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“Eu, crossfiteiro”

Nosso repórter passou dois meses imerso nos exercícios: "À medida que me acostumava com a ideia de sofrer, passei a saborear um êxtase completo"

Acabo de terminar meu primeiro treino de CrossFit. Barras, pesos, argolas suspensas, baldes com pó de magnésio e corpos estirados no chão se espalham à minha frente. A cena é caótica. Tomo um pouco de ar e compartilho minhas dores e pensamentos com outro aluno novo que acaba de viver ao meu lado o mesmo sofrimento, o WOD (o workout of the day ou “treino do dia”). Ele parece tão cansado quanto eu. Mas, de alguma forma, teima em sorrir.

Pergunto o que ele, afinal, está fazendo ali – eu mesmo ainda não sabia muito bem. Ele me responde que está em busca de resultados. “Passei muito tempo na academia. Quem sabe algo mais intenso resolve, né? ”. Faço um sinal positivo com a cabeça, enquanto retomo de vez meu fôlego, agradeço a parceria do dia e me despeço. Estou devastado. E isso parece ser o suficiente – descobriria algumas horas depois – para querer provar mais uma dose.

Dois dias depois daquela estreia intensa, ainda doído e um pouco temeroso do que viria pela frente, lá estava eu de volta ao box (como os crossfiteiros chamam suas academias). Uma hora de esforço depois – saltando sobre cordas e caixas, dando o sangue em uma máquina que imita remadas e completando agachamentos que não fazia há pelo menos uma década – constato que sobrevivi a mais um dia. Uma sensação que ainda me perseguiu por um bom tempo. Parto para casa, tão exausto quanto pensativo: “Bom, se eu não morrer antes, acho que vou ficar forte!”.

Acabei me empolgando um pouco e me esqueci de me apresentar. Pratico esporte desde criança com boa frequência: do judô e natação, na infância, a modalidades como corrida e ciclismo, passando pelos campos de rugby e por aventuras remando, andando em trilhas e em alta montanha. Tudo isso preenche uma parte importante da minha rotina. Curto me mexer, sinto prazer. Talvez por isso, aos 31, com 1,84 metro de altura e 82 kg, achei que estaria preparado fisicamente para não sofrer tanto. Não demorei a perceber que estava bem enganado.

“Galera das 8h, bem-vindos! Vamos que a aula hoje está ‘pegada’!”. É assim que começaria grande parte dos meus dias nos dois meses seguintes. Tudo acontecia dentro desse curioso galpão de teto alto, piso emborrachado e paredes pretas com desenhos em grafite de personagens “trincados”: homens, mulheres, palhaços e até um gorila – o box catarinense CrossFit 567. Muito mais divertido que espelhos ou paredes brancas, penso. Na caixa de som, a trilha sonora varia do rap ao rock, passando até pelo hino de Rocky Balboa.

Não foi fácil passar pelas primeiras semanas. Alguma coisa parecia estar fora de lugar.

Não foi fácil passar pelas primeiras semanas. Alguma coisa parecia estar fora de lugar. E eu ficava atento a qualquer pista que pudesse aliviar a minha culpa – é difícil assumir seu próprio despreparo. Eu mantinha meu radar ligado. O mergulho recente nesse universo já havia me despertado para o fato de estarmos brincando com fogo. Quer dizer, há um grande potencial de isso acabar bem, mas um descuido pode levar tudo para o ralo. E eu tinha uma certeza: queria sair dessa inteiro.

À medida que ia me acostumando com a ideia de sofrer sempre, passei a saborear um completo êxtase nas horas seguintes. Uma versão turbinada do bom e velho runner’s high, termo antigo usado na corrida e esportes em geral, traduzido como “barato de corredor”. Esses efeitos benéficos (e muitas vezes viciantes) da atividade física não eram novidade para mim. Mas o cenário, os elementos e os personagens da história, sim. É por isso que, sempre que sobrava um pouco de ar, eu puxava conversa com mais gente para comparar melhor as minhas impressões. Um deles me falava: “No meu primeiro mês aqui eu não conseguia completar um WOD”. Aquilo me chamou atenção. Poucos minutos antes, ele mesmo havia finalizado uma sequência exigente de exercícios sem fazer nenhuma careta.

