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Na falta de lockdown nacional, precisamos falar sobre mais estratégias

Nada pode ser mais efetivo contra a pandemia do que um lockdown no país todo. Já está claro, porém, que isso não vai acontecer. Para salvar mais vidas, então, são necessárias medidas alternativas, que têm dado certo em outros países.

Por Pedro Burgos 21 Maio 2021, 12h04

Não é difícil entender por que tantos cientistas renomados defendem um lockdown nacional rigoroso. Fazer o máximo para que todo mundo fique em casa por três ou quatro semanas faz todo o sentido.

Alguém é infectado pelo Sars-CoV–2, o vírus da Covid, quando está próximo de uma outra pessoa contaminada. Fatores como uso e qualidade da máscara, se as duas pessoas estão ou não em local fechado, sem circulação de ar, afetam as chances de infecção. Dessa forma, a chance de você pegar o vírus em um restaurante ou fazendo compras no shopping – ou seja, interagindo com dezenas de estranhos – é evidentemente maior do que se você ficar em casa.

Com o fechamento total, o número de contatos cai, e é razoável crer que em três ou quatro semanas haverá significativamente menos vírus circulando. Nesse meio-tempo, quem estava infectado já desenvolveu sintomas e se hospitalizou ou estará curado. Depois de um tratamento de choque, teoricamente, tudo pode ser reaberto aos poucos com mais segurança.

Especialistas defendem que foi com lockdowns rígidos que se controlaram surtos em países ricos como Israel, Nova Zelândia, Reino Unido e Portugal. Parece lógico, então, receitar isso ao Brasil inteiro. E é o que temos visto sendo sugerido por epidemiologistas e outros cientistas com cada vez mais frequência desde março deste ano, quando os números de novos casos e óbitos ficaram assustadores.

O maior problema: não há chance política de que isso ocorra. Não em nível nacional – isto é, com todas as cidades e Estados, sincronizados, sob ordem e coordenação do Ministério da Saúde. O governo federal já deu seguidos avisos de que é mais fácil ele criar uma lei proibindo algo assim do que sugerindo a medida.

  • Há algumas semanas, nas redes sociais, pedi para cientistas “virarem o disco”. Para que, em vez de falar sempre em uma solução inexequível, darem outras orientações eficazes, que não dependam da caneta de Bolsonaro. Muitos retrucaram que o lockdown nacional é, sim, uma medida amarga, mas necessária, e que não há outra melhor. Vários disseram que outros países fizeram isso, e se o Brasil não faz é por ter um presidente negacionista (ele é, mas a discussão deste texto não).

    O primeiro problema neste debate é achar que a relutância em adotar um lockdown nacional é algo que só acontece no Brasil. Em 2020, diversos países pobres e em desenvolvimento como o nosso adotaram medidas restritivas longas e rigorosas, como Peru, Argentina, África do Sul e Índia. Diante de uma segunda onda ainda mais violenta, em 2021, não vimos o mesmo movimento se repetindo nesses lugares.

    Em parte porque agora se sabe que os custos foram maiores que o previsto, e os auxílios emergenciais não conseguiram cobrir tudo. Na Índia, os 50 dias de lockdown fizeram 122 milhões de pessoas perderem o emprego; crianças em países latino-americanos ficaram 158 dias fora da escola em 2020 – contra 95 da média mundial. O custo econômico se traduziu em custo político também. Com protestos anti-lockdown vistos da Argentina à Bélgica, ficou claro que fechar um país inteiro é politicamente arriscado – o que torna a adoção da medida ainda mais improvável por aqui, seja agora, seja numa eventual terceira onda.

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    O segundo problema da ideia de um lockdown nacional é achar que a ciência não avançou em mais de um ano de pandemia. Mesmo os países que adotaram medidas bem restritivas na segunda onda selecionaram melhor o que fechar. Estudos mostraram que limitar o funcionamento de supermercados e farmácias (onde as pessoas transitam de máscara e interagem por pouco tempo) tem pouco impacto na transmissão se comparado à criação de barreiras sanitárias entre os Estados ou as cidades mais infectadas, ou ao fechamento de bares.

    No início da pandemia não sabíamos quão baixo era o risco de contágio em lugares abertos. Hoje, entendemos que fechar parques e praias faz pouco sentido, e que crianças têm menos chances de carregar o vírus. Lockdowns totais ignoram essas particularidades.

    O terceiro problema é achar que o Brasil, um país continental, vive apenas uma pandemia, e não várias, com ritmos de contágio distintos. Enquanto escrevo este texto, Manaus está há mais de um mês sem registrar mais de dez mortes por Covid em um dia, na média móvel. Uma queda de 90% sobre o fim de janeiro. O oposto se vê em capitais do Nordeste – a segunda onda não chegou ao mesmo tempo em todos os lugares.

    Ou seja: lockdowns regionais, mais fáceis de levar a cabo, podem ser mais úteis do que se imagina. Advogar por regras nacionais uniformes é ignorar o que vem sendo feito em quase todos os países, que têm preferido adotar medidas mais localizadas, por Estado/província – restringindo inclusive a movimentação entre elas.

    Se o lockdown nacional não virá, é melhor gastar mais tempo indicando outras medidas mais factíveis, que poderiam estar salvando vidas hoje. Por exemplo: autoridades de saúde falam para evitar aglomerações o tempo todo, mas raramente dão orientações sobre minimização de riscos para quando você precisa estar aglomerado. Trabalhadores essenciais – enfermeiras, caixas de supermercado – têm que “se aglomerar” no transporte público todos os dias. Além do “use máscara”, o que tem sido dito às pessoas?

    Orientar silêncio no transporte público e maior ventilação nas salas de aula também ajudaria.

    Muito pouco. E poderiam dizer bem mais. Em diversos países, as autoridades solicitaram que os cidadãos ficassem em silêncio no metrô e ônibus. Faz todo o sentido: se todo mundo estiver com boa máscara, bem ajustada, e sem conversar, o risco de contágio cai muito. É o que Japão e França fizeram, e o transporte público deles não é menos muvucado que o nosso. Máscara boa e silêncio no transporte público é uma política barata, que não depende do governo federal, mas que não recebe comparativamente a mesma atenção de especialistas. Consequentemente são menos consideradas por governadores e prefeitos.

    É o caso da ventilação também. Escolas da Argentina colocam baratos medidores de carbono nas salas de aula, e fazem intervalos, abrindo portas e janelas, quando o ar fica parado por muito tempo – o que facilitaria o contágio. Mais uma medida simples e racional.

    Estamos há mais de um ano nessa situação. Ao que tudo indica, mesmo com vacina, é bem possível que fiquemos mais um bom tempo sob novas ondas. Precisamos de um debate mais amplo e realista se quisermos sair dessa vivos.

    Pedro Burgos, jornalista, é professor de Comunicação para o Setor Público no Insper.

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