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Talidomida na gravidez

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h33 - Publicado em 26 Maio 2012, 22h00

Erro – Liberação do sedativo sem restrições para gestantes.

Quem – Comunidade científica e autoridades de saúde pública de mais de 50 países.

Quando – Fim da década de 1950, início da década de 1960.

Consequências – Pelo menos 10 mil bebês nasceram com focomelia, uma síndrome caracterizada pela má-formação de braços e pernas.

Em 1957, o laboratório alemão Chemie Grünenthal lançou a talidomida, considerada o sedativo mais confiável da época. A droga induzia um sono tranquilo em pessoas ansiosas e evitava náuseas em mulheres grávidas. O fabricante ainda garantia que a droga não provocava qualquer efeito colateral. Resultado: em pouco tempo, ela virou sucesso em mais de 50 países, inclusive no Brasil. E era vendida sem receita médica, sob as bênçãos das autoridades de saúde.

Não demorou, contudo, para que o “milagroso” remédio se revelasse uma catástrofe. Mulheres que o haviam tomado durante a gestação deram à luz bebês com focomelia, uma síndrome caracterizada principalmente pela má-formação de braços e pernas – reduzidos a pequenos ossos ligados ao tronco. O primeiro a soar o alarme foi o médico australiano William McBride. Ele denunciou os efeitos colaterais num artigo da revista científica Lancet em 1961. A droga acabou sendo retirada de circulação naquele mesmo ano. Especialistas estimam que 10 mil bebês tenham nascido com as deformações. Mas a cifra pode ser bem maior, pois muitos morreram no parto ou na infância diante das complicações cardíacas.

Danos morais

No Brasil, a talidomida só foi banida em 1965. Na prática, continuou a ser usada em alguns tratamentos, mas sem que fossem tomados os devidos cuidados, o que acabou produzindo novas vítimas. Em 1982, o governo brasileiro foi obrigado a conceder aos afetados uma pensão alimentícia cujo valor variava de meio a 4 salários mínimos.

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Dezoito anos depois, em 2010, uma lei nacional finalmente concedeu às vítimas indenização por danos morais. Hoje, a droga segue sendo consumida por pacientes de câncer, hanseníase e vitiligo, entre outras enfermidades.

Origem sinistra

Muitos pesquisadores acreditam que talidomida realmente foi inventada pela Grünenthal nos anos 50. O historiador argentino Carlos De Napoli afirma, no entanto, que a droga começou a ser testada durante o nazismo. “Ela é um derivado do ácido glutâmico”, diz De Napoli. “E não há dúvida de que os nazistas iniciaram as pesquisas em experiências com os prisioneiros dos campos de concentração.” Entre as evidências que o historiador encontrou está o livro Medicina e Química, editado pela I.G. Farben – a empresa alemã que produziu o gás Zyklon B, usado nas câmaras de gás. Num trecho da obra, o cientista Heinrich Hörlein revela que a Farben estava fazendo “experiências com o ácido glutâmico na tentativa de obter vários novos medicamentos”.

A prova mais contundente foi achada por De Napoli na antiga sede da empresa em Frankfurt, na Alemanha: um memorando que circulou entre os principais executivos I.G. Farben, em 1944, com a fórmula da talidomida. “Naquele ano, os nazistas já estavam usando a droga, não tenho a menor dúvida”, afirma o historiador. “Não que o objetivo dos cientistas de Hitler fosse gerar crianças deformadas. Eles apenas estavam trabalhando em mais uma de tantas substâncias que foram testadas nos campos de concentração.”

100 mil trabalhadores ainda morrem todo ano no mundo em função da inalação do pó de amianto.

Providências tardias

Além da talidomida, outras substâncias tóxicas foram usadas por anos sem que se soubesse de seus efeitos nocivos para a saúde

MERCÚRIO

• Entre os anos 50 e 60, cerca de 2 mil pessoas morreram misteriosamente na baía de Minamata, no Japão. Mais tarde, descobriu-se que a tragédia foi consequência do mercúrio liberado na água por uma indústria – a substância acabou contaminando os peixes que a população local consumia. Desde então, cientistas alertam para os perigos do metal. “Os prejuízos à saúde dependem do grau de exposição”, diz a química Luciana Farias, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Seus efeitos vão da perda de coordenação motora até a atrofia cerebral.” Remédios com mercúrio em sua composição, como o Merthiolate, estão proibidos em muitos países. Mas o metal ainda é usado na fabricação de tintas, fertilizantes e termômetros, além de ser empregado no garimpo de ouro.

CHUMBO

• Como o mercúrio, este também é um metal extremamente tóxico que foi usado durante anos na composição de vários produtos sem que se descobrissem seus efeitos nocivos. Tubulações de água, por exemplo, foram feitas de chumbo desde os tempos do Império Romano. Só começaram a ser abandonadas no Ocidente a partir da década de 1970. Quando inalado sob a forma de vapor ou ingerido em estado sólido ou líquido, o metal pode causar sérios danos ao sistema nervoso. Já o contato frequente com a substância – até hoje presente em baterias de automóveis, pilhas e soldas – pode levar ao saturnismo, uma contaminação muitas vezes fatal. O pintor Cândido Portinari morreu em decorrência desse mal, depois de anos de exposição ao chumbo contido nas tintas que usava.

AMIANTO

• Resistente, flexível e barata, essa fibra mineral já foi usada para fabricar uma variedade de produtos: telhas, caixas d´água, calefatores, tubos, revestimentos, entre muitos outros. Em 1898, porém, inspetores do governo britânico notaram que empregados expostos ao pó resultante de sua manipulação apresentavam problemas pulmonares. Em 1964, o médico americano Irving Selikoff descobriu que a inalação desse resíduo causava câncer de pulmão. Hoje, o amianto está banido em 58 países – entre eles o Canadá, seu maior exportador. No Brasil, a crisotila é a única variedade tolerada, embora especialistas afirmem que ela também seja perigosa. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 100 mil trabalhadores ainda morrem todo ano no mundo em função da inalação do pó.

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