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Dispositivo estimulador de nervos pode ajudar no aprendizado de idiomas

Em testes preliminares, voluntários submetidos ao método foram 13% melhores em distinguir sons do mandarim do que aqueles que não receberam estímulos.

Por Carolina Fioratti - 7 ago 2020, 16h38

Há décadas, cientistas têm trabalhado com a estimulação do nervo vago, que sai do encéfalo e termina no estômago, para tratar problemas como a epilepsia. Mais recentemente, começaram a estudar também as vantagens do método contra a depressão e doenças inflamatórias. Agora, cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco e da Universidade de Pittsburgh, ambas nos EUA, notaram que pequenos choques no nervo podem auxiliar no aprendizado de novos idiomas. 

Os tratamentos citados anteriormente são bastante invasivos. É necessário implantar no peito do paciente um gerador de impulsos elétricos – o que não é lá muito atraente para quem só quer dominar outra língua. Pensando nisso, os pesquisadores americanos desenvolveram um dispositivo intra-auricular capaz de realizar a chamada estimulação transcutânea do nervo vago (tVNS, na sigla em inglês). Em outras palavras, criaram uma espécie de fone de ouvido que dá choquinhos pelo lado de fora do corpo, sem necessidade de um procedimento cirúrgico. 

Aparelho intra-auricular oferece estimulação não invasiva do nervo vago, podendo auxiliar no aprendizado de novos idiomas. Leonard Lab/UCSF/Jhia Louise Nicole Jackson/Divulgação

O público-alvo são adultos, que têm bem mais dificuldade que crianças com línguas novas. O dispositivo foi testado em 36 voluntários nativos de língua inglesa, que foram divididos em três grupos de 12 pessoas. Eles foram apresentados ao mandarim, uma das variações da língua chinesa. O idioma é extremamente complicado pois é tonal – ou seja, uma mesma palavra pode ter diversos significados dependendo da entonação em que é dita. Há quatro variações tonais no mandarim.

Os ensaios funcionaram da seguinte forma: o primeiro grupo de 12 voluntários teve que distinguir entre os dois tons mais fáceis de distinguir, enquanto o segundo ficou com os dois tons mais difíceis – esses 24 indivíduos estavam recebendo os choquinhos dos “fones de ouvido”. O terceiro grupo, de controle, fez os mesmos testes com o aparelho desligado. 

Como ocorre em todas as pesquisas, os voluntários não sabiam a qual grupo pertenciam. Todos usavam o dispositivo, mas alguns aparelhos estavam desligados. Os pulsos elétricos são imperceptíveis, o que torna os ensaios imparciais. O primeiro grupo foi 13% melhor em distinguir os sons do mandarim do que aqueles que não sofreram estímulos. Já o segundo grupo, que estava com os tons mais difíceis do idioma, não mostrou alterações, nem para melhor e nem para pior. Vale deixar claro que os resultados são preliminares, pois os testes foram realizados com poucos voluntários.

Os pesquisadores supõem que essa técnica de estimulação aprimora a sinalização de neurotransmissores em certas regiões do cérebro, o que aumenta temporariamente a atenção ao estímulo auditivo. Ou seja, a pessoa fica com os sentidos mais aguçados e aprende mais facilmente. Mas ainda são necessários estudos para confirmar o funcionamento do mecanismo. 

“À medida em que o mundo se torna mais interconectado, acho importante que todos tenham a oportunidade de aprender sobre outras línguas e culturas”, disse Matthew Leonard, autor sênior do estudo, à revista New Scientist. “Tecnologias como a estimulação não invasiva do nervo vago – que é simples, barata e segura – podem tornar as oportunidades mais igualitárias”, completou.

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