Por trás do suor no meu rosto, começo a enxergar a competição presente no ambiente. Um grande quadro branco no centro do box, por exemplo, marca os tempos e cargas alcançadas pelos alunos das aulas do dia. Demorei a decifrar todas as siglas, mas rapidamente percebi: ninguém quer ser o último da turma. O que, aliás, pode ser ótimo. Um acaba puxando o outro para cima. Só que também esconde um enorme perigo: o risco de exagerar na dose. Instintivamente, algo me dizia que aí estava o segredo para eu dar conta de superar esse começo mais sofrido.

 1, 2, 3… Vai!

 “Treinão, galera!”. Era com essa frase que nosso coach gostava de decretar o fim do abastecimento da piscina de suor que nós havíamos ajudado a encher. Nós tínhamos seguido à risca a batuta do líder, essa mistura de DJ com treinador de boxe. Durante a hora anterior, ele mesclara momentos de atenção individual, frases de incentivo coletivo e goles no seu mate. Ao fim desse caos controlado, a maioria adora se jogar no chão. Outros, quando recuperam a respiração, trocam contatos. “Qual é seu ‘Insta’?”. “É @xxx_crossfit!”. “Oba, achei!”. Todos parecem contentes, menos uma aluna que se exercitava perto de mim: “Haaa, não acredito, meu celular não gravou!”.

Estamos vivendo uma quarta-feira comum, e ainda é bem cedo pela manhã. Volto para casa me arrastando após um treino realmente puxado, quando fiquei perto de conhecer pessoalmente Pukie, The Clown, o tal mascote crossfiteiro criado para celebrar atividades tão duras que levam o praticante a vomitar. Eu não estava achando graça.

Divido essa mistura de desgaste com a alegria de voltar são e salvo ao lar com minha mulher assim que piso em casa. Ela me provoca dizendo que estou começando a gostar de CrossFit. Penso na intuição e na sabedoria feminina, reflito um pouco, e respondo que pode ser mesmo. Mas tento explicar para ela um pouco mais a fundo o que estou sentindo – até porque isso ainda não estava claro nem mesmo para mim. Esse pode ser um jeito divertido de treinar, começo, tropeçando nas palavras. E, ainda que não caiba a mim dizer se realmente funciona ou não, esse primeiro contato me indica que sim. De alguma forma, o CrossFit dá um gosto dessa parte boa de ser atleta: as recompensas fruto do esforço.

A vida dentro do box

Quebrado o gelo da estreia, começo a notar outras nuances. A primeira: a recorrente devoção à figura do líder do movimento, o americano Greg Glassman. Seus discursos são comumente repetidos no dia a dia – “perigoso é ficar sentado no sofá”, ou então, “o CrossFit está formando as pessoas mais bem condicionadas do planeta”, só para citar dois clássicos. A segunda: muitos boxes estão refletindo sobre o que estão fazendo. Eles não copiam e colam simplesmente o WOD (disponível diariamente no site crossfit.com) e o passam adiante. Decido visitar o box pioneiro no País, o CrossFit Brasil, em São Paulo, para treinar e checar isso tudo na pele.

Encontro o que esperava. Nada de luxo e muito foco no treino em si. A aula é bem conduzida por um coach da nova geração da casa. Com canos de PVC, começamos simulando o complexo exercício de levantamento que estava por vir. No meio do caminho, acionamos cada músculo adormecido dos nossos corpos para dar conta de agachar e erguer pesos com mais eficiência. Na parte final, misturamos tudo isso com corridas em alta velocidade, séries de remadas e exercícios que deixariam nossos abdominais latejando por dias. Tudo com uma roupagem divertida: uma corrida/gincana em duplas. Saio de lá contente, dolorido e com uma sensação: daria uma chance ao CrossFit como preparação física intensa para algum esporte específico – o que, talvez, ainda faça na vida.

No centro dos holofotes, o CrossFit sacudiu mesmo este verdadeiro vespeiro: os paradigmas do mundo do condicionamento. De tempos em tempos, alguém precisa fazer isso. E o que se vê nos boxes por aí deixa a sensação de que muita gente ainda vai se aproximar para experimentar. Se o método vai dar conta de equilibrar demanda com qualidade, só os próximos anos vão dizer. Por enquanto, ele segue mantendo o discurso de dono de várias respostas quando as perguntas estão ligadas a treinamento. E, adivinhe, as pessoas querem respostas.

