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A luta por tecnologia espacial

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h32 - Publicado em 31 mar 1993, 22h00

Adiamentos, dúvidas e sobressaltos. Felizmente, não foi só isso que nos deu o foguete Pegasus, da empresa americana Orbital Sciences. Deu-nos também a alegria de pôr em órbita o primeiro satélite criado e construído no Brasil, fazendo jus aos 14 milhões de dólares cobrados pelo serviço de transporte. Sem querer empanar o brilho da festa, mas, ao contrário, querendo tirar dela o melhor proveito, ouso sugerir que o país tenha melhores opções que o Pegasus. Ele foi mero táxi. Nada nos acrescentou em tecnologia, de que tanto precisamos.

O próprio ex-presidente Fernando Collor, responsável pela escolha do foguete no início de 1991, reconheceu este fato ao proclamar que a decisão sobre quem lançaria o SCD-1 seria “política e não técnica”. Sem dúvida, só uma decisão pessoal e política podia explicar a preferência pela solução que desprezava as propostas envolvendo transferência de tecnologia espacial – graça das mais difíceis de se alcançar, hoje, neste planeta. Tais propostas, da ex-União Soviética, não teriam sido consideradas devido à instabilidade naquele, país. Houve, no mínimo, erro de avaliação, pois, não obstante a crise, a Rússia, principal sucessora espacial da União Soviética, não só tem cumprido seus compromissos, como vem demonstrando invejável dinamismo no setor, com política de negócios e joint ventures bem mais liberal e agressiva que a dos Estados Unidos.

Mesmo desagradando Washington, Moscou manteve a venda de tecnologia de propulsor de foguete à Índia, que, com isso, será o primeiro país do mundo (sem contar a China), a colocar seus próprios satélites de comunicação em órbita geoestacionária. E a empresa russa Khrunichev uniu-se à americana Loockheed para comercializar o foguete Proton (206 vôos), ensaiando a primeira ameaça real à liderança do francês Ariane (50 vôos perfeitos em 55, desde 1979) no mercado de lançamentos comerciais – pelo menos 120 até o ano 2000.

A China teria sido, para nós, outra alternativa de lançamento com ganhos tecnológicos, a julgar pelo acordo firmado com o Brasil, em 1988, considerado à época como exemplo de cooperação Sul-Sul em tecnologia de ponta. Mas esse acordo, que prevê a construção conjunta de dois satélites profissionais de sensoriamento remoto, foi virtualmente paralisado pelo governo Collor. A Secretaria de Ciência e Tecnologia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), naquela fase, não lhe deram a menor atenção. O assunto, nebuloso, mereceria exame especial pelos danos materiais e morais que causou. O acordo com a China quase foi para o espaço. A retomada só está se dando agora, não sem dificuldades.

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Collor, padrinho da opção Pegasus, seguia os passos de seu colega argentino Carlos Menem, apostando na relação com os Estados Unidos. Ambos supunham ser este o caminho mais rápido para o decantado Primeiro Mundo. Menem chegou, literalmente, a enterrar o foguete Condor (de fabricação argentina), diante de militares americanos. Podia ter abandonado seu lado militar e ficado com o civil, como fez o acordo brasileiro-argentino na área nuclear. Mas a vontade de agradar os Estados Unidos era tanta que ele abriu mão da capacidade de seu país de construir veículos espaciais.

Collor, também tecia loas à modernidade, como se ela nascesse de geração espontânea, pela via do mercado, sem qualquer esforço interno de capacitação científica e tecnológica. O país entrou em queda livre em áreas vitais para o desenvolvimento verdadeiro, como a do espaço. Agora, o presidente Itamar Franco, para mudar de órbita e entrar fundo na Era Espacial, terá de criar uma agência civil para intensa e ousada cooperação internacional que também nos enriqueça, concluir nosso foguete VLS, explorar comercialmente nossa privilegiada base de Alcântara. E só alugar táxi, em troca de aprender alguma coisa.

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