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Futebol: A regra não é clara

¿Não é verdade que as regras do futebol sejam estáticas¿, diz o ex-árbitro brasileiro Emídio Marques de Mesquita, atualmente instrutor de arbitragem da Fifa.

Celso Unzelte

Em 26 de outubro de 1863, 11 adeptos de um estranho jogo praticado somente com os pés se reuniram na Freemason’s Tavern, em Londres. Naquela noite, além de beber, eles tinham três objetivos: separar definitivamente o futebol do rúgbi, esporte jogado também com as mãos; fundar a The Football Association; e estabelecer as bases das 17 regras que regem o futebol até hoje. Por mais que tenham mudado as regras, desde aquela histórica reunião no pub londrino a essência do jogo pouco mudou.

“Não é verdade que as regras do futebol sejam estáticas”, diz o ex-árbitro brasileiro Emídio Marques de Mesquita, atualmente instrutor de arbitragem da Fifa. “O que acontece é que elas mudam com critério, porque o sucesso do futebol está justamente em sua simplicidade.” Como Mesquita, a maioria das pessoas com poder de decisão no esporte mais popular da Terra defende a tese de que “em time que está ganhando não se mexe”. Assim – e com medo de perder uma popularidade que jamais foi alcançada pelos esportes em constante mutação, como o vôlei ou o basquete –, o futebol prefere não mudar. Ou mudar muito pouco.

Não é nada fácil emplacar revoluções em um esporte no qual toda decisão nesse sentido cabe a uma só entidade, a International Board. Criada em 1886 (antes, portanto, da própria Fifa, que é de 1904), a Board se reúne todos os anos em países diferentes para disciplinar e, eventualmente, alterar as regras do jogo. São 20 integrantes com direito a oito votos. Os países do Reino Unido, onde surgiu o futebol (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales), são representados por 16 delegados, mas têm direito a apenas quatro votos. Já os votos da Fifa, por intermédio de seus quatro representantes, são unitários, valendo, portanto, os outros quatro. Para qualquer regra ser modificada, são necessários dois terços do total – ou seis entre esses oito votos. A idéia de que a Board é composta por um bando de velhinhos avessos a mudanças não passa de um mito. Um dos seus membros, por exemplo, o secretário-geral da Fifa, o suíço Michel Zen-Ruffinen, tem apenas 40 anos de idade.

O maior motor para mudanças tem sido a queda na média de gols por jogo, que parecia inexorável até 1990 (ano da pior média em Copas, apenas 2,2 por partida), mas que vem sendo revertida desde então, graças a detalhes como limitar a 6 segundos o tempo que o goleiro pode gastar com a bola nas mãos, ou proibir o recuo para o goleiro com os pés. O aumento do número de gols enterrou por ora idéias radicais, como o aumento da largura e da altura das traves (de 7,32 para 7,75 metros e de 2,44 para 2,60 metros, respectivamente). Como várias outras ao longo do tempo, a sugestão acabou arquivada. “É que as atuais medidas dos gols têm sua razão de ser”, defende, uma vez mais, Emídio Mesquita. “Elas derivam do tamanho original do portão da escola de Cambridge, onde o futebol começou a ser praticado. Além disso, correspondem às medidas exatas para tornar a bola defensável por uma pessoa de estatura média.”

Nos últimos anos, em relação ao campo foram acrescentados apenas detalhes cosméticos (“Os postes devem ser pintados na cor branca”, de 1988) ou óbvios (“As metas deverão ser fixadas firmemente no solo”, de 1994).

O número de jogadores é outro assunto tabu. Os tradicionais 11 de cada lado foram estabelecidos pelos ingleses a partir de 1870. Uns dizem que em homenagem ao número de participantes da reunião de 1863. Outros garantem que esse era o máximo de jogadores possível de reunir no colégio de Cambridge, onde as classes eram formadas por dez alunos e um bedel. Seja qual for o real motivo, o certo é que esse número mágico permanece imutável há décadas. Uma das propostas da lista barrada pela Fifa entre 1993 e 1994 tentava ressuscitar a tese de que, com dez jogadores de cada lado, haveria mais espaço para o desenvolvimento do jogo. Mas fracassou.

Quanto às substituições, não existiam até meados dos anos 50 (e, em Copas do Mundo, até o final dos 60). Em caso de lesão, o jogador que conseguisse ficar de pé permanecia em campo apenas para “fazer número”. Troca de atletas em jogos oficiais, só a partir de 1958, quando a Fifa resolveu experimentar pela primeira vez (e mesmo assim somente em torneios de jovens) a troca do goleiro em qualquer momento do jogo, mais a de um outro jogador, limitada ao primeiro tempo. Em 1965, era aprovada a substituição máxima de dois atletas em jogos oficiais, restrita aos casos de contusão. As trocas independentemente do estado físico dos substituídos, que deram aos técnicos maior liberdade para mudar a tática durante as partidas, só foram regulamentadas em 1968. As substituições, na época duas, passaram a ser três a partir de 2 de março de 1994, desde que um dos substituídos fosse o goleiro. Em 1996, os três substituídos já podiam incluir o goleiro.