Por mais que um dos mantras dessa busca seja “Deixe seu ego do lado de fora do box”, frase disseminada por treinadores e escrita nas paredes de alguns espaços, na prática, isso é um desafio bem maior. Em um extremo dessa história (e os extremos são ambiente fértil para dar luz a estereótipos), surge uma linguagem própria e com ar de superior, como se o método fosse solução para tudo. Começo a observar que é isso que nutre algumas críticas ao CrossFit.

De volta à real

Pois é, a vivência me trouxe esse turbilhão de informações na cabeça. Se você chegou até aqui, hora de uma merecida pausa para respirar fundo. No meu caso, é mesmo necessário: escrevo estas próximas linhas pouco tempo depois de completar mais um WOD caprichado. 50 Lunges; 40 Kettelbell Swings; 30 Box Jumps; 20 Snatches; 10 Burpees. Outras 12 pessoas faziam o mesmo no box. Enquanto digito, percebo os benefícios do massacre. Sentimento de missão cumprida. Minha mente flui mais solta. E meu corpo, silenciosamente, vai se recompondo em um processo que me deixa mais bem preparado para a próxima.

Depois de 30 treinos, comecei a dominar os exercícios do CrossFit. Mas ainda não me sentia parte da tribo.

Na parte final dessa imersão, me sinto mais adaptado. Deixo para trás o protocolar “Há quanto tempo você treina? Está gostando?” para tentar cavar mais fundo. Encontro boas parcerias de conversas com gente experiente na área, entre coaches, donos de box e atletas. Com a mesma naturalidade que alguns deles me pedem centenas de saltos de corda, solto ideias que me vêm à cabeça. Tento instigar respostas menos óbvias como a clássica “minha vida mudou”. A tática funciona. Vários crossfiteiros e crossfiteiras mais rodados não têm nenhuma cerimônia em analisar e criticar algumas práticas espalhadas por aí. Dos exageros de novatos querendo impressionar à falta de tato de alguns coaches para conduzir evoluções pessoais em aulas com tanta gente.

Depois do WOD

A essa altura, com pelo menos três dezenas de WODs completados (ou o mais perto disso que minha condição física permitia), eu já entendia melhor a linguagem ao redor. Terminava as aulas em grupo satisfeito, afinal, tinha dado o meu melhor. Ainda assim, não me sentia parte da tribo. Eu definitivamente me identifico mais com os esportes outdoor e enxergo o CrossFit como um meio e não como um fim. Por isso, decidi que não seguiria com os treinos, mesmo tendo sentido os resultados no corpo, que ficou mais forte e definido.

No fim dessa experiência, fiquei com mais perguntas que certezas. Cada vez mais procurado, como o CrossFit vai passar por mais essa intensa bateria de testes? Qual influência os Games (e a presença brasileira na elite) vai exercer nos coaches e praticantes amadores? O próprio CrossFit, quase 20 anos após sua criação, vai se permitir questionar mais a si mesmo, colaborando para a evolução do universo da preparação física? Também indago lances mais pessoais. O que aconteceria se investisse nisso no longo prazo? Ou ainda: qual será o futuro dos meus companheiros e companheiras de suor? Vão desistir logo ou seguirão firmes?

Depois de todas essas dúvidas passarem voando pela minha mente, tudo se silencia quando piso novamente no box. Entro no “modo treino” e me concentro nas duras tarefas que estão me esperando na próxima hora. Tenho um estalo repentino, e vejo que tudo isso à minha frente só faz sentido se eu puder mesmo aproveitar na vida fora da “caixa”.

Em um breve momento de distração, observo o dia ensolarado que faz lá fora – como eu queria estar subindo uma montanha ou pegando uma onda… Não há comparações aqui. O que interessa é o que (e como) isso mexe com cada um de nós. Ao que parece, só funciona de verdade se estivermos nos divertindo. O que inclui, em alguns momentos, sofrer.

Bom, é melhor eu encontrar rápido a sintonia certa da diversão. Pelo menos nos próximos 15 minutos. É o que diz o cronômetro lá no alto do box e o rosto do coach. Meus músculos e meus pulmões já estão queimando e ainda tenho centenas de saltos na corda, levantamentos, agachamentos e burpees a cumprir. Em vez de chorar, acho melhor sorrir. E começar a contar. 1, 2, 3…