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Há um ano, a Covid-19 era identificada. Veja o que aconteceu desde então – mês a mês

Só se falou de uma coisa em 2020. Relembre como uma das maiores crises de saúde pública se desenvolveu no Brasil e no mundo desde que o vírus surgiu em Wuhan.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 31 dez 2020, 14h27 - Publicado em 31 dez 2020, 14h26

Em 31 de dezembro de 2019, quando a maior parte do mundo se preparava para comemorar o ano novo, o governo da China enviava um comunicado oficial à Organização Mundial da Saúde. A mensagem alertava para um surto de “pneumonia de causa desconhecida” em Wuhan, cidade da província de Hubei. Os primeiros casos foram identificados mais cedo naquele mês. 

Dias mais tarde, cientistas chineses descobriram que a causa da doença era um coronavírus, da mesma família que havia causado os surtos de SARS e MERS no passado. Na época, a notícia não chamou muita atenção do mundo: não havia sequer a certeza de que a doença poderia ser transmissível entre humanos.

Não sabíamos na época, mas “coronavírus”, “pandemia” e demais palavras relacionadas não sairiam da boca da população nos meses seguintes. Uma das maiores crises de saúde pública global desde a Gripe Espanhola completa um ano. Relembre como tudo aconteceu, dos primeiros casos e uma quarentena global sem precedentes, ao desenvolvimento de vacinas em tempo recorde que podem mudar o cenário em 2021.

Janeiro a Fevereiro: O início de tudo

Barcroft Media/Getty Images

Nem mesmo um ano estudando a Covid-19 foi suficiente para traçar suas origens. A pandemia parece ter tido início em Wuhan, na China, onde os primeiros casos foram identificados em dezembro de 2019. No começo do ano, foi amplamente noticiado que um wet market (um mercado de rua que vende produtos como carnes, frutos do mar e animais exóticos, geralmente com baixas condições de higiene) havia sido o epicentro da crise.

Mas as informações que a ciência conseguiu ao longo do ano questionam essa ideia; hoje, acredita-se que o vírus provavelmente estava circulando antes de dezembro, inclusive em outros países. A Organização Mundial da Saúde está atualmente fazendo uma investigação oficial da origem da doença. É provável, mas não totalmente confirmado, que Wuhan tenha sido mesmo o epicentro, já que a cidade foi a primeira a ter seu sistema de saúde sobrecarregado devido aos casos de pneumonia.

De qualquer modo, o primeiro dia do ano começou com o mercado de rua de Huanan fechando. Cada vez mais pacientes apresentavam um quadro de pneumonia forte, febre e não respondiam a antibióticos. Ao longo do mês, a doença começou a se mostrar mais contagiosa do que esperado: em dias, centenas de pessoas na China foram infectadas, muitas que não haviam ido ao tal mercado. Estava confirmada a transmissão entre humanos.

Ainda naquele mês, países asiáticos como Japão, Tailândia e Índia confirmaram seus primeiros casos; a doença chegou na Europa pela França, seguindo para o Reino Unido, Itália e Suécia, além de cruzar o oceano e chegar nos Estados Unidos.

Em 11 de janeiro, a China registra a primeira morte pela doença. Neste ponto, os olhares do mundo já estão voltados para o país, que decide colocar os 11 milhões de habitantes de Wuhan em uma rigorosa quarentena – a primeira do tipo no mundo. Em 30 de janeiro, só se falava disso na mídia internacional. Pressionada, a OMS declara uma “emergência de saúde global”. Cientistas ao redor do globo começam a pesquisar o vírus em busca de tratamentos e vacinas.

Em fevereiro, a situação só piorou: enquanto a China achatava a curva de seus casos com restrições severas, testagem em massa e quarentena, diversos países enfrentavam evoluções extremamente rápidas da doença. No Brasil, o primeiro caso é identificado: um homem de São Paulo que retornava de uma viagem à Itália. Estava claro que aquilo que parecia ser um problema chinês se tornaria o maior desafio de saúde pública do século. E foi nesse mês que o inimigo ganhou um nome: Covid-19.

Março a Abril: os meses em que o mundo parou

Nicolò Campo/Getty Images

Se fevereiro foi marcado por imagens de chineses usando máscaras, março colocou em destaque as fotos de lugares turísticos completamente esvaziados. A atenção migrou da China – que nessa época já via uma redução considerável do número de casos e mortes – para a Europa. 

