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Afinal, por que é que o Brasil nunca deixa de ser pobre?

Spoiler: porque o único caminho para enriquecer é diluir a concentração de poder político-econômico. E o que fazemos é justamente o contrário

Mais de 40 milhões de brasileiros moram em residências sem acesso a água potável, mesmo estando no país com as maiores reservas de água doce do mundo. Em um terço dos 1.444 municípios do semi árido nordestino, mais de 10% das crianças sofre de desnutrição – no país que mais produz proteína animal no planeta.

Mergulhando um pouco mais na história brasileira, não é difícil perceber que riquezas naturais e qualidade de vida para a população não são necessariamente coisas que andam lado a lado. Nosso imenso potencial tem feito justamente o contrário, nos ajudando a empacar em uma nada agradável 80ª posição mundial quando o assunto é a riqueza produzida por cada cidadão. Não faz sentido. Lendo a próxima página, no entanto, você vai entender os porquês.

Primeiro, vamos rebobinar a fita da história até o século 17. Na época, o Brasil e as colônias britânicas que viriam a formar os Estados Unidos já representavam polos antagônicos na economia mundial, mas na posição inversa da de hoje.

Por aqui, produzíamos a maior riqueza conhecida na época, a cana de açúcar, que foi capaz de tornar Recife uma das cidades mais ricas do mundo. Nas colônias da América do Norte não havia um clima propício para a cana. A solução, então, foi improvisar. Primeiro, elas se tornaram um grande fornecedor de alimentos e animais de tração para as ilhas caribenhas que disputavam a produção de cana com o Brasil – já que nessas ilhas todo o território se destinava à produção de açúcar.

Aí que as coisas começaram a se desenhar. Enquanto nós e os caribenhos caíamos de cabeça na monocultura de cana, a América do Norte usava o ouro que recebia das Antilhas para criar variedade na agricultura, na pecuária, na pesca. Tudo num círculo virtuoso capaz não só de distribuir melhor a riqueza, como de criar mais riqueza. Da necessidade cada vez maior de barcos de pesca, por exemplo, surgiu uma indústria naval que logo passaria a vender embarcações para as potências europeias.

No Brasil, acontecia justamente o contrário. A cana enriquecia meia dúzia de senhores de engenho, e essa renda permanecia concentrada. Em vez de regar outros setores da economia, acabava reinvestida em mais monocultura. E seguimos assim até o século 20. Agora o café era a nova cana. Fora isso, pouco havia mudado.

A concentração de renda na economia fomentou a concentração de poder na política. Nisso, a república brasileira consolidou-se como uma sociedade extrativista, na qual esse pequeno grupo se alimentava do poder político para manter inabalado seu poder econômico, dificultando qualquer forma de inovação ou de empreendedorismo.

Lá fora, por outro lado, a diversificação dos negócios diluiu tanto o poder econômico como o político, e a inovação ganhou um papel relevante. “Inovação”, aliás, já virou uma palavra vazia, de tão mal usada. Então vamos aqui para um exemplo clássico. No Brasil, construímos nossas ferrovias com o intuito de escoar o café. Nos EUA, a malha ferroviária desenvolveu-se num primeiro momento para transportar a produção de alimentos. Num segundo, para escoar petróleo, popularizado por John D. Rockfeller na segunda metade do século 19 (ainda como fonte de energia para lâmpadas de querosene, não para carros). E aí veio uma inovação de fato: tendo de pagar cada vez mais aos donos das ferrovias, John D. decidiu construir oleodutos. Aos donos das ferrovias, coube buscar novos clientes. E aí aconteceu uma inovação ainda mais importante.

No Brasil colônia, o dinheiro do açúcar enriqueceu meia dúzia. Nos EUA, que nem produziam cana, ele criou uma indústria.

As ferrovias acabaram fomentando o comércio a distância, que também estava nascendo no final do século 19. Resultado: cem anos atrás, um americano típico já conseguia mobiliar a casa toda comprando produtos por catálogos, mesmo que morasse em uma cidade afastada. Numa cajadada só, isso bombou a demanda e a oferta de todo tipo de produto. Ou seja: ao mesmo tempo em que atiçava o comércio, isso diluía ainda mais o poder econômico – e, com ele, o poder político.

Como virar o jogo?

Para que a sua economia cresça você precisa unir trabalho (população), capital (máquinas, terras, equipamentos) e tecnologia (educação). A concentração de poder econômico e político joga contra os dois últimos fatores. É que ela gera aquilo que o pessoal da economia chama de “instituições extrativistas”. Estamos falando em leis escritas por quem se beneficia dessas mesmas leis, em governos que, via impostos, fazem com que os pobres banquem privilégios dos ricos, em uma educação que só atende um pequeno grupo de privilegiados.

Tais instituições aniquilam a educação e dão um tiro de carabina no empreendedorismo. Ou seja: o capital continua fixo nas mãos da meia dúzia de sempre, além de perdermos a capacidade de produzir tecnologia.

