O que são os “sachês de nicotina”, droga que está em alta nos EUA
A substância foi a única que não sofreu declínio de uso entre jovens americanos em 2024. Entenda.

Depois da febre dos cigarros eletrônicos, uma nova substância vem ganhando popularidade entre os jovens: os sachês de nicotina. Em vídeos no TikTok, o saquinho se tornou tendência e tem sido usado por criadores de conteúdo tanto para fazer graça quanto para mostrar os males da dependência.
Mas, afinal: o que são e como funcionam esses sachês? Será que são uma alternativa menos nociva do que outras fontes de nicotina?
Os sachês não são de hoje. Eles foram popularizados no início dos anos 2000 como uma alternativa para fumantes que queriam reduzir o vício de forma gradual. Eles consistem em pequenos pacotinhos de microfibras com nicotina em pó dentro, para uso oral — o produto tem aparência semelhante a um sachê de adoçante.
O uso é simples: basta colocar o saquinho entre a gengiva e os lábios para que o pó, que pode ter essências doces (semelhantes aos sabores dos cigarros eletrônicos, como os frutados), se dissolva na boca e a nicotina seja absorvida gradualmente pelas gengivas e pelo resto da boca.
Os sachês imitam o snus, pacotinhos similares feitos com tabaco úmido inventados na Suécia — único país da União Europeia e do Reino Unido onde a venda é permitida — no século 18. A versão com bolsas de pura nicotina foi uma evolução desse produto.
Os saquinhos de nicotina ainda são novos no Brasil. Apesar de encontrados em tabacarias online, não existe registro de marcas na Anvisa (a última atualização foi feita em 6 de janeiro de 2025), ou seja, a venda ainda é irregular. Já nos Estados Unidos e na Europa o pacotinho virou febre entre os jovens, principalmente pela falta de um regulamento.
Por serem discretos e sem fumaça, o uso passa despercebido – a não ser para quem repara de perto a inquietação de quem fica ajustando o pacote na boca. De acordo com um estudo realizado pela Business Market Insights, o mercado de bolsinhas de nicotina na Europa chegou aos US$ 763 milhões em 2022, e a previsão é que alcance os US$ 1,2 bi até 2030.
Nos EUA, a venda dos saquinhos começou em 2016. Desde então, a droga vem conquistando cada vez mais espaço: entre agosto de 2019 e março de 2022 as vendas do produto saltaram de 126 milhões para 808 milhões, de acordo com uma pesquisa.
A Zyn, marca mais popular dos saquinhos, vende o produto em caixinhas redondas coloridas em um design similar a um recipiente de balas infantis. Uma análise feita pela revista Forbes estimou que no ano de 2024 as vendas bateriam US$ 1,9 bi nos Estados Unidos.
Dados do Parlamento Europeu alertam que o uso do produto pode triplicar em 2025 (o número atual de adultos usuários é de 0,3% dos europeus). O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano alega que, em 2024, 1,8% dos alunos de ensino médio faziam uso das bolsinhas de nicotina. Mesmo que o número pareça baixo, ainda é o dobro da quantidade registrada em 2023. Além disso, é a única substância que não mostrou declínio de uso entre jovens no ano passado.
Por serem relativamente novos, os efeitos à saúde a longo prazo dos sachês de nicotina ainda são desconhecidos. O que dá para saber é que o nível de nicotina deles é extremamente elevado: enquanto um único cigarro contém 8mg de nicotina (com “somente” 1mg sendo absorvido no fumo), um saquinho pode conter até 50mg de nicotina, e pelo menos metade disso pode ser absorvida no uso.
Os possíveis efeitos colaterais incluem irritação nas gengivas, dor na boca, soluços, náusea e, claro, dependência de nicotina, substância associada a problemas cardíacos, alguns tipos de câncer e que, em crianças e adolescentes, pode afetar o desenvolvimento cerebral. Os impactos na saúde bucal são incertos, mas podem ser semelhantes aos de outros produtos de nicotina, podendo causar recessão gengival localizada.
Fumantes que buscam se afastar dos efeitos prejudiciais da combustão se sentem atraídos pela natureza livre de fumaça dos sachês de nicotina. No entanto, a FDA (agência do Departamento de Saúde dos EUA) não aprovou os saquinhos como uma ferramenta para ajudar na cessação do tabagismo, e os pesquisadores ainda precisam de mais informações para entender os possíveis efeitos desses produtos no processo de parar de fumar.