Clique e Assine a partir de R$ 12,90/mês

E se acontecesse uma guerra nuclear entre EUA e Rússia?

De bombas dezenas de vezes mais potentes que as de Hiroshima a uma nova Era do Gelo localizada, veja quais seriam as consequências desse confronto.

Por Fábio Marton Atualizado em 18 mar 2022, 10h32 - Publicado em 18 mar 2022, 09h33

E chega o momento que todos temiam: alguém aperta o botão vermelho. O outro lado responde em espécie. Mísseis cruzam a órbita baixa da Terra, e a humanidade se esvai num clarão. Se você imagina o apocalipse nuclear assim, está sendo terrivelmente otimista.

Os que sobrevivessem talvez sentissem inveja de quem foi vaporizado. E muitos sobreviveriam: um estudo da Universidade de Princeton (EUA) simulou os resultados de uma guerra nuclear total entre EUA e Rússia. Nesse cenário, 94,1 milhões de pessoas morreriam imediatamente.

Não parece tão ruim? Bom, outros estudos sobre os impactos globais de uma guerra nuclear, como um de 2013 pelos Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear, falam em 2 bilhões de mortes.

E não há qualquer discrepância entre esses números. Porque a imensa maioria das mortes de uma guerra nuclear viria depois das explosões.

Realisticamente, uma guerra nuclear não começaria de forma tão dramática, com países decidindo se aniquilar mutuamente. Isso é o fim de uma guerra nuclear.

O início seria mais modesto: as pouco lembradas armas nucleares táticas. Elas existem em contraste com as estratégicas, as destruidoras de cidades.

São armas com potência menor, pensadas para se usar contra alvos militares. Não é difícil imaginar que, na iminência de uma derrota, um país como a Rússia usasse o que Putin chamou de “escalar para desescalar”: disparar armas nucleares menores e em pequeno número, com o objetivo de forçar o inimigo à mesa de negociações, não de causar sua aniquilação.

Suponha que ele decida “negociar” dessa forma. Disparada a primeira dessas armas nucleares táticas, teríamos cenas horrendas nos jornais. E um tabu de 76 anos teria sido quebrado: o último uso de um artefato nuclear numa guerra aconteceu em 1945 (Nagasaki, três dias depois da bomba de Hiroshima). A Otan se sentiria habilitada a responder em espécie.

Pouco se sabe do arsenal tático russo, que é mantido em segredo. Armas nucleares táticas parecem só com bombas e foguetes comuns, não dá para detectar por imagens de satélite. Estima-se que seja grande: entre 1 mil e 2 mil. Já a arma nuclear tática da Otan é bem conhecida: a B61 – uma bomba de avião disponibilizada a vários países como Turquia, Itália, Holanda e Alemanha. Pode ser configurada para produzir uma explosão entre 0,3 e 340 kilotons – uma variação entre 2% até 22 vezes a bomba de Hiroshima (15 kilotons, que vaporizaram 70 mil pessoas instantaneamente).

Nessa escalada, a segunda fase de um conflito nuclear seria o uso dessas armas táticas, por solo ou avião, contra alvos militares. Bases da Otan e da Rússia, e forças em deslocamento. Para um caso assim, o estudo de Princeton prevê 2,4 milhões de mortos em 3 horas de combate, batendo de longe qualquer combate histórico.

Continua após a publicidade

Não havendo uma saída diplomática depois disso, começa o perigo das bombas estratégicas, as grandes. Esta é a última fase: centros populacionais seriam o alvo de mísseis balísticos intercontinentais do tipo MIRV: mais de 10 ogivas de centenas de kilotons cada uma, num míssil só, atingindo múltiplos pontos numa área de dezenas de quilômetros. Não há para onde fugir.

Primeiro teríamos as vítimas diretas, os mortos pelas explosões em si e pelas cinzas nucleares, o fallout: restos radioativos de incêndios e explosões espalhados pelo vento. Fallout pode matar imediatamente ou levar anos, dependendo da concentração. E pode tornar vastas áreas inabitáveis.