Manguinhas de fora

À exceção dos ditames da moda, que aumentam e encurtam calções e modificam o design de golas e mangas das camisas, não ocorreram muitas novidades na indumentária dos atletas. Em 1989, desapareceu das regras a expressão “chuteira”, passando a ser exigido apenas um calçado qualquer. No ano seguinte, por questão de segurança, tornou-se obrigatório o uso de caneleiras. A Fifa passou, também, a exigir que o “calção térmico” usado pelos jogadores para aquecer os músculos tivesse a mesma cor do calção. As camisas sem mangas, utilizadas pelos jogadores de Camarões durante os jogos da Copa da África de 2002, estão proibidas pela Fifa para esta Copa.

O árbitro e os bandeirinhas já marcavam presença desde 1867, em alguns jogos do Cheltenham College, na Inglaterra. Mas só foram oficializados em 1868. Dez anos depois, o árbitro ganhou um apito, utilizado pela primeira vez em um jogo entre Nottingham Forest e Sheffield Norfolk. Em 1891, passou a poder apitar de dentro do campo. Nesse item, a utilização experimental de dois juízes tem sido a maior novidade. Ou nem tanto, pois as primeiras experiências, realizadas na Inglaterra, datam de 1935.

Câmera indiscreta

A introdução de elementos que ajudassem o juiz em sua árdua tarefa, como o spray de espuma que vem sendo utilizado no Brasil para demarcar o local em que a barreira deve ficar na cobrança de uma falta, não tem sido vista com bons olhos pela Fifa. Também não agrada à entidade a proposta de usar recursos tecnológicos, como câmeras de vídeo, para auxiliar o árbitro na marcação de lances duvidosos, como pênaltis e impedimentos. Coerente com essa argumentação, a Fifa aprovará o uso de câmeras dentro das redes durante a Copa do Mundo, mas apenas para melhorar a transmissão de TV: elas não poderão ser usadas pelo juiz para checar se uma bola entrou ou não.

Futebol são 90 minutos desde 1877, ano em que os ingleses resolveram pôr fim à bagunça. Antes disso, jogava-se durante os mais variados períodos de tempo. No Brasil, essa regra demorou para “pegar”. Inexplicavelmente, até os anos 30 os jogos tinham dois tempos de 40 minutos! Os acréscimos também demoraram a entrar nas regras. Por incrível que pareça, somente em 1987 o árbitro recebeu orientação formal para acrescer a cada período de jogo alguns minutos para compensar paralisações.

Tentativas de dividir o jogo em quatro tempos de 25 minutos, como acontece no basquete americano, são cogitadas de tempos em tempos, a última vez pouco antes da Copa de 94, realizada nos Estados Unidos. Isso facilitaria a veiculação de mensagens comerciais nos intervalos, mas até hoje a idéia não vingou. O tempo técnico solicitado pelos treinadores para orientar os times durante as partidas, testado em 1995 durante a Copa do Mundo feminina da Suécia, o Mundial Masculino Sub-17 e o Campeonato Paulista, também não foi aprovado. Em vez de favorecer a equipe orientada, ele acabou sendo usado para esfriar o adversário.

Uma das regras mais polêmicas do jogo, o impedimento, existe desde 1867. E já foi pior: no início, exigiam-se três e não dois adversários entre o jogador que recebesse a bola e a linha de fundo no momento do passe. A exigência de dois – e não mais três – adversários para dar condição de jogo ao atacante data de 1925.

Em 1990, aconteceu a última alteração significativa do impedimento: o jogador que se encontra na mesma linha do penúltimo adversário, no momento do lançamento, ganha condição de jogo. No Mundial Juvenil de 1991, na Itália, foi testada uma zona de impedimento traçada de lado a lado do campo, a 16,50 metros do gol. Na prática, isso eliminou o futebol nas duas áreas.

A distância mínima de 10 jardas (9,15 m) para o posicionamento dos adversários nas cobranças de faltas é prevista pelas regras desde 1913. Mesmo assim, ainda hoje os árbitros têm dificuldade para conter o avanço da barreira. Tanto que tem sido testada na Inglaterra a repetição progressiva das cobranças, sempre a partir do local em que a barreira deveria estar no lance original. Uma alteração que vem ganhando simpatia na Fifa, mas que deverá ser oficializada somente em 2003.

Parece incrível que, pelas regras, agressões explícitas, como cuspir no adversário, tenham passado a ser consideradas conduta violenta somente a partir de 1980. Mas, no tocante à disciplina, a Fifa tem mexido pouco – e bem: impedir o atacante com jogo brusco (1990) ou tocar a bola com a mão impedindo oportunidade clara de gol (1991) passaram a ser casos de expulsão.

