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Covid-19: As vacinas irão interromper a transmissão do vírus?

Os imunizantes já se mostraram eficazes em conter infecções graves, mas falta saber se eles também diminuirão a propagação do Sars-CoV-2. Algumas pesquisas e eventos ao redor do mundo ajudam a responder à questão.

Por Carolina Fioratti 1 fev 2021, 18h43

O Brasil ultrapassou a marca de dois milhões de pessoas vacinadas contra o novo coronavírus. O imunizante deve impedir que aqueles que o receberam desenvolvam a Covid-19 de forma grave ou que necessitem de hospitalização, mas ainda não sabemos com clareza como ele irá impactar a transmissão do vírus. 

Há um motivo para isso. Logo no começo do desenvolvimento das vacinas, as empresas definiram que a eficácia seria medida pela diminuição de incidência da doença e redução de mortes. Essas são as porcentagens que foram divulgadas para o público geral nos últimos meses. Isso não significa que os dados referentes à transmissão são menos importantes – só que eles não foram considerados no estudo e devem ser avaliados agora, conforme as pessoas vão recebendo o imunizante. 

Você pode estar se perguntando, “se eu tomei a vacina, não é óbvio que eu não vou transmitir o vírus?”. Infelizmente, a resposta é não. É possível que você ainda contraia o Sars-CoV-2, mas tenha sintomas leves ou fique assintomático. Apesar da sua saúde estar em segurança, outras pessoas que não tomaram a vacina podem acabar contaminadas caso haja um descuido de ambas as partes, como um encontro sem máscaras.

As informações obtidas até agora apontam para o fato de que não, a vacina não bloqueia totalmente a propagação do vírus – mas provavelmente pode ajudar a diminuí-la. Quando uma pessoa é infectada pelo novo coronavírus, leva entre três e quatro dias para que o vírus comece a se multiplicar no organismo, causando os primeiros sintomas da doença. O pico de transmissão ocorre um ou dois dias antes disso. Luiz Gustavo de Almeida, pesquisador do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e Instituto Questão de Ciência, explica que a vacina pode ajudar a diminuir esse pico de transmissão, já que o sistema imunológico já estará preparado para combater o vírus. “Só não batemos o martelo porque ainda não há dados para isso”, explica o biólogo.

  • Apesar de não haver publicações oficiais sobre vacina e transmissão, alguns laboratórios coletaram dados que dão pistas sobre o assunto. A fabricante Moderna, por exemplo, testou os voluntários que iam receber a segunda dose do imunizante durante a fase 3 dos ensaios clínicos. A ideia era encontrar os assintomáticos. Nisso, perceberam que as pessoas que haviam recebido a vacina tinham um terço de chances de testar positivo para a Covid-19 em comparação com aquelas que receberam o placebo. Isso indica uma redução de 66% nas taxas de infecção e, consequentemente, nas de transmissão. Após a segunda dose, só foram testadas pessoas que apresentaram sintomas, tornando os dados inconclusivos para este recorte.

    A AstraZeneca, que ofereceu um regime de meia dose e depois uma dose completa do imunizante aos voluntários, chegou a resultados parecidos. As pessoas vacinadas tiveram 60% menos chances de desenvolverem a doença de forma assintomática e transmiti-la do que aqueles que receberam placebo. Nos ensaios com as duas doses completas, houve uma diferença bem menos significativa, de apenas 4%. 

    Outro estudo do Clalit Research Institute em Ramat Gan, Israel, mostrou que a vacina da Pfizer também reduziu as infecções assintomáticas em idosos com mais de 60 anos em um terço. Os dados consideram apenas o intervalo entre a primeira e segunda dose. Luiz Almeida acredita que Israel seja um bom país para se tomar como base, já que 40% desta população já foi vacinada e, entre os imunizados, houve uma redução de sete vezes no número de internados quando comparados a pessoas não vacinadas. Essa era uma tendência esperada que está se concretizando. 

    Com as vacinas chegando, já não é hora de flexibilizar o distanciamento social? Ainda não. O pesquisador explica que, antes de ter 70% ou até 80% de pessoas imunizadas no país, é muito difícil que voltemos a ter grandes eventos com público, como jogos de futebol ou festivais. Desde o dia 17 de janeiro, o Brasil vacinou apenas dois milhões de pessoas, usando menos da metade das doses totais disponíveis agora em solo brasileiro. Se continuar nesse ritmo, levaria 4,5 anos para vacinar toda a população. 

    Por conta disso, além de evitar aglomerações, o uso de máscaras é mais do que necessário. É preciso também estar atento à campanha de vacinação e respeitá-la para que tenhamos o maior número de imunizados o mais rápido possível.

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