O Hemisfério Sul seguiria tranquilo, mas só até a chegada do inverno nuclear: uma grossa camada de poeira levantada da destruição das cidades do Norte flutuando na alta atmosfera e bloqueando o sol. Esse é, de longe, o maior assassino de todos.
O inverno nuclear é causado pelo lançamento de poeira e fuligem da destruição de cidades na alta atmosfera. Não é como um megaincêndio comum, como o que aconteceu no Pantanal em 2021: a energia das explosões joga essas partículas em altitudes bem maiores, semelhantes às das maiores explosões de vulcões.

Enquanto a nuvem de fumaça do incêndio do Pantanal circulou a cerca de 5 km de altitude, a poluição de uma guerra nuclear se situa na estratosfera, entre 15 e 50 km de altitude. Isso muda tudo: em baixas altitudes, a chuva se livra dessas partículas, e a nuvem se dissipa em dias ou semanas. Mas não há chuvas na estratosfera. Com isso, a nuvem se espalha pelo mundo inteiro e leva anos para se dissipar.

Compartilhe essa matéria via:

O resultado não é um breu total. Trata-se de um céu acinzentado escuro, o tempo todo. E o resultado não é igual no mundo inteiro: no Hemisfério Norte, perto dos centros da destruição, até 50% da luz solar seria bloqueada por essa nuvem. Nas latitudes mais habitadas do Hemisfério Sul (as tropicais), por volta de 30%.

O resultado é que, no Equador, a iluminação seria semelhante à de Nova York num dia de outono. Em um lugar como São Paulo, a iluminação do alto do verão seria a mesma da pior parte do inverno.

Em média, a temperatura no Brasil cairia 5 graus. Mas em alguns locais do Hemisfério Norte, como o Nordeste dos EUA e a Ásia Central, poderia cair até 30, criando uma nova Era do Gelo localizada.

A agricultura se tornaria impossível nessas regiões. A diferença entre plantar ou não é a diferença entre existir civilização ou não. Sem plantações, o Hemisfério Norte passaria por uma hecatombe. Fome e morte massivas, extinguindo cidades, países, culturas.

No Brasil, o cenário seria mais animador. A duração do dia e da noite varia pouco ou nada ao longo do ano nas latitudes tropicais. É por isso que dá para plantar aqui o ano inteiro e, mesmo com menos luz, ainda daria num inverno nuclear: trocaríamos culturas tropicais (mandioca, cana) pelas de clima temperado, como batata e trigo.

As chuvas, porém, diminuiriam em até 50%: muitos animais e plantas não conseguiriam se adaptar, levando a uma extinção em massa. Mesmo assim, o Brasil e outros lugares tropicais do Hemisfério Sul seriam um paraíso em comparação com o resto.
Em 7 anos, o inverno nuclear terminaria. E caberia às populações dos lugares menos afetados, como a nossa, recomeçar tudo. Pois é. Caro leitor, o futuro da humanidade estará nas suas mãos.

Continua após a publicidade

Publicidade

Essa é uma matéria exclusiva para assinantes. Se já é assinante, entre aqui. Assine para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Essa é uma matéria fechada para assinantes e não identificamos permissão de acesso na sua conta. Para tentar entrar com outro usuário, clique aqui ou adquira uma assinatura na oferta abaixo

Transforme sua curiosidade em conhecimento. Assine a Super e continue lendo

Impressa + Digital

Plano completo da Super! Acesso aos conteúdos exclusivos em todos formatos: revista impressa, site com notícias e revista no app.

Acesso ilimitado ao Site da SUPER, com conteúdos exclusivos e atualizados diariamente.

Receba mensalmente a SUPER impressa mais acesso imediato às edições digitais no App SUPER, para celular e tablet.

a partir de R$ 19,90/mês

Digital

Plano ilimitado para você que gosta de acompanhar diariamente os conteúdos exclusivos no site e ter acesso a edição digital no app.

Acesso ilimitado ao Site da SUPER, com conteúdos exclusivos e atualizados diariamente.

App SUPER para celular e tablet, atualizado mensalmente.

a partir de R$ 12,90/mês