No entanto, no capítulo penalidades ninguém tem sofrido mais que o goleiro. Até 1912, ele estava autorizado a pegar a bola com as mãos em qualquer parte do seu campo. Podia, também, dar três passos com a bola nas mãos, que, em 1915, passaram a ser quatro. Em 1998, permaneceu a ameaça de cobrança de falta em dois toques no caso de um sobrepasso, agora dentro de um tempo-limite de 6 segundos. Somente a partir de 2000 o goleiro passou a poder dar quantos passos quisesse, desde que repondo a bola dentro desse período de tempo. Isso tudo depois de, a partir de 1992, ele ser proibido de pegar com as mãos as bolas propositalmente recuadas pelos companheiros com os pés. Essa mudança aumentou da noite para o dia o tempo de bola em jogo.

Até 1891, o pênalti não existia. Ele foi sugerido por um irlandês, chamado William McCrum, e aprovado pela Fifa, depois que o zagueiro Hendry, do Notts County, evitou o gol do empate do Stoke City tirando com a mão uma bola em cima da linha. Era o último minuto da decisão da Copa da Inglaterra daquele ano, e a falta, cobrada a poucos centímetros do gol (como mandava a regra na época), deu em nada: o goleiro do Notts ficou postado na frente da bola e defendeu-a com facilidade. Ficou claro, ali, que alguma coisa tinha que ser feita. No início, o pênalti era batido de qualquer ponto a 11 metros do gol.

As áreas, como as conhecemos hoje, inclusive com a marca do penal, foram criadas em 1902. Em 1937, surgiu a meia-lua, que serve para delimitar a distância (as famosas 10 jardas, ou 9,15 m) que os jogadores (tirando goleiro e cobrador) devem respeitar na hora do pênalti.

A idéia de cobrar o arremesso lateral com os pés, tantas vezes lembrada, foi testada (e reprovada) durante o Mundial Sub-17 disputado no Japão em 1993, e até virou regra na Segunda Divisão belga. Mas ninguém ficou a favor. A cobrança dos laterais com os pés praticamente eliminava o desenvolvimento do futebol no meio-de-campo.

Em seu encontro mais recente, realizado na Suíça em março passado, uma vez mais o International Board, preferiu tratar apenas de assuntos menores, liberando, por exemplo, tirar a camisa para comemorar um gol. Da primeira regra, que diz respeito ao campo de jogo, à 17ª, que se refere ao escanteio, o futebol continua o mesmo: um esporte que evolui, mas bem devagar.

Frases

Uma proposta para aumentar o número de gols é… aumentar a altura e a largura dos gols

O árbitro apareceu em 1867 – o apito, dez anos depois. Em 1891, ele pôde enfim entrar em campo…

Em 1863 era assim…

Dizem que as regras do futebol nunca mudam. Mas quando comparamos as 13 “leis” originais estabelecidas pela Football Association com as de hoje, vemos que não é bem assim…

O uniforme

As regras originais proibiam sapatos com pregos. Tirando isso, nenhuma restrição

As traves

Não havia travessão. Dois postes marcavam o gol. A bola podia entrar a qualquer altura

Impedimento

Todo jogador à frente da linha da bola estava impedido

A bola

Qualquer tamanho e formato eram permitidos. Só em 1883 as dimensões foram definidas

Mão na bola

Era permitido segurar uma bola chutada para o alto (mas não era permitido correr ou passar com ela nas mãos). A regra não falava em goleiro

Juiz

Não havia. Os capitães dos dois times tinham que se acertar

O campo

O limite máximo era quase o dobro do atual. Não havia demarcação. Bandeirinhas já marcavam os quatro cantos

O número de jogadores

Nenhum limite era previsto (mas o mais comum já era jogar com 11)

… E em 2063 pode ser assim

A partir de algumas das idéias atuais, podemos imaginar como o futebol será no ano em que se comemora o bicentenário da Football Association

Número de jogadores

Há quem defenda a redução de 11 para 10, para dar mais espaço aos jogadores talentosos

Lateral

A cobrança com os pés já foi testada em alguns países

O campo

Deve continuar com os 110 x 75 m atuais: mexer nisso exigiria mudar estádios do mundo inteiro

Cartão azul

Tiraria um jogador de campo durante alguns minutos apenas

Impedimento

Uma linha de lado a lado do campo, na altura da linha da grande área, vem sendo testada

Juiz

Experiências com dois árbitros têm sido cada vez mais freqüentes

Trave

Muita gente propõe aumentar os gols, para dificultar a vida dos goleiros. Não deixem o Romário saber

Televisão

Câmeras dentro dos gols e por toda parte poderiam mudar decisões do juiz

Bandeirinhas

Já podem entrar em campo para ajudar o árbitro. Devem aumentar seu papel

Uniforme

Nos EUA, já se usam capacetes em torneios infantis