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Tome vacina

Vira e mexe, um novo boato surge e faz com que as pessoas decidam não tomar suas vacinas. Mas será que o medo das injeções é infundado? Entenda aqui, de uma vez, a polêmica das vacinas

“Eu não vacino meu filho porque é meu direito decidir quais doenças erradicadas voltarão com tudo”, escreveu o The Onion, um site humorístico americano que só publica notícias falsas. A declaração pode ser mentira, mas tira sarro de uma verdade preocupante: algumas doenças que foram eliminadas em países desenvolvidos andam reaparecendo nos últimos tempos.

Em junho, a Espanha confirmou seu primeiro caso de difteria em 28 anos em um menino de 6 anos. Em 2013, os EUA tiveram a sua maior epidemia de coqueluche dos últimos 57 anos, com 48 mil infectados. E até a Disneylândia entrou na dança quando, em janeiro, virou epicentro de um surto de sarampo. Todas essas são doenças que a humanidade já havia controlado com vacinas. Esse retorno dos males do passado se deve à mais recente polêmica envolvendo as vacinas, que anda fazendo com que milhares de pais decidam não inocular seus filhos.

Há muitos motivos que levam os antivacinistas – ou antivaxxers, termo popular em inglês – a optarem por essa decisão. O principal é o medo de que exista alguma relação entre vacina e o desenvolvimento de autismo – mas o receio de contrair diabetes e esclerose múltipla, pegar a doença para a qual a vacina foi criada, ter danos neurológicos e efeitos colaterais graves também são citados.

O medo desses imprevistos – quase sempre infundado – fez com que a taxa de vacinação tenha despencado em vários países. No Reino Unido e na Irlanda, por exemplo, a taxa de cobertura da tríplice viral (contra sarampo, rubéola e caxumba) chegava a 92% da população em 1996. Em 2002, ela era de 84%. Em Londres, isoladamente, caiu para 61%. A consequência, claro, foi um aumento nos casos de sarampo e caxumba, vários com fins trágicos. Um garoto de 13 anos foi a primeira vítima fatal de sarampo no Reino Unido em 14 anos.

A nova onda de descrença nas vacinas começou em 1998. Foi quando Andrew Wakefield, um médico do Royal Free Hospital School of Medicine, em Londres, publicou na revista científica britânica The Lancet um estudo pequeno que relacionava o desenvolvimento de autismo à tríplice viral. Foi um escândalo. Depois da pesquisa, a comunidade médica no mundo todo tentou confirmar a tal ligação – mas a conexão nunca foi comprovada. O que se concluiu foi que não havia quaisquer indícios de que a MMR causasse autismo. Wakefield teve sua licença médica cassada.

Alguns jornais britânicos reportaram que tanto o hospital para o qual o médico trabalhava quanto ele próprio receberam dinheiro de advogados para levar a tal pesquisa adiante – estes, de olho no que seus clientes receberiam do governo como indenização, caso o estudo colasse. Seus clientes? Os pais das 12 crianças participantes do estudo. As denúncias foram apuradas pelo conselho médico britânico, e a conduta de Wakefield foi chamada de “desonesta e guiada por interesses pecuniários”. Em 2010, o próprio conselho se referiu ao estudo como fraudulento. Mas o estrago estava feito.

Para deixar a história mais curiosa, é preciso levar em consideração também a influência da mídia na febre antivacinista. Hollywood tem um papel importante na demonização da prática. Oprah Winfrey, Jim Carrey, Jenny McCarthy, Charlie Sheen e Rob Schneider são apenas algumas das celebridades que já se declararam contra vacinas. Não à toa, a Califórnia é justamente o lugar que abriga mais surtos de doenças evitáveis por todo os EUA. Em 2014, algumas escolas ricas de Los Angeles apresentavam uma taxa de vacinação de apenas 30% a 40% – menor do que países como o Chade ou Sudão do Sul (onde o acesso a vacinas é difícil).

Mas seria fácil se pudéssemos chamar todo mundo que decide não vacinar os filhos de loucos. Infelizmente não é bem assim. Algumas preocupações com a prática podem ser consideradas legítimas.

