Clique e assine a partir de 8,90/mês

O príncipe da Arábia Saudita hackeou Jeff Bezos. Entenda o caso.

Parecia apenas um vídeo bobo no WhatsApp. O que o CEO da Amazon não esperava era que Mohammed bin Salman enviaria junto um spyware para roubar seus dados.

Por Carolina Fioratti - 24 jan 2020, 18h22

Durante uma viagem de Mohammed bin Salman, príncipe da Arábia Saudita, ao Vale do Silício, ele conheceu Jeff Bezos, CEO da Amazon e dono do jornal The Washington Post. O objetivo da viagem era fazer um rebranding do pais árabe, célebre pelo conservadorismo e as violações de direitos humanos – além de abrir portas para que a economia rode com participação de outros setores que não a extração de petróleo, atualmente responsável o grosso do PIB.

Formou-se uma amizade, contatos de WhatsApp foram trocados e tudo corria bem entre dois dos homens mais ricos do mundo. Até maio de 2018, quando o herdeiro saudita enviou um vídeo para o magnata. Na época, ninguém imaginou que o príncipe saudita poderia mexer com Bezos. Estavam enganados. Após um relatório divulgado pelas Nações Unidas e uma reportagem publicada pelo jornal britânico Guardian na última terça, o caso começa a ser elucidado.

Ao que tudo indica, o vídeo veio impregnado com um programinha capaz de se infiltrar no sistema sem ser notado e roubar informações em poucas horas. Acredita-se que o software utilizado tenha sido o Pegasus-3, da empresa israelense NSO, ou o Galileu, da italiana Hacking Team. Bezos não percebeu nada até seus dados começarem a vazar. Aí fica a questão: por quais motivos MBS – sigla formada pelas iniciais de Mohammed bin Salman, que lhe serve de apelido – teria hackeado Bezos?

A explicação reside em outra polêmica: em outubro de 2018, o jornalista Jamal Khashoggi foi morto e esquartejado no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. Ele trabalhava para o Washington Post de Bezos e era um forte crítico da família saudita e de seu regime. Não era o único: o jornal comprado por Bezos não concorda com as posições de MBS e se posiciona frontalmente contra o governo de Trump, seu aliado. O assassinato foi um recado para aqueles que discordassem de seu governo. 

Continua após a publicidade

A investigação demorou para chegar ao nome de Mohammed bin Salman. Tudo começou quando Jeff Bezos denunciou estar sendo extorquido pelo veículo National Enquirer, que alegava ter informações pessoais do empresário. Eram mensagens trocadas entre ele e a ex-apresentadora da Fox Lauren Sánchez, sua namorada na época. O problema da divulgação está no fato de que Bezos havia anunciado seu divórcio com MacKenzie Bezos apenas um mês antes, o que sugeria que o namoro havia começado como um caso extraconjugal. 

O National Enquirer pertence ao American Media Inc. (AMI), que tem como CEO David Pecker, amigo de Donald Trump. Pecker ajudou o presidente dos EUA a evitar o vazamento de seus casos extraconjugais, pagando propinas às mulheres e impedindo outros veículos de dar os furos de reportagem por meio de uma série de estratégias. Pois é, mundo pequeno. 

Bezos resolveu contratar a FTI Consulting para investigar o caso, e tempos depois, relatores da ONU se envolveram devido a gravidade dos fatos do ponto de vista geopolítico. Os analistas da FTI Consulting determinaram que o vídeo era o principal suspeito. Após ele chegar ao celular, os dados começaram a ser extraídos, e a situação seguiu por meses.

Os Estados Unidos entram em uma dilema diplomático, pois têm a Arábia Saudita como um de seus principais aliados no Oriente Médio. Ajudar nas investigações pegaria mal para a camaradagem. Mas tolerar roubo de dados particulares, chantagem e uma ameaça à liberdade de imprensa também não parece uma ideia muito boa. A nós, resta esperar os próximos capítulos dessa novela.

Publicidade