Na prática, isso explica por que um americano médio produz quatro vezes mais riqueza que um brasileiro, ou por que alcançaremos apenas em 2026 a mesma produtividade que cada cidadão americano tinha no início da década de 1960.

Pudera. Em termos proporcionais ao PIB, investimos três vezes menos em educação básica do que a média dos países ricos, ao mesmo tempo em que gastamos mais do que a média em ensino superior. Na prática, seis em cada dez alunos que entrem hoje na USP estão entre os 20% mais ricos da população.

Ainda que de maneira invisível, fomentamos a manutenção da desigualdade e o extrativismo de renda de formas que vão bem além do furto que você sofre todos os dias ao pagar impostos para financiar Joesley Batista e cia.

Vendedores de matéria-prima

Tudo isso ajuda a explicar por que os grandes produtos de exportação do Brasil sejam soja, minério de ferro, petróleo cru, carne, café e açúcar, enquanto os dos EUA são aviões, medicamentos, circuitos integrados. Ainda que não nos consideremos mais um país agrário, mantemos instituições idênticas às dos nossos tempos de colônia, moldadas para perpetuar problemas. Enquanto a nossa educação for uma piada; nossos impostos, uma forma de transferir renda dos pobres para os ricos, e boa parte dos nossos políticos, meros capachos de grandes empresas, não vai ter outro jeito: seguiremos na mesma, como um país desigual que vive para exportar matéria-prima. Vai um caldo de cana?

Comentários

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  1. Spoiler errado. A própria reportagem mostra a real resposta. Somos pobres porque não somos educados. Somos 1/3 de analfabetos funcionais. São mais de 7 milhōes de analfabetos. Como sair da pobreza desse jeito? A transferência de renda é paliativo, só para não deixar pessoas morrerem de fome. Se essas pessoas “desnutridas” em termos educacionais não levarem um choque de qualificação com educação nas veias, nunca deixaremos de ser pobres. Aliás países ricos, civilizados e desenvolvidos têm muita concentração de renda e poder econômico, mas por que a maioria está bem, tem qualidade de vida, etc? Foram à escola. Resolveram-se. A concentração de renda e poder não faz diferença.

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  2. Ótimo texto , mas é capaz de vir um desses boçais que acham que são “liberais” (na verdade são analfabetos) chamando o texto de “comunista”, “petista”, “bolivariano” entre outras baboseiras.

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  3. Realmente foi um ótimo texto …. “bolivariano”. Mesmo em redações de ciência, sempre tem um esquerdinha levantando a mão para redigir algo num texto de economia para dar uma forcinha “forçada” para a ideologia que crê.

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  4. Penso que o maior problema no Brasil é a educação, se fosse tratada com a devida importância desde a pré escola o país daria uns dez passos para frente, apesar que esse é um problema que não se resolve e nem tem resultado a curto prazo. Eu não vejo sinais que indicam melhorara nesse ponto! Apertem os cintos a estrada é longa e esburacada!

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  5. Jefferson Maks Garcia

    Excelente matéria, era o que eu imaginava mesmo, com governo atual que reforça essa ideia agricola que mantem Brasil na era colonial, sabendo que brasileiros tem potencial de desenvolvimento projetos, etc, mas políticos como texto bem redigido cria uma barreira para povo brasileiro se desenvolver.

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  6. Não tem como analfabeto funcional enriquecer, a não ser ganhar numa mega sena acumulada. Não tem como um formado de Ensino Médio enriquecer se não tiver um forte espírito empreendedor e uma equipe capacitada para tocar o negócio e que tivesse a SORTE de começar com pouco capital. Mas gente bem formada e capacitada com nível de conhecimento especializado tem, pois aumenta a chance de gerarem inovações e soluções, num mundo tão rico em oportunidades tecnológicas. Aumenta muito a chance de ganhar um bom dinheiro e se aposentar mais cedo, inclusive por mérito próprio, sem depender das migalhas da Previdência. Não há diluição e transferência de renda que faça as pessoas ficarem numa muito boa na vida financeiramente sem uma forte base educacional, mas só um texto escrito por um esquerdinha para “viajar na maionese” nessa possibilidade. O que falta para sermos ricos não é diluição do poder político-econômico, são pessoas com muita capacidade de formação educacional que estão por conta, com inovações, com startups, com negócios de ponta, com alta tecnologia em vários segmentos de negócios, que estão fazendo isso ao natural, ou seja, gerando riqueza e valor para a sociedade, e aí por consequências diminuindo o poder econômico das tradicionais. Por rupturas na forma de prestar serviço ou pelo aparecimento de novos produtos, via iniciativa privada, não por um ato político ou governamental. Esse não funciona. Aliás, quando o poder público falha em dar uma educação de ótima qualidade, eis o resultado, a vergonha que somos no IDH e nos índices de alfabetização e educação.

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