue da mãe, do sangue do recém-nascido, da placenta, do líquido amniótico, e é extremamente difícil reunir tudo isso no meio de uma pandemia”, explicou Daniele De Luca, chefe da divisão neonatal do hospital Antoine-Béclère, em Paris, que liderou o estudo, em entrevista ao Guardian. “Existem alguns casos suspeitos, mas eles ainda não foram confirmados porque ninguém teve a oportunidade de testar tudo isso”.

O bebê ficou, ao todo, 18 dias sob observação em UTI. Os médicos relataram que, no terceiro dia de vida, o recém-nascido se mostrou irritadiço, tinha problemas em se alimentar e começou a ter espasmos musculares. Segundo os médicos, imagens de ressonância magnética revelaram que a criança desenvolveu um tipo de lesão no cérebro. Acredita-se que ela tenha sido fruto de uma inflamação causada após o Sars-CoV-2 se espalhar pelo sangue da mãe e atravessar a placenta.

Assim como sua mãe, o bebê se recuperou normalmente, sem precisar passar um tratamento específico, e, hoje, aparenta estar saudável. Novos exames mostraram que o cérebro da criança, segundo de Luca, está “quase normal”. O autor afirma que, na maioria dos casos, a infecção não deve causar danos a recém-nascidos.

É consenso entre cientistas que a infecção pelo novo coronavírus ainda no útero se mostra algo raro: aparentemente, outras doenças causadas por vírus, como zika e rubéola, são muito mais transmissíveis durante a gestação. De qualquer maneira, os novos achados mostram a importância de novos estudos, que acompanhem de perto os desdobramentos e potenciais efeitos da doença para recém-nascidos e gestantes.

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