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Garanta um futuro bem nutrido, com sais minarais e vitaminas

Lúcia Helena de Oliveira

Sais minerais e vitaminas evitam doenças sim. Mas não há provas de que possam curar males já existentes ou atenuar sintomas. O ideal é comer frutas e vegetais desde a juventude e muitas vezes apelar para suplementos com a supervisão de um especialista em Medicina Ortomolecular, área que reúne cientistas da pesada, apesar de muita gente ainda torcer o nariz.

Esqueça aquela noção de que um punhado de cápsulas coloridas pode sozinho nos livrar do câncer, do enfarte e de todo mal. Além de, claro, garantir uma saúde de ferro a sexagenários. Apague essa idéia. Mas também abandone a imagem distorcida do médico ortomolecular divulgando conceitos imprecisos para atrair gente que engole qualquer coisa na vã esperança de ser eternamente jovem. Não é nada disso. Ou não deveria ser.

“O especialista sério não faz falsas promessas. Nem abusa de suplementos”, esclarece o médico paulista Guilherme Deucher que, entre os dias 20 e 22 de março deste ano, presidiu em São Paulo o Quinto Simpósio lntemacional de Medicina Ortomolecular. O prefixo orto vem do grego e quer dizer exato, normal. Assim, essa é a área médica que busca equilibrar as moléculas do corpo, não deixando faltar ou sobrar substâncias essenciais. Para isso, ela não dispensa a dupla vitarninas e sais minerais.

A polêmica do caroteno

Mas será que frutas, vegetais e suplementos podem mesmo evitar doenças? Os quase 1 000 participantes do evento, entre eles 30 professores de alguns dos melhores centros de pesquisas do mundo, acreditam que sim. A discussão é se, depois de um bom prato de comida, as pessoas ainda precisariam de comprimidos de nutrientes. Para a médica Ingrid Emerit, diretora do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) na França, “as cápsulas só são indicadas quando há provas de um excesso de radicais livres no paciente.” Os radicais livres são moléculas nocivas produzidas quando respiramos. Alguns nutrientes e extratos de plantas são chamadas antioxidantes porque podem combatê-los. O corpo fabrica um estoque de enzimas com a mesma função. No entanto, seu mecanismo de proteção natural não dá conta sozinho. “Nunca o homem viveu tanto para acumular tantos estragos feitos pelos radicais”, explica o professor americano Denham Harman, da Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos.

No entanto, uma surpreendente pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (NIC), nos Estados Unidos, terminou há quatro meses com seus 18 314 voluntários advertidos para nunca mais engolirem suplementos, especialmente os de beta-aroteno. Essa susbtância é uma espécie de vitamina A desmontada que o corpo só monta quando tem necessidade. Senão, elimina suas sobras, o que não faz com a vitamina A, altamente tóxica. “Os médicos estão deixando de receitar vitamina A, mesmo em doses baixas”, conta o cardiologista e ortomolecular paulista Ronaldo Leão Abud.

Contra a vitamina A

Metade desses voluntários americanos passaram os últimos quatro anos tomando 30 miligramas de beta-caroteno e 25 000 UI (unidades internacionais) de vitamina A. A outra metade recebeu comprimidos falsos. “O beta-caroteno pode aumentar 28% a chance de câncer no pulmão,” conclui o diretor do NIC, Peter Greenwald, à SUPER. Mas há quem o critique. Lester Parker é um deles. Professor da Universidade da Califómia, nos Estados Unidos, Parker dispara: “Os voluntários tinham entre 50 e 69 anos. E as vitaminas só previnem tumores com o uso prolongado, desde a juventude, se possível.” Além disso, os participantes fumaram mais de um maço de cigarro por dia durante vinte anos. “O tumor pulmonar é lento e, com tanta fumaça, uma célula cancerosa talvez já estivesse presente antes de o estudo começar”, diz Parker.

O que mais assusta, porém, é a parceria com a vitamina A. Os americanos usaram uma dosagem cinco vezes maior do que a recomendação diária. As sobras de cada dia podem ter se acumulado perigosamente. O excesso dessa substância pode causar problemas musculares ou danos graves no fígado. E, pior, câncer.