O buraco é mais embaixo

Na grande (grande mesmo) maioria dos casos, as reações adversas das vacinas são chatinhas, mas toleráveis: febre, fraqueza, falta de apetite e dor no local da picada. Afinal, a ideia é que o organismo adoeça, mesmo que sutilmente, já que as injeções são produzidas a partir dos micro-organismos atenuados, mortos ou fragmentados. Os médicos estão acostumados com essas pequenas reações. O problema é que, em alguns casos, elas não param por aí.

Há registros, por exemplo, de contágio vacinal – em que o vacinado desenvolve a doença cuja vacina deveria prevenir – mundo afora. A vacina contra a poliomielite, conhecida como VOP (ou Sabin, a “gotinha”), tem alguns desses casos. Segundo dados da Academia Americana de Pediatria, um em cada 2,7 milhões de vacinados pode desenvolver pólio a partir da vacina. As chances são muito pequenas: é mais fácil ser atingido por um raio três vezes em um único ano – mas acontecem. Um garoto de Washington, chamado David Salamone, foi um dos azarados. Em 1990, seus pais o levaram ainda bebê ao pediatra para sua dose de VOP. Após duas semanas, começaram a notar diferenças em seu comportamento: ele não conseguia mais se virar no berço, não girava a cabeça para os lados e não movimentava as pernas. Os médicos ficaram confusos. Dois anos se passaram assim. Pelo comportamento do bebê, além da paralisia, seus pais e os médicos notavam que ele sentia dor. Em certa altura, levaram-no a um reumatologista, que fez vários tipos de exames e constatou: David tinha poliomielite. Contraído pela vacina.

Para evitar casos parecidos, hoje, a VOP tem sido substituída pela VIP (ou Salk, injetável), que possui vírus mortos em vez de atenuados. “Desde o segundo semestre de 2012, o Brasil adotou o esquema sequencial VIP-VOP, e a interrupção da VOP será cuidadosamente programada e planejada”, diz Carla Domingues, coordenadora do Programa Nacional de Imunizações. Graças a casos como o acima, vacinas com micro-organismos vivos são cada vez menos comuns.

Para ainda ficarmos por aqui, há a recente polêmica da vacina contra o HPV, vírus que causa o câncer de colo de útero. Em 2014, o governo investiu pesado em sua divulgação. Seriam vacinadas meninas de 11 a 13 anos. A maioria delas apresentou alguns efeitos colaterais chatos, mas comuns: dor de cabeça, enjoo, mal-estar e fraqueza. Mas em março de 2014, em Caxias, Rio Grande do Sul, foram investigados dois casos de convulsão cerca de uma hora após a vacina. Há relatos também de efeitos colaterais neurológicos. Essas são reações consideradas graves, e não há até então registros delas na literatura médica. Felizmente, pouco tempo depois dos ataques, as duas gaúchas melhoraram e tiveram alta sem sequelas.

“O fato é que a recomendação da vacina vem sendo questionada. O governo japonês, por exemplo, a abandonou após reação da sociedade, por casos de problemas graves em seguida à aplicação”, disse no ano passado Daniel Becker, mestre em saúde pública e pediatra da UFRJ. Dentre os problemas graves, estão a síndrome de Guillain-Barré (uma doença neurológica), uveítes (inflamação da parte externa do olho), convulsões e encefalites agudas. “Muitos dirão que ainda não há estudos demonstrando a falta de segurança da vacina. Que as análises até agora não mostram relações causais. Mas os relatos se repetem em diversos países.”

