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O que se sabe sobre a nova variante de coronavírus detectada em Manaus

Cepa causou primeiro caso de reinfecção no Amazonas, e pode ser mais transmissível. Nesta quinta-feira (14), estado bateu recorde de novos casos de Covid-19

Por Guilherme Eler Atualizado em 15 jan 2021, 11h30 - Publicado em 14 jan 2021, 21h52

Cientistas encontraram uma variante inédita de coronavírus circulando em Manaus, capital do Amazonas. De acordo com uma nota técnica da Fiocruz Amazônia, divulgada pelo órgão no último dia 13, a variante é uma mutação da linhagem B.1.1.28, uma das duas cepas que circulam no Brasil, e provavelmente surgiu em dezembro de 2020.

A nova variante também foi descrita num estudo que envolveu cientistas de 10 universidades e centros de pesquisa pelo mundo. O grupo analisou 31 amostras de pacientes com Covid-19 em Manaus, colhidas entre 15 e 23 de dezembro. Das amostras, 13 (42% do total) acusaram a nova variante, batizada de P.1. Você pode ler o artigo científico que comenta a descoberta clicando aqui.

O governo japonês foi o primeiro a acusar a nova cepa de vírus. No domingo (10), autoridades de saúde locais informaram que a variante apareceu em quatro pessoas que visitaram o Amazonas e retornaram ao Japão no início de janeiro.

Vírus são craques em sofrer mutações rápidas. No caso do Sars-Cov-2, por exemplo, pesquisadores notaram que, desde a primeira vez que o vírus foi identificado, há quase um ano, duas ou três novas mutações relevantes surgiram a cada mês, em média. Acompanhar novas variantes pode ser útil na tarefa de monitorar surtos. O Brasil, porém, ainda é deficiente nesse quesito. Segundo estimativas, conseguimos sequenciar apenas 0,024% dos casos confirmados no país. No Reino Unido, esse índice chega a 5%.

Ficar às cegas quanto às versões de vírus que infectam brasileiros pode ser uma ameaça à saúde pública. Tudo porque parte pequena dessas variantes virais, vez ou outra, acaba incorporando um pacote de alterações bojudo o suficiente para mudar a estrutura do vírus.

  • Foi o caso da variedade batizada B.1.1.7, encontrada na Inglaterra em setembro e, no Brasil, no dia 31 do mesmo mês. Ela se espalhou rapidamente pelo sul do país britânico, e, em algumas semanas, já era responsável por mais de 70% dos novos casos de Covid-19 registrados em Londres. Estima-se que a variedade seja até 70% mais transmissível que a primeira versão do Sars-CoV-2 que deu as caras em Wuhan, na China, no fim de 2019.

    A variedade 501Y.V2 é outro exemplo. Encontrada na África do Sul, ela também se mostrou mais contagiosa. Tanto a variação inglesa quanto a sul-africana têm em comum o fato de carregarem mudanças em suas espículas (spikes), a ‘chave’ que o vírus usa para infectar seu hospedeiro.

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    A versão encontrada em Manaus também possui modificações em genes que controlam a produção das espículas (spikes). As mutações em questão são as chamadas K417, N501Y e E484K, e vêm sendo acompanhadas de perto pelos cientistas. A última, E484K, é a que mais chama atenção. A mutação apareceu em casos de reinfecção no Rio de Janeiro e na Bahia.

    Por apresentar semelhanças com as variações estrangeiras, há suspeitas de que a versão brasileira do vírus também possa ‘vir de fábrica’ com mudanças que facilitam a entrada do Sars-CoV-2 nas células – e, por tabela, permitir com que ele se espalhe mais rapidamente. Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz Amazônia, argumentou que a nova cepa de coronavírus está por trás da alta no número de casos no Amazonas. Falta, no entanto, reunir mais dados a nível nacional que permitam cravar isso, assim como foi feito lá fora.

    O fato é que a variante manauara já vem se espalhando no estado. A variedade de coronavírus em questão foi responsável pelo primeiro caso de reinfecção confirmado no Amazonas. Segundo informações divulgadas pela Fiocruz Amazônia na quarta-feira (13), a paciente reinfectada é uma mulher de 30 anos, que vive em Manaus. Ela já se recuperou da doença.

    A nova variante já motivou a imposição de restrições. Ainda na terça-feira (12), o governo amazonense proibiu o transporte fluvial e rodoviário. Nesta quinta-feira (14), a circulação de pessoas entre 19h e 6h também ficou restrita. A série de proibições envolveu também o Pará: o estado decidiu por impedir a circulação de embarcações vindas do Amazonas, sob multa de até R$10 mil, em caso de reincidência.

    “Isto é uma medida preventiva e fundamental para que possamos evitar a ampliação do contágio dentro do estado do Pará e, consequentemente, os problemas em saúde em face à pandemia do coronavírus”, disse o governador do Pará, Helder Barbalho, em sua conta no Twitter. Caso a situação no Amazonas continue se agravando, a próxima medida seria o apelo, junto à Justiça Federal, para a suspensão de voos entre os dois estados.

    Para dificultar a entrada da nova cepa de coronavírus em seu território, a Inglaterra decidiu seguir a mesma linha. Nesta quinta-feira (14), o país decidiu pelo banimento de voos vindos do Brasil e outros países sul-americanos. A medida vale a partir desta sexta-feira (15).

    O aumento no número dos casos de Covid-19 nas últimas semanas levou o Amazonas a um colapso de sua saúde pública. Cidades por todo o estado, incluindo a capital Manaus, vem enfrentando um cenário de hospitais superlotados, falta de leitos de UTI e até mesmo de cilindros de oxigênio. Agora, negocia-se a transferência de pacientes internados para cidades do Nordeste e Centro-Oeste.

    O Amazonas registrou, hoje (14), seu recorde no número de casos desde o início da pandemia, em março de 2020. Foram 3.816 novos casos de Covid-19, sendo 2.516 só em Manaus. O recorde de hospitalizações na capital também foi superado: 254. Mais 51 mortes foram contabilizadas nas últimas 24h, levando o número de óbitos no estado para 5.930.

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