Má nutrição pode causar doença mental

É um achado recente: “Encontramos mais radicais livres em relação ao normal no cérebro de idosos. Também descobrimos mais gorduras modificadas pelos radicais”, revela o bioquímico inglês Peter Evans, que dá aulas na Universidade de Glasgow, Escócia. Isso indica que o sistema nervoso dos indivíduos mais velhos é um dos principais cenários dessas moléculas agressivas (veja infográfico ao lado). Segundo Evans, com a idade os neurônios parecem susceptíveis a danos. “Eles são alongados e, portanto, têm uma superfície maior para entrar em contato com o radical.” É por isso que as doenças mentais são avassaladoras na terceira idade. Cerca de 25% dos cidadãos acima de 80 anos nos Estados Unidos e na Europa são dementes. “Existem menos nutrientes no organismo deles”, observa Evans.

Saber o que chega no cérebro

A desnutrição dos idosos pode ser causada pelas condições sociais, mas também por falta de apetite e dificuldade de mastigação.” Para o bioquímico Etelvino Bechara, da Universidade de São Paulo, o problema pode aparecer em qualquer idade. “Noto a carência de antioxidantes em quem tem problemas psíquicos, como os maníacos-depressivos”, conta. “Só acho cedo para falar se o uso antioxidantes ajuda nesses casos. Não sabemos a quantidade deles que chega no cérebro.”

Atualmente, Evans e seus colegas de laboratório na Escócia se dedicam à demência do mal de Azheimer. Na massa cinzenta das vítimas encontram-se placas que interessaram o pesquisador. “Elas são de silicato, substância comum nos trabalhadores de minas de carvão, que estudo há mais de trinta anos”, conta. A equipe britânica demonstrou que as tais placas são formadas por uma inflamação crônica de certas células cerebrais. E hoje existe a certeza de que todas as doenças crônicas são fontes de radicais livres.

Quando doses extras são a melhor tática

Câncer, osteoporose, catarata, hipertensão são exemplos de moléstias mais freqüentes em quem envelheceu e nenhum cientista afirma que comer saladas e se entupir de suplementos possa curá-las. Mas as estatísticas apontam uma relação entre consumo prolongado de vitamina E e baixo risco de câncer. Já o beta-caroteno é excelente na prevenção das cataratas. “A questão é que as pessoas erram ao pensar que se um faz bem, quatro deve fazer melhor, e passam a tomar megadoses”, diz o médico americano Lester Parker.

“Se alguém está muito deficiente em um mineral”, explica Ronaldo Abud, “eu não tenho outra sáída a não ser dar uma dosagem acima do usual até esse indivíduo recuperar a normalidade.” Inúmeros fatores ambientais, como sol e poluição, além da dieta, são levados em consideração antes de se receitar as doses de antioxidantes.

Boa parte da vitamina C da comida é anulada pelo cigarro. “Fumantes precisam de um reforço dessa substância. Isso não afasta o risco do câncer, mas ajudar o organismo a funcionar bem “, diz a bioquímica Marisa Medeiros, da Universidade de São Paulo. A falta de vitamina C é uma das explicações para a incidência de aterosclerose, as placas de gordura nas artérias, comuns nos fumantes. Pois, dentro dos vasos sangüíneos, a vitamina C, a E e uma família de moléculas protetoras chamadas fenóis (presentes nas uvas vermelhas), formam uma barreira para impedir a reação dos radicais com o colesterol (veja infográfico à direita).

Radicais dão alarmes falsos

“Depois da reação, elas se depositam com facilidade nas paredes das artérias, criando placas que crescem até o sangue não conseguir passar”, explica o bioquímico cearense Hugo Monteiro, da Fundação Pró-Sangue, em São Paulo. Monteiro passou dois anos na Universidade de Nova York, nos Estados Unidos. Lá, estudou o papel dos radicais como sinalizadores, ou seja, mensageiros químicos.

