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Grandes cidades. Parados e sufocados

Ivonete D. Lucírio

Com a chegada do inverno, a poluição do ar nas grandes cidades brasileiras aumenta assustadoramente por causa da inversão térmica, fenômeno que faz com que os poluentes não se dissipem. A maior culpada pela sujeira é a gigantesca frota de veículos, que emite nove vezes mais substâncias tóxicas do que as indústrias. Com o trânsito parado, tudo fica pior. Por isso foi proposto que São Paulo, a maior metrópole do país, adotasse, a exemplo de outra megalópoles do mundo, o rodízio de carros, com o objetivo de tirar 20% de automóveis das ruas e diminuir o sufoco.

Em Cingapura, sai caro rodar a semana inteira

Há 100 anos, quando o americano Henry Ford começou a produzir carros em série, ninguém imaginava a dor de cabeça que as longas filas de automóveis iriam provocar no futuro. Em São Paulo, a maior cidade brasileira, onde circulam cerca de cinco milhões de veículos, a média de congestionamento nos horários de pico é de 100 quilômetros. Como se não bastasse o tempo perdido, o amontoado de carros parados joga no ar toneladas de gases e partículas químicas. Quando a velocidade de 30 quilômetros por hora diminui para 20 quilômetros horários, por exemplo, o consumo de combustível mistura cerca de 30% a mais de substâncias tóxicas no oxigênio que se respira.

Foi para conter esse mar de escapamentos que, em 1983, Atenas, capital da Grécia, e Milão, no norte da Itália, em 1990, adotaram o rodízio de automóveis. A cada dia da semana um determinado número de carros é obrigado a ficar na garagem. Mas o programa que inspirou diretamente os ambientalistas brasileiros é o de Santiago do Chile. Ele começou em 1989 e funciona de maio a novembro, época de frio lá também. O rodízio chileno causa a redução de 15% no trânsito e de 30% na poluição.

O “jeitinho mexicano”

Na Cidade do México, o rodízio vigora o ano todo, sem interrupções. A frota total, de 2 milhões de veículos, nem é tão grande, mas a poluição continua porque a região metropolitana está a 2 100 metros de altitude, dificultando a dispersão da fumaça em qualquer época do ano. Lá, quando a situação piora, os carros são impedidos de circular até dois dias por semana. Tudo estaria sob controle se parte da população não tivesse encontrado um “jeitinho mexicano”. As pessoas compram outro automóvel, geralmente mais velho, e por isso mais poluente, com final de placa diferente para usar nos dias em que o veículo principal fica parado.

Em Cingapura vigora outro sistema. Há placas que são válidas apenas para os fins de semana e custam menos que as usadas todos os dias. A fiscalização é feita pela cor das chapas. A preocupação se deve à densidade populacional. São 2,8 milhões de cingapurianos vivendo em apenas 633 quilômetros quadrados. É como se toda a população da região metropolitana de São Paulo tivesse que circular na metade do espaço que tem. Nas cidades alemãs de Bremen e Berlim, outra alternativa foi implantada há pouco mais de um ano. Empresas privadas criaram o serviço de stadtauto, ou carros municipais. Por uma taxa de inscrição de 150 dólares e uma mensalidade de 15, o cidadão telefona para uma central e fica sabendo onde está o stadtauto mais próximo. Com um cartão magnético, retira a chave e sai rodando.

Brasil criou o diesel metropolitano

Os poluentes jogados pelos veículos são sobras da queima de combustível. Para garantir que os automóveis, caminhões e ônibus saiam da fábrica emitindo o mínimo de substâncias nocivas à saúde e ao meio ambiente, em 1987 foi criado um programa que, gerenciado pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) de São Paulo, avalia os novos modelos lançados no mercado. Mas a quantidade de poluentes também depende do tipo de combustível (veja o infográfico à direita).

Coquetéis alternativos

O álcool polui menos e, por isso, desde 1980 é adicionado à gasolina que é vendida no Brasil. A que se encontra nos postos é uma mistura de 78% de gasolina e 22% de álcool. Em 1990, surgiu em Porto Alegre o “diesel metropolitano”, uma mistura de combustíveis que hoje é comum em todas as grandes cidades do país. “O petróleo importado tem alto teor de enxofre. O brasileiro é melhor”, explica o engenheiro mecânico Antenor Pacheco, da Secretaria de Meio Ambiente de Porto Alegre. “Por isso pressionamos a Petrobrás para fazer um composto do diesel importado com o nacional. O teor de enxofre baixou de 1,1% para 0,5%”. Em janeiro deste ano, o uso de outro combustível “limpo”, o gás natural, utilizado apenas por taxistas desde 1991, foi liberado para o resto dos proprietários de veículos.

Assim como São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre também sofrem com a poluição do ar por causa da inversão térmica no inverno. Nas outras estações, o sol aquece a superfície, que por sua vez esquenta a camada de ar acima dele. “Menos denso, esse ar sobe, carregando os poluentes”, explica o químico Cláudio Alonso, da Cetesb. No inverno, o calor da terra não é suficiente para aquecer o ar. Resultado: a camada fria fica presa próxima ao chão, segurando a poluição. Outro agravante é a falta de chuvas. Como o inverno é seco no sul e sudeste brasileiro, os poluentes pairam no ar por mais tempo até se depositarem sobre prédios, casas e carros. Aí, quando a água cai, carrega os gases e partículas que estão em suspensão. É a chamada chuva ácida. “Ao contrário do que se imagina, ela não é prejudicial nas cidades e ainda ajuda a limpar o ar”, diz Alonso. O problema é quando os poluentes entram em alguma nuvem e viajam para fora da região metropolitana, contaminando mananciais de água e a produção de alimentos.

