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Covid-19: surtos esporádicos podem ser o “novo normal”?

Novos casos ligados a um mercado de Pequim ilustram um cenário que muitos países enfrentarão daqui para frente: pequenos surtos sazonais da doença.

Por Bruno Carbinatto - Atualizado em 16 jun 2020, 17h34 - Publicado em 15 jun 2020, 21h07

Um novo surto de Covid-19 em Pequim, capital da China, vem preocupando autoridades de saúde do país e do mundo, que temem uma segunda onda de infecções onde a pandemia teve início.

Nos últimos quatro dias, 79 casos da doença foram diagnosticados na cidade, incluindo 36 apenas no último domingo (14). Como resposta ao aumento, o governo chinês agiu optou por colocar boa parte da zona sul de Pequim em lockdown após os primeiros casos serem identificados.

A análise dos casos mostrou que todos os pacientes infectados parecem ter ligação com um único local, o mercado Xinfadi, no distrito de Fengtai, ao sul da capital. Mais de 10 bairros na região entraram em quarentena.

Como forma de evitar a propagação da doença, autoridades investiram na instalação de pontos de checagem de temperatura, no controle da movimentação de pedestres e higienização em massa das vias públicas. Os habitantes dessa região só poderão sair de casa e visitar outros bairros se tiverem um motivo plausível para tal – o mesmo vale para quem quiser entrar.

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O mercado Xinfadi foi rapidamente fechado e está sendo desinfectado. 111 pessoas que tiveram contato com o local ou com pessoas potencialmente infectadas foram isoladas em hotéis pelo governo, onde ficarão sob observação pelos próximos dias.

Restaurantes e lojas da região até poderão permanecerão abertos, mas com restrições para evitar aglomerações (não poderão ser servidos banquetes, por exemplo).

Mas a medida mais relevante foi a de testagem em massa: 90 mil habitantes da região serão testados para rastrear a rota de infecção do vírus, segundo o governo anunciou nesta segunda-feira (15). Dez mil amostras já foram colhidas.

Especialistas acreditam que o episódio em Pequim ilustra o cenário que vários países que estão reabrindo suas economias após controlar o vírus vão enfrentar: o de novos surtos esporádicos e localizados da doença, que podem evoluir para situações piores se não houver uma resposta veloz e eficiente.

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Apesar das dezenas de casos identificados na capital chinesa não chegarem nem perto das centenas de casos registrados diariamente em Wuhan – ou, agora, no Brasil -, o ressurgimento do vírus preocupa, sobretudo, por três razões.

A primeira é o fato de o país ter conseguido controlar quase que integralmente a pandemia em seu território após o caos inicial na província de Hubei durante os primeiros meses de 2020. Outra: Pequim não registrava casos novos de Covid-19 há 56 dias. Por fim, a cidade é a capital do país e a sua segunda metrópole mais populosa, com mais de 20 milhões de pessoas. Ter um pico de casos por lá poderia levar a uma epidemia ainda maior da que se iniciou em Wuhan no início do ano.

Além disso, um grande número de pessoas entram e saem da cidade todos os dias – ainda mais com as medidas de isolamento quase inexistentes após a cidade zerar os casos. Isso significa que o vírus poderia rapidamente se espalhar pelo país e reiniciar a crise.

De fato: alguns poucos casos identificados fora da capital nos últimos dias parecem ter relação com pessoas viajando de Pequim para as províncias de Hebei, Liaoning e Sichuan. As autoridades temem que o vírus já possa ter viajado para outras regiões pela mesma rota, e observarão os números nacionais dos próximos dias.

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O episódio da vez parece descrever um dilema inevitável para países que conseguiram controlar a pandemia e estão gradualmente reabrindo suas economias: o de surtos esporádicos e concentrados em regiões específicas.

Ainda não se sabe como o vírus foi parar no mercado de Xinfadi, mas uma análise genética preliminar mostrou que seu genoma se parece com a estirpe viral que circula na Europa, o que indica que, provavelmente, foi trazido por algum viajante ou por produtos alimentícios importados.

Isso escancara o fato de que, em um mundo globalizado, é quase impossível ficar livre do vírus por muito tempo. E também, por mais que medidas de precaução existam, é impossível evitar totalmente aglomerações ou contatos humanos – o novo surto, por exemplo, aconteceu em um dos maiores mercados de Pequim, responsável por 70% do abastecimento dos vegetais da cidade, segundo o governo local. Não dá para viver sem mercados – ou limitando demais o acesso da população a eles.

Antes de Pequim, um outro surto de dezenas de casos também já havia acontecido em maio no nordeste da China. O resultado? Parte da província de Jilin entrou em lockdown e mais de 100 milhões de pessoas na região ficaram com algum tipo de restrição de movimento, o que confirma a tendência de novos surtos geograficamente localizados – neste caso, o vírus veio da Rússia, que faz fronteira com a província, segundo análises genéticas.

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A resposta para esses surtos esporádicos parecem ser cruciais para como a pandemia vai se comportar daqui para frente em países que já controlaram a pior parte da crise. É o que defendem especialistas em saúde.

Zeng Guang, epidemiologista sênior do Centro de Controle de Doenças da China, confirmou ao jornal Beijing Daily que episódios como esse vão provavelmente acontecer na China daqui para frente, mas que não virarão problemas maiores porque as autoridades já estão preparadas para enfrentar esse cenário. “Pequim não se tonará uma nova Wuhan”, disse.

Em um comunicado online, Zhang Wenhong, professor da Universidade Fudan em Xangai e uma das maiores vozes no controle da pandemia no país, disse que, a partir de agora, o rastreamento da rota de infecção dos novos casos que surgir vai ser imprescindível para que a pandemia não retorne com tudo no país. “Ter ‘quase zero casos’ será o normal da prevenção de epidemias na China”, escreveu. “Espero que a sociedade se adapte a esse novo normal o mais rápido possível.”

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