Nas inflamações, por exemplo, muitas células de defesa usam radicais livres para o bem. Eles são a arma que destrói o causador do problema. Mas às vezes as células defensoras exageram no contra-ataque e sobram radicais. Eles enviam a mensagem para outros locais do corpo fabricarem mais parceiros radicais. “Talvez por isso é que existe uma incidência maior de doenças degenarativas em quem sofre de inflamações crônicas”, nota Monteiro.

Um suicídio coletivo

O bioquímico americano Joe McCord, da Universidade do Colorado, trabalha com algo parecido. No caso, um fenômeno chamado apoptose, comparável a um suicídio celular. A presença do pesquisador foi uma das mais badaladas no simpósio. Em 1969, ele e outro bioquímico americano, Irwin Fridovich descobriram o seguinte: quase todos os seres que respiram sintetizam enzimas para se livrar dos radicais livres, formados a partir de 2% a 5% do oxigênio absorvido. Na época não havia provas de que os radicais causavam encrencas no organismo. Mas se ele fabricava enzimas defensoras, era sinal de que essas moléculas eram uma ameaça.

McCord contou à SUPER que anda de olho em sistemas imunológicos debilitados, como o dos aidéticos. O HIV prefere células destrambelhadas que facilitam sua invasão. O primeiro passo do vírus da Aids é induzir a formação de milhões de radicais no sangue. Em seguida, aniquila uma enzima antioxidante de nome complicado, a superóxido-dismutase. Sem ela, indefesos, os linfócitos se suicidam. “Sabemos que a queda do sistema imune é muito maior que o número de células infectadas. O suícidio de células sadias, sem o HIV, é a justificativa”, fala o bioquímico que defende muita verdura, frutas e suplementos para os portadores do vírus.

Muita defesa não é bom

A Síndrome de Down exige os mesmos cuidados. As vítimas herdam um terceiro cromossomo número 21, quando o normal é ter apenas um par de cada um dos nossos 23 cromossomos. “O 21 é aquele que carrega a receita genética da superóxido-dismutase, o antioxidante natural”, explica o ortomolecular paulista Wagner Fiori. “Com o cromossomo extra, o corpo fabrica uma quantidade maior da substância protetora.” Essa enzima faz o serviço pela metade, transformando o radical de oxigênio em água oxigenada. É outra enzima, a catalase, que completa o trabalho, transformando água oxigenada na inofensiva água pura. E como a quantidade de catalase continua nor mal, ela não faz toda a água oxigenada, produzida pela outra enzima, virar água. A água oxigenada que não foi eliminada tromba com uma molécula de ferro e se transforma no mais agressivo dos radicais, um tipo chamado hidroxila. “Ele causa do envelhecimento acelerado da síndrome”, afirma Fiori.

O uso controlado de anitioxidantes não oferece riscos. O Ginkgo biloba, por exemplo, só causa náusas em doses muito acima do normal. Idem a vitamina E, acusada de provocar hemorragias. A vitamina C, por ser um ácido, pode afetar o estômago de alguns pacientes. O diffcil é saber qual antioxidante é melhor em cada caso e qual a dose necessária. Os pesquisadores ortomoleculares estão nesse estágio.

Os radicais ameaçam levar todo mundo à loucura

O radical livre surge quando o oxigênio da respiração ganha um elétron a mais por acidente e sai assaltando outras molécula. A estratégia é a mesma em todo o corpo. No cérebro, ela causa demências. Entenda essa ação nefasta.

1 Pequena instável

O radical livre é uma molécula cujos átomos têm um número ímpar de elétrons ou partículas negativas. Ele precisa recuperar um elétron a qualquer preço.

2 Efeito dominó

O radical rouba o elétron de uma molécula por perto. Mesmo assim, não volta a ser o mesmo. Por sua vez, a molécula que perdeu um elétron logo sairá roubando.

E suas vítimas poderão estar na célula

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nervosa ou neurônio.

3 Início do caos

Na superfície do neurônio, o radical ataca uma de suas moléculas. Ela atacará a sua vizinha e assim por diante. São 1 000 roubos de elétrons por segundo.

