Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês

Adeus colorido

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h34 - Publicado em 31 ago 1998, 22h00

Thereza Venturoli

O Telescópio Espacial Hubble flagra um raro show de luzes, cores e formas no céu: os últimos instantes da vida de estrelas. Descubra agora por que imagens assim excitam a imaginação dos astrofísicos.

Repare na foto ao lado e diga: o que ela parece? Uma libélula de asas transparentes? Uma hélice de avião girando? Uma pintura abstrata? Pois não é nada disso. Trata-se de uma nebulosa planetária – nuvens incandescentes de gás e poeira que envolvem uma estrela no final da sua existência. Uma espécie de flagrante do fim de um mundo.

Toda estrela de peso semelhante ao do Sol – ou seja, 95% dos astros do Cosmo – esvaece ao fim de uns 10 bilhões de anos. No seu período final, o astro começa a cuspir matéria para o espaço, criando uma nuvem de gás e poeira em torno de si. Por fim, se apaga, deixando em seu lugar um corpo morto, superdenso, chamado anã branca, envolto em uma mortalha gasosa.

Até há poucos meses, os especialistas acreditavam que as nebulosas tinham, fundamentalmente, a forma esférica. Mas essa idéia mudou graças ao telescópio Hubble, que flutua em órbita da Terra há oito anos, fotografando o Cosmo. O instrumento flagrou nebulosas de formatos inéditos. “As imagens do Hubble são de tirar o fôlego”, diz Howard Bond, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial. “Elas nos obrigam a rever as teorias sobre a formação das nebulosas planetárias.”

Os astrofísicos buscam explicações sobre as forças que geram essas esculturas celestes originais. Enquanto isso, você, leitor, se deleita com as fotos.

A estrela agonizante está aqui no centro. Mas o disco de poeira em torno dela a esconde do olhar humano

As asas transparentes são grandes nuvens que avançam pelo espaço empurradas por

sucessivos jatos de poeira e gases emitidos pelo astro (veja o detalhe ao lado)

Boboleta incandescente

A nebulosa M2-9 está a 2 100 anos-luz da Terra (1 ano-luz mede 9,5 trilhões de quilômetros), na região da Constelação de Ofiúco

A bênção e a maldição do Hubble

As imagens não lembram uma estrela. E o nome “nebulosa planetária” também é vago e impreciso. Afinal, de planeta essas nuvens não têm nada. Só ganharam essa designação há dois séculos, porque, pelo visor dos antigos telescópios – bem menos potentes do que os atuais –, apresentavam a mesma aparência borrada de planetas distantes, como Urano e Netuno.

É claro que, se você estivesse perto de uma estrela agonizante, não acharia o cenário tranqüilo ou poético. Mas, comparada com o advento de uma supernova – o final explosivo, que dura poucos segundos, de uma estrela superpesada –, a morte dos astros modestos não passa de um definhar que dura a eternidade de milênios.

Só que o Hubble viu algo bem diferente. Em sua vagarosa agonia, a estrela moribunda não lança uma única nuvem compacta de gases e poeira, mas várias bolhas gasosas, que se acumulam em camadas, feito uma cebola. Além disso, essas camadas são distorcidas por sucessivos jatos de matéria expulsa a velocidades estonteantes. É o que dá às nebulosas sua forma irreal.

Falta, agora, descascar a cebola. E entender como tudo isso acontece. Para o astrônomo Bruce Balick, da Universidade de Washington, essa é a bênção e a maldição do Hubble. “As fotos do supertelescópio estão sempre colocando em xeque nossas teorias. E, como não oferecem nenhuma idéia nova em troca, exigem cada vez mais estudo.”

Continua após a publicidade

Como acontece a explosão

A cada expulsão, os gases se engavetam, criando bolhas dentro de bolhas.

1. O primeiro jato de gás e poeira lançado pela estrela se acumula ao seu redor, formando um anel superdenso.

2. Os jatos seguintes se espremem entre o anel e o astro e acabam escapando, superacelerados, pelas aberturas existentes sobre os pólos da estrela.

A demonstração no computador

É assim que uma bolha de gás empurra outra.

1. O material que estava comprimido pelo anel em torno da estrela escapa, como um jato, a 5,6 milhões de quilômetros por hora.

2. O jato empurra os gases lançados anteriormente pela estrela, dez vezes mais lentos.

3. No ponto em que o jato superveloz atropela os gases lentos, o material esquenta e se acende.

Bem-comportada

A IC 3568, a 9 000 anos-luz da Terra, tem a forma esférica, mais comum entre as nebulosas planetárias. Os jatos supervelozes de gás se dirigem para todos os lados (setas vermelhas, no detalhe), empurrando a nuvem gasosa que foi lançada antes

Sanduíche gasoso

A NGC 7009 fica a 1 400 anos-luz da Terra. A estrela agonizante lança repetidos jatos de matéria que deformam a nuvem de gases. A composição química é a seguinte: nitrogênio nas áreas vermelhas, hélio na azul e oxigênio na verde

Envelopada para morrer

A NGC 3918, a 3 000 anos-luz da Terra, tem 3 trilhões de quilômetros de diâmetro. Dentro da nuvem esférica, que contém gases lentos e antigos, outras bolhas gasosas se expandem aceleradamente

Olho-de-gato

A NGC 6826, a 2 200 anos-luz da Terra, tem duas bolhas de material, uma mais antiga, externa, de bordas imprecisas, e outra, interna, mais recente e compacta. As manchas vermelhas marcam o choque entre as duas nuvens: aí estão os gases superaquecidos

Balões de gás

A nebulosa Hubble 5 está a 2 200 anos-luz da Terra. Em torno da estrela há um disco denso de poeira e gás (cor branca). O material lançado a velocidades altíssimas (amarelo e rosa) escapa pelos dois lados do disco

Continua após a publicidade
Publicidade