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Soleimani apoiou governo sírio, se aliou ao Hezbollah e combateu o ISIS

Conheça a trajetória do general iraniano morto pelos EUA – mão direita do aiatolá que comandava operações extraoficiais nos países do Oriente Médio.

Por Maria Clara Rossini - 3 jan 2020, 18h20

Na madrugada do dia 2 de janeiro para o dia 3 de janeiro, três foguetes norte-americanos atingiram o Aeroporto de Bagdá, capital do Iraque. O ataque deixou ao menos oito pessoas mortas. O objetivo dos Estados Unidos era investir contra o comandante militar mais poderoso do Irã – e conseguiram. O general Qasem Soleimani foi morto no ataque.

Segundo o Departamento de Defesa Americano, Soleimani foi morto por ordens diretas do presidente Donald Trump. O general era um membro-chave da Guarda Revolucionária Iraniana, um corpo de elite das forças armadas do Irã que atua na defesa do regime islâmico.

Dentro da Guarda, Soleinami era comandante de uma unidade especial: a Força Quds. Ela é responsável por operações no exterior do país. O general era considerado a mente por trás das estratégias militares do Irã. Em 2019, ele recebeu a Ordem de Zolfaghar, a mais importente medalha de honra do país.

Não é pouca coisa. O general era considerado segunda pessoa mais importante do país. Ele fica atrás apenas do o aiatolá Khamenei, título concedido ao líder de hierarquia mais alta no islamismo. A Força Quds – e consequentemente, o próprio general – respondia diretamente ao aiatolá.

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Toda essa glória não é à toa. Ele ajudou a expandir a influência política, financeira e militar do Irã por sua vizinhança na Ásia e no Oriente Médio. Foi fora do país que ele ganhou maior destaque como comandante – atuando em operações extraoficiais.

Na guerra civil da Síria, ele assumiu um papel essencial em reprimir os grupos rebeldes contrários ao regime de Bashar al-Assad. Ele ordenou que algumas milícias se dirigissem à Síria para defender o governo.

Já no Iraque, a Força Quds ajudou a expulsar o Estado Islâmico – e foi isso que transformou Soleimani em um herói nacional. Em entrevista à emissora árabe Al Jazeera, o professor Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã, afirmou que “se não fosse por pessoas como ele, a região estaria dominada pelas bandeiras pretas do Estado Islâmico”.

Ele se tornou uma espécie de celebridade no Irã e outros países do Oriente Médio, daquelas que todo mundo conhece o nome e comenta na internet. Como qualquer outra figura influente, há quem idolatre e quem critique o general.

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Mas por que os Estados Unidos se interessariam em mexer com alguém tão importante?

Motivação

Em abril de 2019, os EUA classificaram a Guarda Revolucionária do Irã como um grupo terrorista – ainda que eles façam parte das forças armadas do país. Explicando melhor: do ponto de vista diplomático, declarar a Guarda Iraniana uma organização terrorista seria equivalente a equiparar o Exército Brasileiro à Al Qaeda. Sinal de que os EUA não aprovam a filosofia e os objetivos de Soleimani.

Motivos para suspeita existem, claro: ao contrário de um exército comum, a Guarda Revolucionária apoia organizações fundamentalistas paramilitares, como o Hezbollah, no Líbano, o Hamas, na Palestina, e o Movimento da Jihad Islâmica, que atua na faixa de Gaza. Todos esses também são considerados grupos terroristas pelos Estados Unidos. 

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Em nota, os Estados Unidos afirmou que Soleinami estava planejando um ataque aos diplomatas e cidadãos americanos no país. Assim, essa seria uma execução preventiva. Segundo os EUA, o general também aprovou manifestações feitas por civis na embaixada americana em Bagdá nos últimos dias. 

Essa está longe de ser a primeira investida contra Soleinami. Ele já sofreu diversas tentativas de assassinato por parte de organizações ocidentais, israelitas e árabes. O mais recente foi em outubro de 2019, quando o Irã anunciou a prisão de três membros de uma agência árabe-israelita que planejavam matar o general.

Vai ter uma Terceira Guerra Mundial?

Provavelmente não. Tudo indica que haverá retaliação por parte do Irã. O presidente do país prometeu vingança contra os Estados Unidos, enquanto parte da população iraniana saiu às ruas para protestar. Mas ainda não houve posicionamento por parte de outros países que poderiam (ou não) apontar para um conflito maior.

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Alguns dos aliados da Guarda Revolucionária são a China, Coréia do Norte e Rússia. Sozinho, o Irã dificilmente seria capaz de comandar uma guerra. A Rússia prestou condolências ao povo iraniano, mas não sinalizou para um conflito maior. Já a China pediu que todas as partes envolvidas no mantenham a calma para evitar a agravação das tensões.

Por enquanto, é pouco provável que o ataque resulte em uma guerra maior, apesar da hashtag #TerceiraGuerraMundial ter sido um dos assuntos mais comentados do dia no Twitter. Tudo o que sabemos é que os Estados Unidos começou dando uma sacudida e tanto na estabilidade internacional em 2020.

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