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Uma em cada 3 crianças no mundo tem altos níveis de chumbo no sangue

No total, são 800 milhões de crianças contaminadas. A maior parte dos casos é culpa da reciclagem de baterias de carro feita sem fiscalização adequada.

Por Bruno Carbinatto - 31 jul 2020, 16h52

Uma em cada três crianças e adolescentes do mundo todo estão intoxicados por chumbo, que pode causar diversos problemas à saúde humana, segundo um novo relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). No total, 800 milhões de pessoas entre 0 e 19 anos no mundo todo carregam alguma quantidade preocupante do metal pesado no organismo. Elas estão concentradas principalmente em países em desenvolvimento (uma classificação adotada pelo Banco Mundial que engloba a maior parte dos países que antigamente eram classificados como “subdesenvolvidos”).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o chumbo é tão tóxico que não há um nível considerado “seguro” para sua presença no sangue, e mesmo concentrações muito baixas podem causar danos severos à saúde. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos estabelece que acima de 5 microgramas por decilitro (µg/dl) é necessário intervir, e foi essa métrica utilizada pelo novo estudo. A conclusão foi que uma em cada três crianças ultrapassa esse limite.

O novo relatório escancarou que o problema tem proporções muito maiores do que se pensava até agora. A intoxicação por chumbo é especialmente preocupante em crianças porque afeta permanentemente o sistema nervoso em desenvolvimento, causando problemas neurológicos para o resto da vida. Além disso, ele se acumula nos tecidos do corpo lentamente, danificando também outros órgãos em longo prazo, como rins, coração e pulmões. Diversos estudos também já associaram maiores níveis de chumbo em uma população a um QI médio menor e até a índices de violência e criminalidade maiores.

“Com poucos sintomas precoces, o chumbo causa silenciosamente danos à saúde e ao desenvolvimento das crianças, com possíveis consequências fatais”, disse a direto executiva do Unicef, Henrietta Fore. “Saber disso deve motivar ações urgentes para proteger as crianças de uma vez por todas.”

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Já se sabe dos efeitos negativos do chumbo em nosso corpo há décadas – tanto que iniciativas de saúde pública em vários países conseguiram proibir o uso do metal na fabricação de diversos produtos.

O chumbo, porém, é muito útil em certas aplicações, especialmente na indústria química e na construção civil, o que torna impossível eliminá-lo totalmente em locais industrializados. Neste caso, as legislações quase sempre preveem que quaisquer objetos que contenham chumbo (como baterias de carro) ou tenham tido contato frequente com o metal sejam reciclados seguindo uma série de protocolos para proteger a saúde e o ambiente – e jamais descartados na natureza, onde o chumbo também tem um impacto negativo.

É aí que mora o problema: segundo o relatório, a maior parcela da contaminação por chumbo em crianças pode ser atribuída a processos precários de reciclagem de aparelhos com chumbo, especialmente baterias de carro, que utilizam o metal e ácidos para gerar energia (estima-se que 85% do chumbo usado pela humanidade vá parar em baterias de carro).

Em países de baixa e média renda, muitas vezes a reciclagem é feita pelo mercado informal, sem seguir procedimentos de segurança adequados, o que acaba contaminando as pessoas envolvidas e também o solo da região. Soma-se isso ao fato de que, nos últimos 20 anos, a venda de veículos triplicou nestes países, o que resulta em 50% das baterias tendo fins inadequados, segundo o relatório.

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É por esse motivo que os países em desenvolvimento correspondem a maior parte dos casos de intoxicação em crianças, e que quase metade dos 800 milhões de jovens afetados vive no sul da Ásia. No Brasil, estima-se que sejam 4 milhões de crianças tenham níveis altos de chumbo no sangue. Mas isso não significa que países desenvolvidos estejam livres do problema: nos Estados Unidos, são mais de 1,2 milhões de crianças afetadas, que se concentram nas famílias mais pobres. No Reino Unido, são mais de 200 mil, enquanto tanto a França como a Alemanha ultrapassam a marca de 300 mil.

Os casos de intoxicação também são culpa do uso de tubulações de água antigas, feitas com chumbo, de vazamentos de indústrias mineradoras e de outros produtos que levam o metal além das baterias de carro, como tintas e combustíveis, embora esses estejam se tornando cada vez mais raros em países com legislações eficientes.

 

 

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