Em 11 de março a situação já estava fora do controle; a OMS declara oficialmente a existência de uma pandemia. Na Itália, país que mais sofreu com a crise, hospitais da região norte ficam lotados, e os médicos precisam escolher os pacientes com mais chances de sobreviver para receberem respiradores. O resto da população, isolada em casa, viralizou cantando nas varandas e reverenciando os profissionais de saúde. Em menor grau, o mesmo acontece no Irã, Espanha, Estados Unidos, Reino Unido e França.

É nesse mês que os países mais afetados também começam a decretar suas quarentenas e lockdowns – algo nunca observado no Ocidente até então. Fronteiras são fechadas, aglomerações são proibidas e só serviços essenciais, como supermercados e farmácias, funcionam. Entre o fim de março e início abril, metade de toda população mundial esteve sob algum tipo de restrição de movimento. Mesmo assim, os casos continuam a crescer exponencialmente pelo mundo. O Brasil não teve uma quarentena decretada em território nacional, embora houvessem medidas do tipo em nível local.

Em abril, a situação continua a piorar rapidamente. Os EUA lidera o ranking com o maior número de casos, mas países europeus apresentam mais mortes per capita. O primeiro-ministro britânico Boris Johsson, que chegou a subestimar o vírus e rejeitar medidas de isolamento, é o primeiro chefe de estado a ir parar na UTI após contrair Covid-19. Mais tarde, ele se recupera – e passa a defender o lockdown no país. 

No Brasil, o Ministro da Saúde Henrique Mandetta é demitido após defender medidas de isolamento e tratamentos baseados em evidências, discordando do presidente Jair Bolsonaro. Manaus é uma das cidades mais afetadas em termos proporcionais; valas comunitárias são abertas para enterrar pessoas que morrem sem conseguir leitos.

O país inteiro já teme o vírus. Dados de empresas de telefonia móvel mostram que a população brasileira se isolou em índices elevados nessa época. 

Com o mundo todo fechando suas economias, uma crise sem precedentes na história recente se instala. Milhões de trabalhadores perdem o emprego, e governos passam a gastar mais para evitar um colapso social total. Recessões são registradas em praticamente todas as grandes economias globais.

Cientistas ainda tentam entender o novo inimigo, que se mostrou muito mais desastroso do que outros tipos de coronavírus. O uso de máscaras, que já havia sido adotado amplamente no Oriente, passa a fazer parte das medidas sanitárias também no Ocidente, após discussões sobre se seriam ou não eficazes.

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Maio a Agosto: enfrentando a pandemia

Anthony Kwan/Getty Images

O ano da pandemia está estabelecido; quase todas as pautas mundiais são exclusivamente sobre o assunto. Aqui, já é possível separar os países em dois grupos: aqueles que enfrentaram bem a pandemia (Nova Zelândia, Austrália, Uruguai, Vietnã, Coreia do Sul, Japão, China, entre outros) e aqueles que figuram entre os piores índices mundiais (Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica, Itália e Brasil, por exemplo). 

Em maio, o Brasil registra pela primeira vez mais de mil mortos em 24 horas – marca que se repete em outros dias ao longo do ano. Mais um Ministro da Saúde deixa a pasta após discordâncias com Jair Bolsonaro. Desta vez, quem sai é Nelson Teich, que assumiu o cargo por menos de um mês. Ao mesmo tempo, o Brasil assume a segunda posição no ranking em números absolutos de casos, atrás apenas dos EUA.

Os primeiros países afetados (a maioria na Ásia e Europa) começam a ver uma grande redução nos casos, enquanto a América Latina passa por seu pico, assim como os Estados Unidos. Na África, a pandemia se manifesta em níveis preocupantes, mas não tão grandes em comparação com o resto do mundo. Peru, Equador, Chile e México são países latinos com situações alarmantes.

É nessa época também que a opinião pública começa a entrar em crise. Tratamentos sem evidência científica passam a ser promovidos ao redor do mundo – como o uso da cloroquina e hidroxicloroquina. No Brasil, essas ideias ganham força a e incluem outras candidatas, como a ivermectina. Ao longo do ano, diferentes estudos comprovam que esses tratamentos são ineficazes, mas a narrativa permanece com força em território nacional – em grande parte, impulsionada pelo presidente da república, que foi infectado em julho pela Covid-19. Teorias da conspiração e negacionistas também começam a se espalhar planeta afora. 

