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Inferno de lava em Vênus

As mais recentes imagens do planeta fascinam os geólogos: elas sugerem que há vulcões ativos em sua superfície.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h39 - Publicado em 30 nov 1991, 22h00

Flávio Dieguez

Uma perspectiva de quase 1 500 quilômetros aos pés do Gula Mons, um pico de 3 000 metros de altura, revela uma paisagem que nenhum cientista, ou mesmo escritor de ficção científica, ousou imaginar. Em vez de um deserto quente como um alto-forno industrial, pavimentado por minerais eternamente inertes, a instável região da montanha é, na realidade, um inferno geológico em permanente mutação- fendida por fraturas abissais de centenas de quilômetros de comprimento, e recoberta sem cessar por escaldantes inundações de lava. Essa, pelo menos , é a conclusão dos cientistas diante das mais recentes e impressionantes imagens de Vênus, enviadas à Terra pela sonda americana Magalhães. desde setembro de 1990, ela orbita o planeta mais parecido com a Terra e o devassa de maneira sistemática com um conjunto de radares. Hoje, ele está literalmente nu, pois a espessa atmosfera que o escondia dos telescópios é transparente aos sensores da Magalhães. “Provavelmente, o mapa global de Vênus já é melhor que o que temos da Terra, cujo leito oceânico não é bem conhecido” , compara o chefe do projeto Magalhães, Steven Saunders.

Em todo o planeta, repetem-se hipóteses levantadas na região do Gula Mons, que domina uma planície de nome Eistla Região Ocidental. é o que dizem os especialistas em geologia interplanetária , como o americano John Wood, do Smithsonian Astrophysical Observatory. Logo depois que a agência espacial americana, NASA, liberou as imagens da Magalhães , ele analisou o segundo maior pico venusiano, o Maat Mons – com 8 quilômetros de altura, tão alto quanto o Everest.

“A imagem fosca dessa região indica que ela está coberta por lava fresca, expelida talvez há menos de dez anos”, afirma Wood. Ao jornal americano The New York Times, ele declarou que o Maat Mons é a melhor pista de que existem vulcões ativos em Vênus. Em setembro passado, os planetologistas se entusiasmaram com sinais enviados pela sonda americana Galileu – a caminho de Júpiter, onde deve chegar em 1996, ela captou suspeitos clarões sob as nuvens venusianas. Talvez a sonda tenha feito o primeiro registro direto de uma erupção vulcânica em Vênus, algo feito, até agora, apenas no satélite jupiteriano lo e na lua netuniana Tritão, além, é claro, da Terra.

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Um detalhe importante são as transformações químicas das rochas sob o reativo ar venusiano, composto por dióxido de enxofre e vapor de água a cerca de 500º C. Em poucos anos, tal ambiente transforma a lava escura em minerais brilhantes. Também podem atuar fortes ventos, sugeridos pelo desgaste das rochas. No final, os dados deverão esclarecer se, como Marte ,Vênus é ainda um mundo vivo. Antes de mais nada, isso tem imensa relevância para o estudo da própria Terra. Com certeza, cogita-se também da futura exploração de Vênus, que, em princípio, jamais poderá abrigar uma base habitável – se não fosse por mais nada, não há sinal de que possa existir, ou que tenha algum dia existido, água líquida no planeta. Mesmo assim, é importante saber o que é e o que não é possível, nesse mundo. Nesse momento, em que a Magalhães já fez mais da metade de um segundo mapeamento de Vênus, talvez já exista evidência para elucidar as muitas dúvidas que atormentam os cientistas.

Para saber mais:

A irmã da Terra

(SUPER número 10, ano 3)

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