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A luta por tecnologia espacial

Adiamentos, dúvidas e sobressaltos. Felizmente, não foi só isso que nos deu o foguete Pegasus, da empresa americana Orbital Sciences. Deu-nos também a alegria de pôr em órbita o primeiro satélite criado e construído no Brasil, fazendo jus aos 14 milhões de dólares cobrados pelo serviço de transporte. Sem querer empanar o brilho da festa, mas, ao contrário, querendo tirar dela o melhor proveito, ouso sugerir que o país tenha melhores opções que o Pegasus. Ele foi mero táxi. Nada nos acrescentou em tecnologia, de que tanto precisamos.

O próprio ex-presidente Fernando Collor, responsável pela escolha do foguete no início de 1991, reconheceu este fato ao proclamar que a decisão sobre quem lançaria o SCD-1 seria “política e não técnica”. Sem dúvida, só uma decisão pessoal e política podia explicar a preferência pela solução que desprezava as propostas envolvendo transferência de tecnologia espacial – graça das mais difíceis de se alcançar, hoje, neste planeta. Tais propostas, da ex-União Soviética, não teriam sido consideradas devido à instabilidade naquele, país. Houve, no mínimo, erro de avaliação, pois, não obstante a crise, a Rússia, principal sucessora espacial da União Soviética, não só tem cumprido seus compromissos, como vem demonstrando invejável dinamismo no setor, com política de negócios e joint ventures bem mais liberal e agressiva que a dos Estados Unidos.

Mesmo desagradando Washington, Moscou manteve a venda de tecnologia de propulsor de foguete à Índia, que, com isso, será o primeiro país do mundo (sem contar a China), a colocar seus próprios satélites de comunicação em órbita geoestacionária. E a empresa russa Khrunichev uniu-se à americana Loockheed para comercializar o foguete Proton (206 vôos), ensaiando a primeira ameaça real à liderança do francês Ariane (50 vôos perfeitos em 55, desde 1979) no mercado de lançamentos comerciais – pelo menos 120 até o ano 2000.

A China teria sido, para nós, outra alternativa de lançamento com ganhos tecnológicos, a julgar pelo acordo firmado com o Brasil, em 1988, considerado à época como exemplo de cooperação Sul-Sul em tecnologia de ponta. Mas esse acordo, que prevê a construção conjunta de dois satélites profissionais de sensoriamento remoto, foi virtualmente paralisado pelo governo Collor. A Secretaria de Ciência e Tecnologia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), naquela fase, não lhe deram a menor atenção. O assunto, nebuloso, mereceria exame especial pelos danos materiais e morais que causou. O acordo com a China quase foi para o espaço. A retomada só está se dando agora, não sem dificuldades.

Collor, padrinho da opção Pegasus, seguia os passos de seu colega argentino Carlos Menem, apostando na relação com os Estados Unidos. Ambos supunham ser este o caminho mais rápido para o decantado Primeiro Mundo. Menem chegou, literalmente, a enterrar o foguete Condor (de fabricação argentina), diante de militares americanos. Podia ter abandonado seu lado militar e ficado com o civil, como fez o acordo brasileiro-argentino na área nuclear. Mas a vontade de agradar os Estados Unidos era tanta que ele abriu mão da capacidade de seu país de construir veículos espaciais.

Collor, também tecia loas à modernidade, como se ela nascesse de geração espontânea, pela via do mercado, sem qualquer esforço interno de capacitação científica e tecnológica. O país entrou em queda livre em áreas vitais para o desenvolvimento verdadeiro, como a do espaço. Agora, o presidente Itamar Franco, para mudar de órbita e entrar fundo na Era Espacial, terá de criar uma agência civil para intensa e ousada cooperação internacional que também nos enriqueça, concluir nosso foguete VLS, explorar comercialmente nossa privilegiada base de Alcântara. E só alugar táxi, em troca de aprender alguma coisa.