E o que se conclui a partir disso? Oficialmente, nada. Não há nenhum estudo comprovando que essas reações tenham sido causadas pelas injeções. E esse é um dos problemas das vacinas: enquanto não houver pesquisas abrangentes, é difícil provar a relação de causa e consequência entre elas e as doenças. Bernard Dalbergue, médico francês que trabalhou por 20 anos na Merck Sharp & Dohme, empresa que produz a vacina contra o HPV (Gardasil), disse em entrevista recente: “O certo é que não se tem efeito esperado na proteção do câncer de colo de útero, e sim muitos efeitos secundários. Minha previsão é que a Gardasil será o maior escândalo médico de todos os tempos”. O francês publicou um livro quando saiu da empresa, ainda sem edição no Brasil, no qual ele relata a suposta corrupção da indústria farmacêutica. O médico tornou-se persona non grata na Merck após sua saída, que não foi pacífica. Então pode ser que ele esteja dando opiniões parciais sobre o assunto, por ter conflitos pessoais com a empresa. Mas vai saber.

Outra preocupação que tem alguma – mas ainda assim pouca – razão de ser é com o timerosal. A substância é usada como conservante de vacinas, e contém mercúrio – e mercúrio causa danos ao sistema nervoso. A quantidade presente nas vacinas é ínfima e não faz mal algum a um adulto, mas alguns neurologistas argumentam que o timerosal pode impactar no desenvolvimento neurológico de bebês e crianças, mesmo que muito sutilmente. Assim, alguns países estão se esforçando para removê-lo das vacinas – nos EUA e Canadá, por exemplo, já estão banidos. Por aqui, as vacinas compradas desde 2001 são livres da substância, mas ainda há remessas mais antigas. Por outro lado, todas as pesquisas recentes indicam que as vacinas contendo o composto não são prejudiciais. E o FDA já deu a entender que tirou o timerosal mais para se livrar da polêmica do que por danos reais.

Questão de rebanho

Agora, voltemos à manchete do The Onion, citada no início da matéria. Na verdade, ela contém uma verdade: pais que decidem não vacinar seus filhos não estão fazendo uma escolha particular – fazem uma escolha que afeta toda uma comunidade. É que existe um negócio chamado “imunidade de rebanho”, que funciona mais ou menos assim: indivíduos que recebem vacinas fazem com que haja diminuição da circulação do agente infeccioso na comunidade. Ao diminuir o número de pessoas suscetíveis, diminui também a chance de transmissão da doença para todos. Assim, os vacinados beneficiam indiretamente o grupo inteiro, inclusive aqueles que não tiveram acesso à vacinação. Para que a catapora e a difteria não se propaguem, por exemplo, a imunidade de rebanho deve ser de 80%, no mínimo. Para a coqueluche e o sarampo, a taxa é mais alta: 92 a 95%. “Quanto maior o nível de cobertura de uma vacina, maior é a idade média do primeiro contato com a doença. Isso favorece seu controle, pois adultos têm maior resposta imunológica”, diz Carla.

O rebanho é importante porque nem todas as pessoas podem ser vacinadas. Grávidas, crianças com imunodeficiências, com câncer ou muito alérgicas, e alguns outros grupos não podem tomar todas as vacinas. Esses indivíduos dependem exclusivamente da imunidade de rebanho para se manter saudáveis – para eles, não é uma questão de escolha.

É com isso em mente que dá para entender por que tantos governos mundo afora interferem numa decisão que parece ser pessoal e tornam a vacina obrigatória. Ninguém que convive em sociedade está dentro de uma bolha. Recentemente, a Austrália cortou benefícios sociais de famílias que não vacinam seus filhos. A Califórnia aprovou uma lei que proíbe que pais deixem de vacinar seus filhos por motivos de “crenças pessoais”. E, no Brasil, atender ao calendário básico de vacinação é obrigatório por lei. Caso chegue à justiça algum caso de ausência, a família pode ser multada e a pessoa, apreendida e levada para vacinação obrigatória. O argumento faz sentido: afinal, as vacinas já erradicaram doenças perigosas, como a varíola em 1980, e a pólio na América e na Europa nos anos 1990; além de controlar o tétano, o sarampo e a tuberculose no Brasil. Ao mesmo tempo, é estranho um governo obrigar você a injetar no próprio corpo uma substância estranha.

A solução é, claro, continuar pesquisando. Investigar casos suspeitos de reações adversas. Tentar se informar sobre os riscos em fontes confiáveis. Analisar os perigos e os benefícios. E fazer testes abrangentes antes de liberar uma vacina para toda uma população.

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