Por outro lado, profissionais de saúde e cientistas já possuem mais informações para combater melhor o vírus pelo mundo. Estudos mostram que dexametasona e outros corticoides podem ajudar a combater casos graves. O caráter trombótico da doença (que forma coágulos nos vasos e dificulta a circulação de sangue) também já é compreendido. Muitos países começam a reabrir suas economias nesta época – algumas vezes, mesmo sem ter achatado a curva de casos.

Em agosto, o número de novos casos e mortes no mundo estagnou, embora haja desigualdades regionais. A ansiedade pelas vacinas aumenta com diversas empresas divulgando resultados preliminares promissores e anunciando testes clínicos. China e Rússia aprovam parcialmente seus imunizantes – ou seja, apenas para alguns grupos da população.

No Brasil, a curva de casos finalmente parece começar a cair em agosto, embora centenas de mortes sejam registradas diariamente. A maioria das medidas de isolamento são retiradas, e aglomerações se tornam mais frequentes no país.

Setembro a novembro: segunda onda 

Stefano Mazzola/Awakening/Getty Images

Países que tiveram uma diminuição de casos e abandonaram o isolamento voltam a registrar números altos: é a chamada “segunda onda”, vista com mais força na Europa. A crise econômica e o cansaço da população dificultam a aplicação de novas medidas de restrição. Pessoas jovens passam a ser os principais infectados e transmissores da doença. Muitos países europeus têm cenários iguais ou até piores do que os observados no início do ano.

No Brasil, os números de casos e mortes continuam estagnados em níveis mais baixos até novembro, quando voltam a subir. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump testa positivo para a doença e é tratado com uma terapia em fase experimental.

No final de novembro, empresas como AstraZeneca, Moderna e Pfizer anunciam que suas vacinas são eficazes. Começa a corrida para a aprovação e distribuição dos imunizantes.

Dezembro: a ciência contra-ataca

Pool/Getty Images

Após um ano de crise mundial, as esperanças voltam a renascer com a aprovação da primeira vacina contra a Covid-19: no dia 2 de dezembro, o Reino Unido deu aval para o imunizante produzido pela Pfizer. Mais tarde, outros países fazem o mesmo, e mais candidatas, como a Sputnik V (da Rússia) e a vacina da Moderna (dos Estados Unidos) também são aprovadas.

Em 8 de dezembro, uma uma idosa do Reino Unido se torna a primeira pessoa vacinada fora de testes clínicos com um imunizante aprovado para uso geral – o da Pfizer. Começa a corrida pela compra, distribuição e aplicação das fórmulas, em meio a um fenômeno de desinformação e desconfiança por parte da população mundial com a vacina.

Em 2020, a ciência quebrou seus próprios recordes e conseguiu o incrível feito de desenvolver vacinas em apenas um ano, graças a uma combinação de investimentos massivos, tecnologias de ponta, cooperação internacional e estudos anteriores feitos com outros coronavírus, como os da SARS e da MERS.

A situação continua preocupante, mesmo com as boas notícias. Muitos países enfrentam taxas altas de contaminação, e o Brasil volta a registrar mais de mil mortes diárias. O Reino Unido identifica uma nova cepa mutante do vírus, que parece ser mais transmissível que a original. No entanto, não existem evidências de que sua letalidade tenha aumentado.

2021, o começo do fim

NurPhoto/Getty Images

Prever o futuro é impossível, pelo menos para a ciência. Mas tudo indica que a virada de ano não será bala de prata: a pandemia continuará, e muitas outras vidas serão perdidas. No entanto, pela primeira vez, temos armas efetivas para combater o coronavírus. Dependendo de como o mundo administrar a pandemia no próximo ano, poderemos observar o começo do fim da maior crise de saúde pública do século 21.

Até lá, porém, há muito trabalho a ser feito. Os números ainda são preocupantes no mundo e no Brasil – cujo plano nacional de vacinação ainda está incerto.

Restam muitas dúvidas sobre a Covid-19. Qual animal realmente passou a doença para os seres humanos? As cepas causam alguma variação importante? O vírus deixará de circular ou precisaremos estar atentos a ele para sempre? Como enfrentar uma crise econômica e social sem precedentes? A ciência se esforçará para responder essas perguntas em 2021.

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