Respirar pode ser muito arriscado

Preso em um congestionamento, à beira de um ataque de nervos, você gostaria de ter um rolo compressor e passar por cima de todos os outros, certo? Certíssimo. Esse é o primeiro sintorna dos efeitos da poluição no trânsito engarrafado: a alteração de comportamento pela irritabilidade excessiva. Depois, vêm outros problemas. Os olhos começam a lacrimejar, aparece uma ligeira dor de garganta e finalmente o pigarro, produzido pelas mucosas da garganta que tentam defender o organismo produzindo mais secreção. Mas isso é só o começo.

Se o tempo de exposição à poluição for longo, o pulmão e até o coração podem ser afetados (veja infográfico abaixo). Segundo um estudo realizado pelo patologista Paulo Hilário Saldiva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, nos dias mais críticos aumenta o número de mortes por problemas respiratórios em crianças com menos de cinco anos e adultos com mais de 65. “Das crianças internadas em São Paulo com doenças respiratórias, 20% são por causa da poluição. Nos casos de morte, o índice fica entre 10 e 15%”, diz Saldiva.

Rãs como cobaias

Até rãs já foram usadas para mostrar o perigo que está no ar. Numa experiência feita há dez anos, forarm colocados filtros numa das avenidas mais movimentadas de São Paulo para coletar amostras de partículas emitidas no trânsito. O material diluído foi aplicado sobre palatos de rã, tecidos que tem cílios semelhantes ao pulmão do homem. Enquanto os cílios do anfíbio ajudam a empurrar alimento para dentro do organismo, os do pulmão empurram partículas nocivas para fora. “Pudemos constatar que o material presente no ar compromete o bom desempenho das células ciliadas, fazendo com que elas não sejam capazes de se movimentar direito”, diz Saldiva.

Como respirar passou a ser perigoso nos grandes centros urbanos, os cidadãos se defendem como podem. Em lugares como Cidade do México, Paris e Tóquio é comum ver pessoas na rua usando máscaras. Feitas de uma malha finíssima de fios de seda, elas só filtram a poeira em suspensão no ar. Para barrar os gases e partículas menores seriam necessárias máscaras semelhantes às usadas por trabalhadores da indústria química, grandes e pesadas. Elas funcionam de duas maneiras. Dentro de algumas existe um material purificador, como o carvão ativado, capaz de agarrar e prender as moléculas gasosas, impedindo que elas cheguem ao nariz. Outras são compostas por gases que reagem com as substâncias nocivas, bloqueando elementos tóxicos.

Como se forma a camada de poluição

Partículas e gases se misturam na atmosfera e voltam para perto do chão

Reações negativas

1 – Os veículos lançam cinco tipos de poluentes: monóxido de carbono (CO), hidrocarbonetos (HC), uma combinação de óxido nitroso e dióxido de nitrogênio (NOx), dióxido de enxofre (S02) e partículas sólidas (MP). 2 – Sob a ação do sol, essas substâncias se misturam com elementos do ar, como óxidos de nitrogênio (NOx) e oxigênio (O2) formando, entre outras coisas, ácido nítrico (HN03) e ozônio (03), um gás que protege a Terra dos raios ultravioleta enviados pelo Sol, mas é nocivo se for respirado. A sujeira volta para o chão 3 – lentamente atraída pela gravidade ou 4 – arrastada pelas chuvas.

Só dói quando a gente anda na rua

Dias de pico da poluição afetam várias partes do corpo.

No mundo da Lua

Dificuldade em se concentrar é provocada pela ação de monóxido de carbono e do ozônio no cérebro.

Olho de vampiro

Os olhos são vítimas das, mesmas substâncias que irritam o nariz. Os sintomas sao a vermelhidão e a ardência.

O lado mau do ozônio

Apesar de ser um escudo contra os raios ultravioletas do Sol, quando respirado, o ozônio se junta ao dióxido de enxofre e provoca dores de garganta e tosse.

Porta de entrada

O primeiro contato com os gases geralmente ocorre no nariz. Quando os óxidos nitrosos, os hidrocarbonetos e o ozônio atingem o órgão provocam principalmente coriza.

Carona perigosa

O sistema respiratório é o mais afetado pela poluição. A grande culpada é a fuligem, composta de partículas microscópicas (medindo cerca de 0,0005 milímetro) que chegam aos alvéolos pulmonares através da aspiração da fumaça. Na carona, esses grãos carregam substâncias cancerígenas, como os hidrocarbonetos, e óxidos nitrosos, que causam edema pulmonar. Essa invasão aumenta a possibilidade de acessos de bronquite e pneumonia, diminui a defesa do organismo e abre caminho para bactérias e vírus agirem com facilidade.

Pobre coração

Há suspeitas de que, com o pulmão trabalhando mal, os problemas cardíacos podem ser agravados pelo monóxido de carbono.