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Descoberta de protogaláxia questiona Big Bang

Descoberta de astrônomos americanos abre caminho para novas teorias sobre a origem do Universo; ainda, os eventos do mês.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h34 - Publicado em 31 mar 1990, 22h00

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Um dos mais importantes acontecimentos cosmológicos deste fim de século foi a descoberta de uma gigantesca nuvem de gás isolada no espaço cósmico. No início do ano passado, os astrônomos americanos Riccardo Giovanelli e Martha Haynes, da Universidade de Cornell, depois de estudarem a nuvem durante meses, com o auxílio do radiotelescópio de 30 metros do Centro Nacional de Astronomia e Ionosfera de Arecibo, Porto Rico, concluíram tratar-se de uma galáxia em estágio inicial de formação. Ao que tudo indica, os dois astrônomos encontraram uma protogaláxia: enorme massa de hidrogênio, em geral sem estrelas, mas grande o suficiente para formar uma galáxia quando esse hidrogênio se desfizer sob a pressão das forças gravitacionais e a matéria se aglutinar ao longo de milhões de anos.

A descoberta veio demonstrar, pela primeira vez, a possibilidade de que ainda estejam se formando galáxias no Universo, em oposição à crença generalizada de que tais formações deixaram de acontecer há bilhões de anos. A idéia consagrada é a de que as galáxias se formaram dentro de um intervalo de tempo relativamente curto, logo depois do Big Bang, que teria dado origem ao Universo há cerca de 15 ou 2O bilhões de anos. Acreditava-se que todas as galáxias se formaram de nuvens de hidrogênio que gradualmente se condensaram para constituir as estrelas, as nebulosas e os planetas. A protogaláxia, descoberta em Arecibo, consiste num envoltório difuso ao redor de duas grandes massas de gás. Elas estão se fundindo numa gigantesca nuvem que se apresenta em movimento de rotação muito lento em torno de seu próprio eixo – num período de cerca de 10 bilhões de anos, ou seja, a metade da atual idade atribuída ao Universo.

Seu diâmetro é seis vezes superior à Via Láctea e tem um décimo da sua massa – cerca de 21 bilhões de massas solares. Sua distância em relação à Terra é de 65 milhões de anos-luz. Se fosse possível observá-la com seu diâmetro aparente um pouco superior a 30 minutos de arco, a dimensão dessa protogaláxia no céu seria maior que a Lua cheia. Por outro lado, sua localização no firmamento é cerca de quatro graus a noroeste da estrela Gama de Virgem. A descoberta foi acidental. Aconteceu quando os astrônomos orientavam o radiotelescópio para um ponto supostamente vazio do céu, ao sul do aglomerado de galáxias da constelação de Virgem, para calibrar o instrumento. Surpresos, Haynes e Giovanelli detectaram uma emissão de rádio constante.

Depois de verificar que ela não vinha de nenhuma interferência produzida por emissões de rádio realizadas pelo homem, eles continuaram a estudá-la com atenção. No início, custou-lhes acreditar no que tinham descoberto. De fato, a maioria dos astrônomos não aceita facilmente a existência de tais objetos. Na realidade, objetos gasosos semelhantes haviam sido descobertos anteriormente, mas sempre associados às galáxias. Essa nuvem parece ter sido formada independentemente, em uma região do espaço isolada de outras galáxias. Isso permitiu a Haynes supor que a grande nuvem em movimento giratório seja constituída de matéria primordial, proveniente do Big Bang, ainda capaz de criar galáxias. Como a nuvem ainda não emite luz visível, não foi possível localizá-la ao examinar os levantamentos ópticos que estão nos atlas celestes. A emissão de luz visível explicaria a existência de estrelas. Provavelmente este não é um caso isolado e outras protogaláxias serão encontradas nos próximos anos.

