Clique e Assine SUPER por R$ 9,90/mês
Continua após publicidade

Já era hora: Nobel de Medicina vai para estudiosos do relógio biólogico

Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young revolucionaram a medicina ao encontrar o gene que sincroniza o funcionamento dos seres vivos com o dia e a noite

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
2 out 2017, 17h14

O Prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia de 2017 foi para os norte-americanos Jeffrey C. Hall, Michael Rosbash e Michael W. Young. Eles descobriram qual é o gene responsável por manter o nosso relógio biológico regulado – e qual truque esse pequeno pedaço de DNA usa para alinhar o comportamento de humanos, plantas e animais ao dia e à noite.

Segundo o anúncio oficial, o astrônomo e geofísico francês Jean Jacques d’Ortous de Mairan, ainda no século 18, foi o primeiro a testar a hipótese de que os seres vivos têm um relógio interno. Ele percebeu que as mimosas – essas plantinhas simpáticas – continuam abrindo suas folhas para o Sol mesmo quando passam o dia em um ambiente escuro. Ou seja: de alguma forma, mesmo sem ter a luz de referência, elas sabem que é dia.

Esse fenômeno de sincronização das atividades de organismos vivos com a rotação da Terra ganhou o nome de ritmo circadiano. Ele foi verificado até nas espécies animais e vegetais mais simples ao longo dos últimos séculos, mas por muito tempo a ciência não soube como um relógio tão preciso podia vir instalado, ‘de fábrica’, nas células.  

Na década de 1970, Seymour Benzer, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e um de seus alunos, Ronald Konopka, descobriram que uma mutação em um gene específico das moscas-das-frutas (Drosophila melanogaster, um animal ‘padrão’ adotado por laboratórios do mundo todo para pesquisas genéticas) era capaz de bagunçar o ritmo circadiano desses insetos. O gene foi chamado de period.

Foi aí que começou a investigação dos recém-laureados. Em 1984, Hall e Rosbash conseguiram isolar o period, e perceberam que ele produzia uma proteína chamada PER. A PER se acumula nas células durante a noite, e então se degrada com o passar do dia. Em outras palavras, sua concentração no organismo varia em ciclos de 24 horas – o que provou que o period não era só um pedaço de DNA capaz de desregular nosso relógio biológico: ele era o próprio relógio biológico.

Continua após a publicidade

O par period e PER faz isso da maneira mais curiosa possível: a função da PER é justamente impedir o period de produzir mais PER, em um processo de autorregulação.

Quando há PER demais na célula, a proteína contém a produção de si própria – e sua concentração cai. Quando a concentração fica baixa demais, não há mais nada para impedir o gene period de funcionar, e ele retoma a produção de PER. Até que a concentração aumenta de novo e ele novamente é impedido de produzi-la. E aí a concentração cai. E aí ele volta a funcionar. E assim vai, até a hora de nossa morte.

A descoberta da PER levantou duas novas perguntas: a primeira era como essa proteína, sintetizada no citoplasma, dava um jeito de entrar no núcleo – a sala de comando da célula – e impedir um gene de produzir mais PER. É tão improvável quanto um usuário do Twitter entrar na Casa Branca sem ser visto pela segurança, pedir para Trump para de usar a rede social e, milagrosamente, ser atendido.

Continua após a publicidade

É aqui que entra Young, o terceiro premiado. Em 1994, ele descobriu outra proteína, chamada TIM, cuja função é justamente ‘contrabandear’ a PER para dentro do núcleo aos poucos, na calada da noite, até o period parar de funcionar. De bônus, ele identificou o DBT – uma terceira proteína que regula o ritmo em que a TIM passa a PER para dentro, mantendo o ciclo de 24 horas estável.

Essas sacadas foram revolucionárias. Graças a Hall, Rosbash e Young, hoje está confirmado que o funcionamento do corpo humano tem ‘picos’ e ‘vales’: pela manhã, a produção de testosterona e a capacidade de concentração são mais altas. À tarde, a coordenação motora fica mais afiada. Ao anoitecer, a pressão sanguínea e a temperatura corporal aumentam, e depois do jantar vem a liberação de melatonina, o hormônio do sono.

Em última instância, hoje temos consciência de que há uma ligação sutil entre coisas grandes demais para a nossa imaginação – o movimento da Terra no vácuo – e coisas tão microscópicas quanto as moléculas que fazem a vida ser o que ela é. Um Nobel bem filosófico.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Domine o fato. Confie na fonte.

10 grandes marcas em uma única assinatura digital

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 9,90/mês*

ou
Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Super impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de 14,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.