Clique e Assine a partir de R$ 6,90/mês

No século 19, sobreviventes da febre amarela já usavam passaportes de imunidade

Moradores de Gibraltar, na Península Ibérica, recebiam "passes de febre" que liberavam a circulação no território. Dois deles estão guardados em um museu nacional.

Por Carolina Fioratti 25 out 2021, 18h24

Em 1804, o território de Gibraltar, localizado ao sul da Península Ibérica, passou por uma epidemia de febre amarela. Ao longo de quatro meses, mais de 2,2 mil pessoas morreram pela doença, que é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. As autoridades de saúde tentavam frear o problema, mas essa não era uma tarefa fácil – já que naquela época ninguém sabia explicar como ocorria a transmissão. 

Gibraltar era um território estratégico, já que ficava ao lado da única rota que permitia a entrada no Mediterrâneo pelo Oceano Atlântico. Era um Território Britânico Ultramarino, e servia de fortaleza para muitos militares. As pessoas viviam amontoadas dentro dos muros da colônia, dividindo um quarto para dez pessoas, por exemplo.

Além disso, nenhum rio ou nascente atravessava o território – a população precisava coletar a água da chuva em baldes para consumo próprio. Era a receita para o desastre: a água parada combinada ao ambiente quente do verão formam um prato cheio para o Aedes aegypti. As infecções só cessariam com a chegada do inverno. 

A epidemia de 1804 não foi a única: também ocorreram surtos em 1810, 1813, 1814 e 1828. Uma pesquisa publicada no periódico científico BMJ Global Health mostra que as autoridades já estavam mais preparadas para o segundo surto. Foi criado um acampamento de quarentena, para onde os infectados eram levados à força até que a situação no território melhorasse. Cerca de 4 mil pessoas passaram por lá.

Em 1814, os protocolos de segurança foram elevados a um novo patamar. Na época, voluntários recrutados como agentes de saúde passavam nas casas para monitorar os casos de infecção. Na última epidemia, em 1828, os “passes da febre” foram colocados em circulação. As autoridades perceberam que aqueles que haviam enfrentado a infecção e sobreviveram não eram mais suscetíveis à doença – ou seja, estavam imunes. Os sobreviventes ficavam livres para circular, enquanto grande parte da população permanecia em quarentena. 

Hoje, há apenas dois passes de febre para contar a história, que estão guardados no Museu Nacional de Gibraltar. Os documentos pertenciam a Juan e Anna, jovens de 17 e 14 anos, respectivamente. O sobrenome de ambos não foi desvendado, mas a grafia leva a crer que eles eram irmãos. A vacina para a febre amarela só foi desenvolvida em 1936, pelo médico sul-africano Max Theiler.

A história não é tão diferente do cenário global atual, acometido pela pandemia de Covid-19. A diferença é que hoje existem vacinas que garantem a imunidade de forma segura, e a população não precisa se expor ao vírus para se proteger. Alguns locais já exigem a apresentação do comprovante de vacinação para entrar em restaurantes, shows, competições esportivas, entre outros.

A exigência de vacinação para viagens, por exemplo, também não é novidade. Alguns países, como a África do Sul, Austrália e Cuba, exigem o Certificado Internacional de Vacinação contra a febre amarela. Antes da varíola ser erradicada, em 1970, também era preciso atestar estar protegido contra a doença para cruzar algumas fronteiras.

Continua após a publicidade

Publicidade