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No entanto, a descoberta dessa protogaláxia vem eliminar uma das maiores dificuldades da teoria do estado estacionário defendida pelo astrônomo inglês Fred Hoyle: explicar a criação contínua de matéria num Universo em expansão. Até há pouco tempo, s astrônomos concordavam que todas as galáxias têm mis ou menos a mesma idade da Via Láctea, em torno de 12 a 15 bilhões de anos. Não haviam localizado nenhuma muito mais velha e não acreditavam que houvesse outras mais novas, com menos de 6 bilhões de anos – esse fato se tornou uma das primeiras e mais fortes provas contra a teoria do estado estacionário e a favor da teoria do Big Bang que dominou este século e começa agora a ser questionada.

O astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é membro da Comissão de Estrelas Múltiplas e Duplas, de História da Astronomia e de Asteróides e Cometas da União Astronômica Internacional

EVENTOS DO MÊS

Constelações

A grande atração de abril é a constelação do Cruzeiro do Sul, notável por sua forma simbólica e seu brilho. Suas principais estrelas – Alta, Beta, Gama e Delta do Cruzeiro -, de primeira magnitude, foram catalogadas pela primeira vez por Ptolomeu e permaneceram ignoradas por muito tempo até serem redescobertas nos séculos XV e XVI por navegadores que se orientavam por elas. A quinta estrela, Épsilon, de terceira magnitude, é comumente chamada Intrusa ou Intrometida. Alfa e Gama são estrelas duplas observáveis com um pequeno binóculo e Gama tem um esplêndido contraste de cores: uma das componentes é azul e a outra, alaranjada. O Cruzeiro do Sul é um excelente relógio: a linha formada por Alfa e Gama, que giram em torno do pólo aproximadamente vinte e quatro horas, permite determinar a hora, em virtude de sua posição em relação ao horizonte. No entanto, em conseqüência do movimento da Terra em torno do Sol, o Cruzeiro do Sul muda de posição ao longo do ano.

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Por isso, é preciso conhecer essas variações para estabelecer o ângulo que ele forma com o meridiano e assim determinar a hora. O pólo sul não tem uma estrela para distingui-lo como ocorre com a estrela Polar no pólo norte. Para localizá-lo, valemo-nos do método de prolongar quatro vezes até o horizonte a distância do segmento formado pelas estrelas Alfa e Gama. Próximo ao pólo está a constelação de Oitante.

Meteoros

De 15 a 28 aparecem os meteoros do enxame Grigg-Skjellerupídeos, com radiante na constelação de Vela. Em geral, são lentos e amarelo-alaranjados. No dia 23, estarão em atividade máxima. Entre 18 e 24, aparecem os Lirídeos de Abril, meteoros azuis que deixam rastro com radiante na constelação de Lira e atividade máxima no dia 21. A freqüência é de doze por hora.

Fases da Lua

Quarto crescente, dia 2, às 7h24m; Lua cheia, dia 10, às 0h18m; Quarto, minguante, dia 18, às 4h02m; Lua nova, dia 25, às 1h27m.

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Planetas

Mercúrio:
visível ao anoitecer até 25 de abril. Melhor observá-lo no dia 1°, quando estiver em sua máxima elongação leste – mais afastado angularmente do Sol.

Vênus: será o objeto mais brilhante antes do nascer do Sol do lado leste (magnitude: -4,0). Melhor observá-lo no início do mês.

Marte: visível na constelação de Capricórnio após as 2 horas da madrugada do lado leste (magnitude: 1,1).

Júpiter: visível na constelação de Gêmeos, com brilho intenso (magnitude: -1,7), logo após o pôr-do-sol, até as 22 horas.

Saturno: visível na constelação de Sagitário às 23 horas (magnitude: +0,8).

Urano:
visível às 22 horas na constelação de Sagitário (magnitude: 6,0).

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Netuno: visível na constelação de Sagitário depois das 23 horas (magnitude: 7,7).

Cometas

O Austin será visível no início do mês após o pôr-do-sol na constelação de Carneiro, muito baixo no horizonte.

Para os iniciantes, o ponto de referência para localizar os planetas é a Lua. No dia 1º, Júpiter estará ao sul; no dia 17, Saturno estará ao norte; no dia 20, Marte estará ao sul; no dia 21, Vênus estará ao norte; e no dia 29, Júpiter estará ao sul.

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