4 Perigo maior

As reações fazem a membrana ficar frágil e flácida. Os radicais se aproveitam da situação para entrar no neurônio. Ali são capazes de estragos tremendos.

5 Alvos prediletos

Um dos objetivos do invasor é o núcleo, onde fica o DNA com as informações genéticas. O outro é a mitocôndria, que extrai a energia do oxigênio.

6 Sem proteção

O neurônio não transmite direito suas mensagens nervosas. Com o tempo, ele próprio produz radicais livres. Os estragos acumulados causam distúrbios ligados ao envelhecimento. No caso do cérebro, surge a perda de memória, a depressão, o Mal de Parkinson e diversos tipos de demências, como a doença de Alzheimer.

7 Tática de emergência

Os suplementos de antioxidantes não curam o mal já existente, ainda que sem sintomas. Mas é provável que moléculas de vitaminas C e E retardem o avanço da doença, o que não é o ideal, mas já é alguma coisa.

8 Bem protegido

O ideal é o indivíduo ter, desde a juventude, um bom nível de antioxidantes. Eles formam verdadeiras barreiras contra os radicais, impedindo que avancem desde os primeiros ataques.

Uma eterna explosão dentro do corpo

Na madrugada de 25 de abril de 1986, a maior usina nuclear da ex-URSS não conseguiu controlar um vazamento. Era Chernobyl, lançando uma nuvem carregada de elementos radioativos. Trinta de seus operários vêm sendo acompanhados nesses dez anos pela médica alemã, radicada na França, Ingrid Emerit. Duas vezes por ano eles fazem exames de sangue atrás de pistas preciosas, os fatores clastogênicos, uma mistura de pedaços de células bombardeadas pelos radicais livres formados no momento do acidente.

Esses fatores aumentam durante dois meses, quando se estabilizam em níveis perigosos. A médica apostou no extrato de Ginkgo biloba para fazê-los baixar. “Essa planta de origem asiática foi selecionada com cuidado, graças a seus poderes antioxidantes”, conta. Durante três meses, os pacientes tomam o extrato. Os níveis de clastogênicos diminuem, sinalizando que a quantidade de radicais no organismo voltou ao normal. O efeito dura cerca de um semestre e daí o ataque recomeça. “Então, a gente receita o extrato de novo. Vai ser assim para a vida inteira”, afirma a cientista (veja infográfico abaixo).

Os efeitos da radiação crescem feito uma bola de neve

1 Logo depois

Os radicais livres surgem assim que alguém recebe a radiação. Eles arrasam as células e pedaços delas são notados na circulação passados quinze minutos

2 Para sempre

Os restos celulares, chamados de fatores clastogênicos, geram mais radicais, que arrasam mais células. O ciclo é temporariamente interrompido com antioxidantes.

A gordura cai onde não deve

Os cardiologistas estão seguros de que a dupla vitamina E e A forma uma barreira que não deixa o colesterol se depositar nas artérias.

1 Nem tão vilão

Com fama de bandido, o colesterol de baixa densidade (também conhecido por LDL) a princípio é mocinho. Ele vai até o fígado para ajudar a digestão de gorduras.

2 Por acidente

O grande problema é quando o LDL na circulação sangüínea tromba com um radical livre pela frente. Então, os dois reagem no mesmo instante

3 Com uma cara nova

Depois da reação, o colesterol fica alterado. É o chamado LDL oxidado que, em si, não faz mal. O problema é que se deposita com facilidade nas artérias.

4 Jeito estranho

No sangue, o LDL modificado cruza com células de defesa chamadas fagócitos. Elas o engolem, pois esse é o seu tratamento para qualquer estranho no corpo.

5 Estouro fatal

O fagócito não pára de comer LDL até que, de tão cheio, estoura. Seus pedaços se depositam em eventuais lesões, criando as temidas placas nas artérias.

6 Melhor saída

Vários antioxidantes ajudam a evitar as placas. Os mais conhecido é a vitamina E, que forma uma barreira contra os radicais. Já a vitamina C conserta as lesões nos vasos sangüíneos.