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Lentes de contato

Craidas há cem anos para corrigir defeitos de visão, tornaram-se uma alternativa aos óculos, por questãoes de estética ou conforto. Gelatinosas ou acrílicas, vêm aí os modelos descatáveis

Por atender aos apelos da vaidade ou ainda como alternativa mais confortável aos clássicos óculos, as lentes de contato há muito deixaram de ser corpos estranhos nos olhos de quem precisa corrigir deficiências da visão. Segundo os oftalmologistas, não cessa de aumentar a procura pelas lentes – inventadas há exatamente cem anos. Em certos casos, o uso de lentes é clinicamente indicado no lugar de óculos. Por exemplo, em portadores de astigmatismos irregulares, as lentes têm a vantagem de corrigir as deformações da córnea, que caracterizam esta deficiência.

Quem primeiro imaginou uma forma de corrigir os defeitos da vista pelo contato direto da superfície ocular com outra superfície foi ninguém menos que o pintor, escultor, engenheiro, arquiteto e inventor italiano Leonardo da Vinci, em 1508. Segundo ele, o paciente mergulharia os olhos em água e conseguiria uma visão perfeita através do líquido. Já em 1636, René Descartes, matemático e filósofo francês, sugeriu a colocação de um tubo cheio de água sobre os olhos – sem dúvida, um progresso em relação aos mergulhos de Da Vinci, mas não o bastante para tornar-se um sucesso a olhos vistos.

Em 1823 o astrônomo e físico inglês Sir. John Herschel expõs a idéia de que seria possível fabricar um tipo de lente de contato cujo lado de fora, ou superfície anterior, teria o mesmo poder de refração dos olhos, enquanto o lado de dentro, ou superfície posterior, seria moldado de modo a corresponder às irregularidades da córnea, a membrana que recobre a parte colorida dos olhos, chamada íris.

Um certo August Müller, fabricante de olhos artificiais, confeccionou na Alemanha, em 1887, as primeiras lentes que realmente foram usadas. Sua finalidade, basicamente, era suprir uma deficiência resultante de uma operação: tratava-se de umedecer a córnea de um paciente que tivera as pálpebras retiradas numa cirurgia. Um ano depois, o pesquisador suíço Adolphe Eugéne Fick criou lentes cujo objetivo era a correção visual e não mais a proteção dos olhos. Por esse motivo ele é considerado o inventor da lente de contato. Suas lentes eram confeccionadas em vidro soprado, desbastado e polido, e ocupavam toda a superfície dos olhos, incluindo a córnea e a esclerótica (parte branca). Foram chamadas, por isso, lentes escleróticas.

As lentes do sr. Fick precisaram esperar o século XX para se popularizarem. O advento do plástico, na década de 30, proporcionou o grande salto. Naquela época, o plástico polimetilmetacrilato (PMMA) estava sendo desenvolvido para a fabricação de peças de avião. Por suas condições de leveza e fácil manuseio, logo foi utilizado para a confecção de lentes rígidas, também chamadas acrílicas. Em 1947, o americano Kevin Touhy lançou as primeiras lentes corneanas, ou seja, cujo diâmetro apenas cobre a superfície da córnea, de aproximadamente 11,5 milímetros.

Sua grande vantagem foi a melhoria da oxigenação dos olhos, além de diminuir a pressão sobre a esclerótica. Com o tempo, verificou-se que um menor diâmetro evitaria ainda que as lentes se mexessem, aumentando a tolerância dos olhos. Assim surgiram, em 1950, as microlentes. Daí até hoje, as lentes ógidas têm diminuído de tamanho; seu diâmetro atual, é da ordem de 9 milímetros. Também se tornaram mais finas, com a espessura variando em torno de 1 milímetro.

Mas o segundo grande avanço no setor ainda estava por vir. Em 1954, o químico checo Otto Wichterle começou a pesquisar um novo material para aumentar a oxigenação da córnea. O material deveria ser hidrófilo (absorver facilmente a água), flexível, resistente à tensão, bem tolerado pelo organismo e não-tóxico. Esse novo material plástico foi chamado de hydron. Em 1960, as primeiras lentes de hydron foram testadas na Universidade de Praga; em 1964, passaram a ser adotadas pelos oftalmologistas: eram as hoje populares lentes gelatinosas, ou soit.

Nelas, dependendo do material e da espessura, a absorção de água pode chegar a 85 por cento. Quanto maior esse índice, mais facilmente o oxigênio chega à córnea, proporcionando mais conforto. Ao contrário das lentes rígidas, as hidrofílicas têm um diâmetro maior que o da córnea, o que aumenta sua boa estabilidade: elas dificilmente caem do olho.

A nova criação, de todo modo, não aboliu o uso de lentes de plástico rígido, até porque ela não serve em casos de astigmatismo. As lentes gelatinosas são tão flexíveis que se amoldam às imperfeições, sem corrigi-las. No fundo, a escolha entre os dois tipos depende da disposição do paciente em suportar o período de adaptação, maior nas primeiras, além da Lente acrílica: sempre menor adequação clínica ao seu caso. A mais recente versão das lentes soit é a de uso prolongado, cuja espessura, entre 0,1 e 0,025 milímetro, é metade das normais. Isso aumenta consideravelmente a transmissão de oxigênio. Essas lentes devem ser retiradas pelo menos uma vez por semana, utilizandose os mesmos métodos de higiene das lentes de uso diário. No campo das lentes rígidas, enquanto isso, apareceram as de silicone, que deixam passar bastante oxigênio para a córnea.

As lentes bifocais chegaram a aparecer no mercado já na década de 50, mas não fizeram muito sucesso. Pois, tendo toda a mesma medida, não se adaptam necessariamente à curvatura com os olhos de qualquer um. E uma questão de sorte. Uma pena principalmente para a legião de pacientes que se poderiam beneficiar com a novidade. No Brasil, onde as lentes de contato são conhecidas desde 1948 e onde apenas 20 por cento dos habitantes não apresentam alguma deficiência visual, três em quatro pessoas com mais de 45 anos precisam daquele tipo de correção. Sucesso tiveram, isto sim, as lentes de contato coloridas, que transformam olhos castanhos e pretos em verdes, azuis ou ainda violeta, a cor mais procurada pelas mulheres brasileiras. A atriz Giulia Gam, olhos castanhos, para fazer o papel de Jocasta jovem na novela Mandala, recorreu a lentes coloridas a fim de ficar com os mesmos olhos azuis de Vera Fischer, a Jocasta adulta. Mas não foi para enfeitar os belos olhos de quem quer que fosse que tais lentes surgiram. Sua criação teve como objetivo melhorar a visão dos albinos, que têm grande sensibilidade à luz.

As lentes mais modernas desse tipo alternam faixas coloridas, impressas a laser, com faixas transparentes, que se misturam com a cor natural da íris. Em qualquer caso, só devem ser usadas algumas horas ao dia. O futuro das lentes de contato parece estar nos modelos descartáveis, como os que surgiram ano passado nos Estados Unidos (SUPERINTERESSANTE n.5). Ao contrário das outras lentes gelatinosas, elas não precisam ser desidratadas para moldagem. Trabalhadas no mesmo estado maleável que apresentam quando prontas, ganham com isso em qualidade.

Para saber mais: SuperMundo